ISSN 1518-2541

 Hélade 3 (2), 2002: 63

Adriene Baron Tacla

Doutoranda em Arqueologia, University of Oxford

e-mail: adrienebt@yahoo.com.br 

 

The Corrupting Sea

Horden, P. , Purcell, N. The corrupting sea : a study of Mediterranean history Oxford: Blackwell, 2002 (2nd ed.)

The Corrupting Sea’ (volume 1 com 761 páginas e um segundo volume a caminho, versando sobre os contatos do Mediterrâneo com outras regiões) chega até nós como uma ambiciosa proposta de abarcar a História do e no Mediterrâneo num gigantesco período de tempo, abrangendo desde a pré-história até o século XX. Se a princípio a opção por tamanho corte temporal pode nos chocar, sobretudo considerando que feita em épocas em que a redução da escala de análise, com diminutos cortes temporal e espacial, tem dominado o debate acadêmico, a maestria com que os autores percorrem as mais diversas épocas e evidências sem cair em generalizações grosseiras vem, por outro lado, mostrar uma possibilidade de conciliar macro e micro-escalas de análise. Longe de incorrer numa sorte de análise semelhante àquelas do séc XIX – que se centravam na tríade ‘surgimento-apogeu-declínio’ de civilizações, vêm eles trazer um novo olhar sobre o “velho mar”, não enfocando os casos mais famosos e pontuando no longo espectro temporal aspectos da unidade do Mediterrâneo em contraposição a especificidades micro-regionais, de modo a entendê-lo como uma ‘unidade de micro-ecologias’.

Tendo como ponto de partida empreender uma análise do Mediterrâneo antes do período estudado por Braudel em seu ‘O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo na época de Felipe II’, isto é, na Antiguidade e Medievo, Peregrine Horden e Nicholas Purcell acabaram por estender vastamente a abrangência de sua obra, pensando o Mediterrâneo como um todo, cuja história constituiria um ciclo fechado, que a seu ver se findaria no séc XX d.C., porquanto a partir de então a região do Mediterrâneo não se afiguraria mais como um todo distinto, um conceito em si mesma, que nos permita abordar a história do tempo presente (p.3).

Assim, baseada no estudo comparativos das diversas micro-regiões do Mediterrâneo, encontra-se a obra (vol.1) organizada em cinco partes:  I) historiografia do Mediterrâneo; II) a singularidade da história do Mediterrâneo, por um lado coesa, mas por outro fragmentada em micro-regiões; III) relação homem e ambiente, enfocando questões acerca de recursos ambientais e produção/trabalho humano, apontando continuidades e contestando a idéia de violentas mudanças; IV) debatem a relação homem-ambiente numa perspectiva de uma geografia da religião, isto é, nos aspectos sagrados/religiosos do ambiente, uma paisagem sagrada; V) dentro desta relação, vem inserir o debate com a antropologia, fazendo uma “etnografia” das sociedades da região.

Alguns poderiam dizer que falta a esse livro uma dimensão mais profunda, que levasse a uma discussão mais detalhada dos assuntos levantados. Contudo, seu caráter e proposta centrais, assim como as dimensões físicas do mesmo – que inclui não só uma vasta bibliografia, mas também ensaios bibliográficos que visam orientar o leitor de forma breve ante o vasto leque de temas abordados – inviabilizam tal intento.

Consideramos que a maior contribuição desta obra reside em colocar a “abordagem Braudeliana” em discussão, agora em meio ao debate de novas áreas de pesquisa, principalmente, a arqueologia ambiental e da paisagem. Vêm os autores, de fato, colocar em questão nosso olhar sobre as sociedades mediterrâneas, trazendo uma perspectiva inovadora revestida de uma atitude um tanto provocativa, pois que aludindo a clássicos que visavam traçar uma história totalizante; o que, devemos esclarecer, não se trata da proposta desses autores, que não pretendem esgotar os temas levantados. Trata-se, pois, de uma contribuição singular no atual panorama acadêmico, e, sem sombra de dúvida, um novo clássico da historiografia das sociedades mediterrâneas.

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