ISSN 1518-2541

Hélade, Número Especial, 2001:55-59  

  

Adriene Baron Tacla, Maria Regina Candido e Alexandre Carneiro Cerqueira Lima     

Editores da Hélade

e-mail: helade@heladeweb.com

História Antiga e Internet

 

   Objetivamos, neste trabalho, discutir o uso da internet como meio de difusão de pesquisas e publicações na área de Antiguidades. Para tal, dividimos esta exposição em três partes, a saber: 1 – As possibilidades de publicação proporcionadas pela rede mundial; 2 – Algumas questões acerca das publicações convencionais em História Antiga; 3 – A Publicação Virtual.

 1. As possibilidades de publicação proporcionadas pela rede mundial

   Atualmente, as páginas que se dedicam aos estudos de Antigüidade podem ser classificadas da seguinte forma: 1 – páginas institucionais como, por exemplo, a da Escola Francesa de Atenas (EFA – www.efa.gr) e outras escolas de arqueologia (Escola Americana de Atenas, Escola Francesa de Roma, etc.), além de museus em várias cidades dispersas no mundo todo e sites de grupos de pesquisa, projetos, programas e laboratórios universitários direcionados para o estudo de sociedades antigas, tais como os projetos Perseus e Chronos; 2 – páginas pessoais, de professores, pesquisadores e ‘interessados’; 3 – sites que se dedicam à publicação de caráter científico, isto é, periódicos eletrônicos especializados no estudo de sociedades antigas, dentre os quais destacamos a Internet Archaeology (http://intarch.ac.uk/), a ArqueoHispania (www.arqueohispania.com), Cyberarqueólogo Português (www.ci.uc.pt/aia/cyberarq.html), o Journal of World Sistems Research (http://csf.colorado.edu/jwsr/) e a Hélade (www.heladeweb.com), para só citarmos alguns.

   O primeiro grupo abarca páginas que auxiliam tanto aos pesquisadores na área de Antigüidade quanto a um público mais diversificado que esteja interessado nas sociedades antigas. Os sites de museus disponibilizam, muitas vezes, aos navegantes fotos e informações sobre obras de uma determinada sociedade antiga, enquanto as homepages de universidades e das escolas de arqueologia oferecem a possibilidade do internauta pesquisar livros e documentos disponíveis em suas bibliotecas. A Escola Francesa de Atenas, por exemplo, permite, por meio de seu site, o livre acesso a seu acervo bibliográfico e até mesmo ao serviço de hospedagem da Escola para os pesquisadores do mundo inteiro.

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   Já quanto ao segundo grupo – o das páginas pessoais – constatamos que proporcionam elas uma aproximação bem maior, e muitas vezes imediata (por meio do correio eletrônico), entre o professor/pesquisador/especialista e o interessado, muitas vezes divulgando bibliografias e traduções de documentos antigos. Devemos, contudo, destacar que muitas destas páginas são criadas sem nenhum rigor científico, podendo divulgar conteúdos errôneos – como o caso de uma página que ao contextualizar a pólis de Atenas no período arcaico, afirmava que a tirania dos Pisistrátidas ocorrera no VII século a.C.

   Por outro lado, o último grupo vem ampliar o rol das publicações de reconhecido caráter acadêmico, criando periódicos especializados, mas que só existem na rede, consistindo, portanto, em publicações virtuais. Essa forma de publicação permite um maior diálogo não só entre pesquisadores, como entre os interessados pelos estudos da Antigüidade, divulgando artigos de autores de diversas partes do mundo e em diferentes línguas.

   Com efeito, a publicação virtual não somente aumenta os canais de divulgação e debate, tão necessários à produção científica, como também propicia a oportunidade de criação de publicações independentes, ou seja, periódicos que não se encontrem vinculados a qualquer instituição.  Assim, o debate científico, o compartilhar de idéias e informações, antes muito restritos às universidades e seus centros de pesquisa, começam a alcançar uma difusão nunca imaginada, ultrapassando as rígidas fronteiras entre a sociedade e a universidade.

 2. Algumas questões acerca das publicações convencionais em História Antiga

   Podemos dizer que, em nosso país, não existe, por parte das editoras, uma política séria de publicação na área de história, mormente na de história antiga. Quando dedilhamos as prateleiras das grandes cadeias de livrarias (e são estas que atingem o grande público) percebemos que as editoras brasileiras não se interessam em publicar obras novas, preferindo reeditar obras de historiadores do século XIX e do início do século XX; não havendo, em verdade, um interesse pela produção nacional em história antiga, salvo raras exceções. Donde, muitos profissionais dedicados ao estudo das sociedades antigas decidem publicar, por conta própria em pequenas editoras, suas respectivas teses e pesquisas, deparando-se, porém, com diversos problemas, dos quais destacamos os custos e a divulgação como os mais sérios.

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   Primeiro, o custo de edição de um livro (editoração, serviços gráficos e de impressão) é bastante elevado, por vezes acarretando a edição de pequenas tiragens, quando não inviabilizando completamente a publicação. Depois, a distribuição é por demais rarefeita; a grande maioria destas editoras não atinge todas as regiões do país, muitas delas longínquas, nem tampouco conseguem colocar seus livros nas grandes cadeias de livrarias. Isso quer dizer que o grande público não toma conhecimento do que é produzido na academia, e mesmo os pesquisadores não têm acesso às pesquisas dos profissionais de outras universidades e regiões.

   Ademais, as bibliotecas brasileiras não estão preparadas para atender às pesquisas dos profissionais e alunos interessados pelos estudos de sociedades antigas. Em sua maioria, possuem elas um acervo defasado e com poucos títulos e periódicos em línguas estrangeiras, principalmente em virtude do alto custo de assinatura desses últimos. A situação se torna pior se pensarmos na documentação, principalmente a arqueológica. Daí, a necessidade dos pesquisadores viajarem para universidades estrangeiras e escolas de arqueologia. Mas uma viagem deste tipo só é possível a um aluno de pós-graduação com bolsa de pesquisa, ou seja, cada vez mais percebemos que ocorre um afunilamento do acesso do saber em nosso país.

   Como um aluno de graduação em história pode pesquisar nestas condições? Talvez, uma das respostas esteja nas formas de publicação e na crescente integração que a internet vem promovendo.

 3. A Publicação Virtual

   A internet atinge um público-alvo muito diferente daquele alcançado pela publicação convencional. Possui ela um raio de ação bem mais amplo, conseguindo quebrar as barreiras muitas vezes impostas pela academia, de tal modo que uma pesquisa na área dos estudos latinos pode ser “consumida” por um físico e vice-versa. Os sites que divulgam pesquisas estão, em sua maioria, preocupados em sair da clausura estabelecida pelos limites tradicionais da academia, visando ampliar o acesso à informação, democratizando o saber científico, que não precisa ser hermético, nem restrito somente aos pares.

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   Logicamente, não podemos ser ingênuos a ponto de acreditar que todos os brasileiros têm acesso à internet. No Brasil, o computador ainda é um artigo bastante caro, sobretudo frente aos baixos salários da maioria dos brasileiros, além da baixa escolaridade e dos altos índices de analfabetismo ainda verificados no país, que também restringem o acesso ao conhecimento a uma pequena parcela da população.

   Entretanto, paulatinamente vem-se ampliando o acesso à internet, especialmente em grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo, onde se pode acessar a rede gratuitamente em universidades, nas agências dos Correios, em quiosques em centros comerciais, além da ação de ONGs, tal como o CDI, que vem trabalhando pela democratização do acesso à informática.

   Ao contrário das vias tradicionais de publicação, a internet se apresenta como um veículo muito mais acessível à produção e à divulgação de pesquisas. A rede mundial possibilita diversas formas de publicação (e-books, artigos, teses) em diferentes formatos com custos bem mais vantajosos do que os de publicação convencional. Exemplificando: um livro com cerca de cem páginas e uma tiragem de 250 exemplares não tem custo inferior a mil dólares. Já a manutenção de um periódico eletrônico, que alcançará um número infinito de leitores, não sai por mais de cento e cinqüenta dólares anuais. São cifras bastante díspares, principalmente para a nossa realidade financeira.

   As vantagens em relação à divulgação continuam para o lado das publicações eletrônicas. Um livro ou uma revista editados no Brasil na área de história antiga circula com bastante dificuldade. Geralmente vão para as prateleiras empoeiradas de nossas poucas bibliotecas, enquanto a publicação virtual atinge um público mais diversificado. Poderíamos dar o exemplo da revista eletrônica Hélade (www.heladeweb.com), da qual somos editores. Por meio das estatísticas geradas pelo servidor, constatamos que recebemos mais de duzentas visitas semanais, além de constatarmos que, em várias semanas, a Revista recebeu mais visitas estrangeiras (EUA – Virgínia, por exemplo) do que nacionais; o que demonstra o quanto uma publicação eletrônica pode alcançar.

   A Hélade está ultrapassando as barreiras lingüísticas e os limites impostos pela academia. Essa revista é lida tanto no Brasil quanto na Europa, Ásia e nas Américas. Disponibilizar os artigos gratuitamente permite não só a divulgação dos trabalhos, bem como a possibilidade de trocas e diálogos entre os pesquisadores e os internautas. O correio eletrônico é um termômetro interessante, pois recebemos as mais distintas questões e mensagens. Alguns navegantes pedem referências bibliográficas, contatos com pesquisadores/ instituições de ensino ou informações diversas.

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   Possibilitar ao grande público alcançado pela internet o contato com pesquisas atualizadas e a aquisição de livros, frutos de teses em história antiga, que formam a série de Suplementos da Hélade (temos até o momento quatro) consiste no objetivo principal da revista, ou seja, difundir as pesquisas nas diversas disciplinas que tratam das sociedades antigas.

   Não devemos, porém, imaginar que a publicação virtual venha substituir as formas convencionais de publicação. Ao contrário, ela vem somar, acrescentando outras vias, ampliando as possibilidades de divulgação de pesquisas científicas para um público que antes não era alcançado. Não se trata, pois, de substituir o livro e sim fazer chegar a esse público, assim como aos especialistas estrangeiros, o que produzimos nesse país.

  Trata-se, por conseguinte, de uma nova porta que se abre e, no nosso entender, mais do que um importante veículo para a divulgação e a propaganda de periódicos acadêmicos tradicionais, a internet consiste em um espaço alternativo de publicação, que vem se popularizando cada vez mais, atraindo editores, pesquisadores, universidades, bibliotecas, instituições de fomento à pesquisa, enfim, todos que se encontram envolvidos com a produção de pesquisas acadêmicas ao redor do mundo. Concluímos, pois, que com o potencial que a internet representa, não podemos deixar de considerá-la como uma via para aumentarmos a publicação da produção acadêmica brasileira acerca das sociedades antigas.

 

 Bibliografia

KIRSOP, Barbara. Electronic Publishing Trust for Development. Proceedings of the 10th International Conference of Science Editors (IFSE).  Rio de Janeiro: www.bireme.br/ifse-rio/, 2000.

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RUBINSTEIN, Ellis. How Is Science Being Communicated? Proceedings of the 10th International Conference of Science Editors (IFSE). Rio de Janeiro: www.bireme.br/ifse-rio/, 2000.

TENOPIR, Carol. The Use and Value of Scientific Journals: Past, Present, and Future. Proceedings of the 10th International Conference of Science Editors (IFSE).  Rio de Janeiro: www.bireme.br/ifse-rio/, 2000.

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