ISSN 1518-2541

Hélade, Número Especial, 2001:11- 18 

  

Fábio Faversani               

Professor de História Antiga do Departamento de História da UFOP

e-mail: faversan@gold.com.br

Ler e Escrever: Livros Didáticos

 

   Pretendo, nessa comunicação, discutir com vocês os livros didáticos em uma dupla perspectiva: a de quem os lê, quer como o professor que os utiliza (1), quer como o acadêmico que faz a análise crítica dessas obras (2),e a de quem os escreve. (3)

   Portanto, a minha discussão passará por essa tripla perspectiva, mesmo que de forma involuntária. Um primeiro ponto bastante lembrado quando se trata de debater os livros didáticos é o lugar que ele ocupa, em geral, no processo ensino-aprendizagem. Destaque-se que, em muitos casos, o livro didático é o único material disponível não só para alunos, mas também para professores. Sendo assim, conclui-se que o livro didático assume um lugar central no que se refere ao que seja o ensino de história e, em decorrência, um bom aferidor de sua qualidade. Estudos sobre a prática dos professores de História têm mostrado essa centralidade real (4), ainda que os debates sobre como deveria ser o ensino de História venha retirando, cada vez mais, o peso dessas obras na prática do professor.

   Outro aspecto bastante lembrado é o fato dos livros didáticos movimentarem uma indústria milionária. Para se ter idéia do quanto essa atividade movimenta, basta lembrar que mesmo os autores ganham muito dinheiro com ela... Coisa bastante rara, diga-se, quando se trata do mercado editorial brasileiro.

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   Tanto é assim que essa dupla característica: alto impacto pedagógico e grandes interesses econômicos fez com que o MEC, por exemplo, fosse instado a regular esse mercado, produzindo uma crítica externa à indústria e consumidores. Os livros são classificados por especialistas que os analisam e, conforme sua avaliação, eles são excluídos das compras feitas pelo Estado. A idéia é circunscrever a escolha dos professores àqueles títulos que sejam reconhecidos como minimamente qualificados para cumprir seu importante papel e justificar os vultuosos investimentos que são feitos na sua aquisição. Ou seja, em outras palavras, coloca-se um filtro entre o encomendante das obras, os professores, e os seus produtores, os editores. Percebeu-se que esse filtro era necessário. Importante fazer notar a tensão que envolve esse trabalho, já que ele acaba sendo um importante orientador para o mercado, mesmo quando a classificação do MEC não precisa ser obedecida, como é o caso das escolas da rede particular.

   O que nos parece interessante indicar para uma análise dos livros didáticos, especialmente no que se refere ao tratamento dado à História Antiga nessas obras, é que os livros estão inseridos em circuito de comunicação ou de produção e consumo (5), não sendo algo em si. Para analisar seu conteúdo, impõe-se pensar em como ele é produzido e consumido, pensar essa obra como um produto social mais do que simples registro. A maior parte das análises de livros didáticos segue sendo um estudo do que são estes textos frente ao que eles deveriam ser tendo em vista o estado da arte no que se refere ao que é produzido pela historiografia e/ou em relação ao que eles deveriam propiciar para que se realizasse o que se discute como sendo o perfil mais adequado para o ensino de história. Em síntese, a maior parte das análises dos livros são feitas por acadêmicos que discutem o quanto os livros didáticos se aproximam das discussões feitas por eles próprios. Eu excetuo aqui as análises feitas pelo MEC, que obedecem a outros critérios.  

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   Quando tratamos que eles estão inseridos em circuito de comunicação ou de produção e consumo, queremos destacar que eles integram comprador (governo ou pais), autor, editor, professor e aluno. Nesse circuito temos, de um lado, o editor buscando colocar no mercado um produto que tenha aceitabilidade e que, para tanto, procura um autor que se proponha a tratar de temas que vão das chamadas comunidades primitivas à história mundial recente, em uma obra dividida em quatro volumes. Aqui já aparece um limite íntrinseco à produção desse tipo de obra. Como uma única pessoa ou uma pequena equipe de apenas até cinco pessoas pode estar a par do estado da arte em termos da produção acadêmica para produzir um texto de qualidade sob esse ponto de vista? Trata-se de algo, claramente, impossível. Aumentar a equipe significa uma série de problemas na execução dos trabalhos, contratos, manutenção de uma certa unidade da obra, etc. Não é a toa que as coleções didáticas não têm muitos autores.

   Por outro lado, temos os compradores. Nesse ponto, os professores têm papel fundamental. Eles têm um peso muito grande na decisão de compra tanto das agências governamentais quanto dos pais e alunos da rede privada. Sendo assim, esse livro didático que se quer vender – fique claro que, regra geral, o que mais se quer com um livro didático é vendê-lo – tem que convencer o professor de que ele é bom, bom para ser utilizado na sala de aula...

   Aí que surge uma resposta para o mistério dos livros receberem tanto investimento, tanta atenção e continuarem sendo tão fracos. A formação dos professores, as oportunidades de requalificação, a remuneração recebida, o tempo para investir na preparação do trabalho de sala de aula, tudo enfim, é muito precário. É para esse professor, nessas condições reais, que o livro é feito. Com todo o risco que a generalização impõe e ressalvando as honrosas exceções, creio ser possível dizer que, bem comparadas, a qualidade das obras e dos professores não dista muito uma da outra e a chave para termos melhores livros está em termos professores capazes de utilizá-los. Ou seja, parece-me que há uma correlação entre essas variáveis e a determinação é mais forte no sentido professor à livro do que em sentido contrário.  

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   Nada adiantaria termos livros atualizadíssimos, de acordo com que o que há de mais avançado em termos de Ensino de História, se não houver professores para usá-los.

   Essa constatação nos parece ainda mais urgente no caso da História Antiga. Não por acaso, a História Antiga parece ser a mais castigada nos textos didáticos. Ora, e a formação recebida pelos professores na graduação? E as possibilidades de requalificação? E o acesso a materiais que possam ser estudados para preparar aulas para além do próprio livro didádico? Tudo isso é muito precário fora e antes do livro didático. Não é a toa que vivemos, em Minas Gerais por exemplo, um forte movimento de banimento da História Antiga dos currículos escolares. Pergunta-se para quê serve isso? Dentro dessa pergunta, cuja resposta é tão óbvia, só podemos ouvir outra, qual seja: História Antiga, o que é isso? O caso de Minas não é excepcional. Nossa sub-área do conhecimento está relegada a uma condição bastante subsidiária dentro dos currículos oficiais e ainda mais precária quando se toma contato com os currículos ocultos, ou seja, os que efetivamente são aplicados nas escolas.

   Sabedor disso, pareceu-me mais interessante ainda o desafio de escrever capítulos de um livro didático cobrindo as civilizações egípcia, grega e romana para a Rede Pitágoras, cujas escolas ficam sediadas, em sua maior parte, em Minas Gerais, onde, como já foi dito, a História Antiga foi banida dos currículos oficiais e de quase todos os programas de vestibulares do estado.

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   Essa experiência me mostrou que há uma série de limitações para produzir um texto desse tipo, que nem se imagina antes de estar trabalhando diretamente com isso. No meu caso, a tiragem é pequena frente àquelas que têm as grandes editoras do ramo. São apenas cerca de dez mil exemplares por edição. Isso impõe limitações em termos da qualidade gráfica do texto por trabalhar sem fotolitos, da possibilidade de usar ilustrações já disponíveis, que precisam ser compradas, ou trabalhar com os melhores ilustradores disponíveis no mercado. A equipe de pesquisa também é limitada. O espaço que se tem para abordar temas tão amplos é pequeno, opressivamente pequeno, às vezes. Tratar de Egito, Grécia e Roma em setenta páginas é, definitivamente, uma aventura perigosa.

   Gostaria de dedicar algumas palavras a isso. Escolher eixos que orientem a análise é fundamental em qualquer texto que produzamos, é claro. Mas nesse caso, a escolha dos eixos é ainda mais impositiva. Além disso, esses eixos não podem ser só seus. Devem ser de todos os autores, valer para todos os capítulos, para o estudo dos diversos períodos históricos.

   Após muito debate, elegemos casa, poder e trabalho como eixos. Mesmo assim, como tratar estes temas sem minimamente os contextualizar, informar mesmo o consumidor desse livro, em especial os alunos de quinta série que estudam Egito, Grécia e Roma em tão pouco espaço? Minha proposta era dar um peso razoável a um quadro informativo, trazendo fatos, nomes e datas relevantes para que se compreenda onde estão a casa, os trabalhadores e as relações de poder que seriam estudadas.

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   Aqui surge um problema: o livro não pode tomar um perfil tradicional, que é abominado pelos editores e professores. O livro pode ser calcado na historiografia mais tradicional, como muitas vezes se vê, mas deve ter um formato, apresentação do texto, que não deixe isso claro.

   Mesmo não produzindo uma história factual, meramente descritiva, mas tão somente procurando qualificar minimamente as análises e as propostas de discussão e pesquisa a serem realizadas por professores e alunos em uma quantidade de dados mais ampla, percebi muita resistência. O consenso é de que o texto não pode ficar muito “pesado”. Depois de muitas discussões com a equipe, com consultores e editores, foi mantida uma carga que eu chamaria de informativa bastante superior a que seria desejada pelos meus parceiros e também àquela que vejo nas publicações congêneres.

   Pois bem, a obra foi para as escolas e, como todos os meus parceiros nessa empreitada já me advertiam, essa opção não seria bem vista pelos professores. Dito e feito. O retorno que veio das escolas foi de elogiar bastante o trabalho, mas ressalvar que há ali muita informação a ser trabalhada, que o livro é muito pesado. Sinceramente, parece-me bem o contrário, mas, apesar de ter o defeito de ser teimoso, não cometo o pecado de ser arrogante ou intransigente e deverei trabalhar na criação de alternativas para que a História Antiga possa seguir sendo trabalhada nessas escolas de forma a se preservar como a referência fundamental que é para o estudo da História.

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   Assim, parece-me que a partir da experiência de trabalho como professor que usa livros didáticos, de docente que trabalha na requalificação de professores e na crítica dessas obras e de autor livro didático, é fundamental investigar de forma mais integrada o processo de produção da educação que temos no ensino fundamental e médio. Consideradas estáveis as condições de oferta dessa educação, hipótese que me parece razoável, gostaria de investigar melhor o que é a história antiga no Brasil na graduação e na pesquisa, inicialmente, para depois voltar a investigar de forma mais qualificada o que ocorre com a História Antiga no ensino médio e, especialmente, no ensino fundamental. Essa pesquisa já teve início e seus resultados ainda parciais estão publicados no outro texto de minha autoria nesse dossiê do GT de História Antiga da ANPUH.

   Por ora e, em conclusão, minha hipótese é que os limites que vemos no trabalho com História Antiga no ensino básico é decorrente das fragilidades na formação e requalificação de professores, além do pouco acesso a outras fontes de informação disponíveis sobre História Antiga para estes professores. Em síntese, parece-me que nós, acadêmicos, principais críticos das mazelas da educação básica, somos também um dos principais responsáveis pelos problemas que diagnosticamos não poucas vezes de forma bastante ácida. Minha investigação nesse campo, daqui por diante, seguirá sendo orientada pela reflexão acerca das possibilidades de reversão desse quadro.

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Notas

1 - Fui professor de primeiro e segundo graus entre os anos de 1986 e 1991, em São Paulo, trabalhando em escolas que utilizam diferentes materiais didáticos. Vivenciei três situações com relação ao uso de material didático em escolas: 1. aquelas que produziam seu próprio material didático, 2. que o compravam de redes de escolas visando a preparação para o vestibular (as famosas apostilas), 3. que usavam livros didáticos.

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2 - Escrevi, como resultado dessa reflexão, um artigo em co-autoria com Luiz Carlos Villalta, que foi publicado em 1994 na revista Vértice, de Portugal. Essa reflexão ocorreu em especial em função de minha atuação em cursos de qualificação de professores, onde atuava, em especial, ministrando aulas sobre métodos e técnicas do ensino de história. Nessas ocasiões, a discussão sobre a avaliação dos livros didáticos e sua forma de utilização pelos professores era uma constante.

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3 - Sou co-autor dos livros didáticos de 5ª série da Rede Pitágoras, tendo escrito os capítulos referentes à História Antiga (“Egito.” In: VILLALTA, Luiz Carlos; FAVERSANI, Fábio; ALVARENGA, Thábata de Araújo. História. Ensino Fundamental. 5a série. v. 1. Belo Horizonte: Editora Universidade, 2000. (Coleção Pitágoras) 18 pp. “Grécia.” In: VILLALTA, Luiz Carlos; FAVERSANI, Fábio; ALVARENGA, Thábata de Araújo. História. Ensino Fundamental. 5a série. v. 1. Belo Horizonte: Editora Universidade, 2000. (Coleção Pitágoras) 26 pp. “Roma.” In: VILLALTA, Luiz Carlos; FAVERSANI, Fábio; ALVARENGA, Thábata de Araújo; CERQUEIRA, Adriano Lopes da Gama; SILVA, Edna Mara Ferreira da. História. Ensino Fundamental. 5a série. v. 2. Belo Horizonte: Editora Universidade, 2000. (Coleção Pitágoras) 26 pp.). O público de leitores é “cativo”, uma vez que os professores e alunos da Rede não podem optar por dispensar o uso desse material, ainda que seja fortemente recomendado o uso de outros materiais paralelamente.

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4 - Citamos, como exemplos os estudos de ZAMBONI, Ernesta et alii. “Sabores e dissabores do ensino de História”. Revista Brasileira de História, 9. São Paulo: ANPUH, 1990. pp. 181-195. e VILLALTA, Luiz Carlos. “Dilemas da relação teoria e prática na formação do professor: alternativas em perspectiva”. Trabalho apresentado no 6o Congresso Brasileiro de Educação. São Paulo: datiloscrito, 1991.

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5 - DARNTON, Robert. “O que é a história dos livros?” In: O beijo de Lamourrete: Midia, cultura e revolução. São Paulo: Cia. das Letras, 1990. pp. 109-131.

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