|
ISSN 1518-2541 Hélade 3 (2), 2002: 18-25 Submissão: Jul/2002; Aceitação: Set/2002 André Bueno Prof. Ms. de História Antiga pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e-mail: abueno@esquadro.com.br
Aspectos
da escravidão na China
Antiga durante a dinastia Han
Introdução Escravidão
antes da Dinastia Han.
O período Shang (tido como a época das cidades – estado chinesas) já
apresenta sinais precisos da existência da escravidão. Quando um nobre
morria, por exemplo, parte da gleba de serviçais era sacrificada e posta
na mesma tumba. (5) Mas as funções destes escravos são imprecisas: a
documentação histórica referente a este período só seria recuperada
no século VI a.C. (6) Provavelmente sua utilidade era doméstica, já que
nessa época uma característica fundamental da estrutura produtiva
chinesa - o trabalho com mão-de-obra livre - já estava praticamente
estabelecida.
No campo, a atividade agrícola era realizada por comunidades pequenas
organizadas em núcleos familiares, que praticavam o aproveitamento
intensivo de pequenos espaços do terreno. Este sistema continuou a
existir sem grandes transformações na cultura chinesa, provavelmente por
sua eficácia, mas se concentrando sempre em mãos familiares, talvez por
receio de se ter que dividir com escravos uma produção fundamental para
a sobrevivência em tempos de escassez e que atendia à uma população
sempre crescente (como até hoje). 18 |
|
Hélade 3 (2), 2002: 18-25
Não é impossível que escravos fossem utilizados
pelos grupos intermediários da sociedade (artesãos, funcionários,
comerciantes, etc), mas provavelmente era difícil sustentá-los, o que os
tornava praticamente um privilégio de nobres, que recebiam parte da
colheita como imposto e, por conseguinte, tinham rendas independentes do
seu trabalho para se sustentar.
Mesmo assim, essas são conjecturas: os melhores estudos sobre a cultura
material chinesa do tempo Shang nos
informam muito sobre seu modo de vida, mas não sobre as relações que
deviam reger esta sociedade.
O período Zhou, porém, escapa um pouco desta problemática, em função
da razoável documentação existente à respeito das épocas mais
recentes. Principalmente depois do século VI a.C., época em que surgem
as "Cem escolas do Conhecimento", (8) muito se produziu em
termos históricos e filosóficos. Mas isso não quer dizer que os
historiadores recentes tenham se concentrado, por conseguinte, nos
aspectos da escravidão. Ela, no entanto, aparece de forma esporádica nas
fontes e nos permite identificar algumas das relações que permearam este
regime escravista no âmbito social. A época Zhou marca o que se convencionou chamar “feudalismo” chinês, embora o sistema político e econômico da época guarde apenas algumas relações com esta denominação. (9) O que sabemos é que a estrutura social passou a ser dominada por clãs responsáveis pela posse e guarda de parcelas extensas de terra que correspondiam aos seus reinos, e que obedeciam de forma direta apenas ao Imperador – isso em termos, claro, já que o soberano da época estava muito mais para um enfraquecido rei medieval do Ocidente do que para o poderoso Imperador De Facto que surge depois do século III a.C. na China. Neste novo sistema de hierarquia política e social que predominava, a escravidão não perdeu espaço, porém, em seus atributos e funções. O que havia mudado, felizmente, era o hábito de se matarem serviçais no enterro dos nobres – agora substituídos por estátuas. Sabe-se um pouco mais das relações que regiam o sistema escravocrata da época, tanto em origem quanto em utilização. Os escravos tinham tanto origem estrangeira quanto chinesa, provindo de guerras (internas ou externas) e por vezes, dívidas. Continuavam a ser utilizados em trabalhos domésticos, e não no campo. Mas parece que os grandes senhores já dispunham dos escravos para executarem trabalhos em empreendimentos particulares não – agrícolas, tais como: construção de obras públicas, junto com homens livres, soldados e prisioneiros (é caso das muralhas feitas no Norte para deter as invasões bárbaras, que posteriormente seriam agrupadas numa só, formando a grande muralha da China na época Qin – III a.C.), trabalho em minas e manufaturas (onde a presença de trabalho escravo variava segundo o tamanho da mesma: buscava-se ao máximo utilizar o trabalho familiar). Já aparecem também eunucos para auxiliar os nobres, mas a diferenciação entre os tipos de eunucos só será identificada no período Han. Existe, no entanto, a separação entre servo (vassalo) e escravo (aparentemente sem direitos), que aparece de forma clara em algumas citações. Tomemos esta como exemplo: “(...) Se quiserdes enviar, a nós, vossos cativos, para a beira do Jiang e do Mar [banimento para fronteiras incultas], obedecermos este decreto! Se quiserdes distribuir-nos como presa aos feudatários, se quiserdes que os homens e mulheres sejam todos reduzidos ao estado de domésticos [servidão penal] obedecermos este decreto!(...) Se me transformardes, com sua virtude, a ponto de vos servir como vassalo, na mesma categoria desses bárbaros, isto será beneficência! Não é isto que ouso esperar, mas abro meu coração!” (10) 19 |
|
Hélade 3 (2), 2002: 18-25 Este breve discurso demonstra que a situação dos vassalos devia ser bem diferente (e melhor) do que a dos escravos, tanto em honra quanto em atribuições, e nele podemos identificar dois pontos importantes: o primeiro, de que o escravo não é “coisificado”, existindo a consciência de que ele é tão humano quanto nós: e em segundo lugar, que mesmo sabendo disso, sua situação não era nada agradável e não deveriam ser muitos os que estavam dispostos a submeter-se nesta condição.
Por fim, no período Qin, quando ocorre a centralização política da
China num novo tipo de sistema imperial, a condição das instituições
políticas modifica o papel da escravidão. A criação de uma vasta
burocracia, em lugar de uma casta nobre dominante, desarticula vários
aspectos da produção centrada nas famílias e clãs, configurando de uma
nova forma o sistema de trabalho e a economia. Foi este contexto, que a
dinastia Han absorveu, que desenvolveria a escravidão plena - ao modo
chinês - como será conhecida nos períodos posteriores.
Assim sendo, podemos considerar que nos períodos anteriores ao século
III a.C. a escravidão não tinha, de fato, um papel fundamental na
economia chinesa. Por não ser dependente da mão de obra escrava, essa
era utilizada em funções complementares ao sistema de trabalho livre.
Tal consideração não é estranha: as condições de vida difíceis do
território chinês com certeza estimularam os modos de produção
familiar e a construção de comunidades e corporações fortes. Assim,
somente nos períodos de expansão política das instituições chinesas
é que se buscou uma utilização maior do trabalho escravo, questão que
analisaremos à seguir.
A
escravidão na Dinastia Han. Durante o período Han, o rápido desenvolvimento da economia forçou a reformulação da estrutura produtiva, visando atender um mercado consumidor crescente, que correspondia à expansão das fronteiras imperiais em direção ao Oeste e ao Sul. Estas modificações foram induzidas pela visão cosmopolita que permeava a existência da dinastia Han, interessada em desdobrar-se política e economicamente em novas terras. Durante o governo de Wu Di (II-I a.C.), por exemplo, temos a abertura da rota da seda e a divulgação dos produtos chineses em forma de campanha com a distribuição de presentes e tributos para várias cortes fronteiriças, visando claramente o estabelecimento da paz e o fortalecimento do comércio.
Com o desenvolvimento desta estrutura, tornou-se necessário implementar a
produção, angariando a mão de obra disponível para a construção pública
e para o trabalho nas manufaturas. O sistema de convocação sazonal dos
cidadãos livres para as obras públicas não deu conta das necessidades
crescentes, e a dinastia lançou mão, por fim, da escravidão para
complementar a mão de obra. Em pouco tempo, porém, a eficácia do
trabalho escravo e os lucros advindos do comércio desta mão de obra
tornaram-na uma atividade interessante, e sem demora ela começou a ser
usada de forma intensa e abrangente em vários setores da economia. 20 |
|
Hélade 3 (2), 2002: 18-25 As formas de escravização A lei recorrente na época determinava que os escravos poderiam ser obtidos em guerra, importação ou por pena judicial. (15) As penas judiciais eram aplicadas em certas condições: tinham em geral tempo (in)determinado, podiam ocorrer por dívidas, condenação legal por injúrias ou mesmo por ordem institucional como forma de punição, por vezes acompanhada (ou não) de castração. Homens livres também podiam vender sua liberdade e de sua família. Mas a fonte principal de escravos era a guerra, conquanto a importação estivesse mais ligada à escravidão dos “bárbaros do norte” (mongóis e hunos) e de estrangeiros exóticos e raros, tais como brancos, negros ou melanésios.Os escravos eram distinguidos em quatro tipos de classificação, separadas em duas: eles podiam ser T’u (servos) ou Nu (escravo), (16) e ainda, eunucos ou não. Os T’u em geral se constituíam de escravos que recebiam salários, tinham alguns direitos, mas cuja liberdade individual era totalmente sujeitada ao seu “senhor”. Podiam, depois de algum tempo de economia, comprar sua liberdade. Em certos casos, um T’u podia ser rebaixado e virar um Nu (por dívida ou por uma lei). Era raro, mas um Nu também podia ser promovido a T’u por vontade de seus donos ou por decreto imperial. Esta condição demonstra que uma escravidão temporária (penal) pode se converter em eterna (Nu) em virtude das circunstâncias. Houve alguma legislação a respeito, já que, como os T’u podiam casar, se esses caíssem de classe (para Nu) suas famílias – antes livres – poderiam ser escravizadas. Quanto à sua condição masculina, era ditada pela atividade que exercia: sendo um funcionário comum, provavelmente podia até casar: mas sendo guardião do harém, era castrado. Em alguns casos, se sua condenação penal já incluísse a castração, sua função podia ser definida em torno desta condição. Já os Nu (escravos) eram totalmente submetidos, sem quaisquer direitos. As leis em torno da escravidão da família do escravo variavam: algumas vezes, elas também eram submetidas, mas isso variou segundo a vontade dos imperadores. A liberdade dos escravos, no entanto, só dependia da vontade de seu mestre: quando “apontado”, ele era alforriado na hora e ganhava o estatuto de cidadão livre, com os plenos direitos e deveres. Alguns chegam a ganhar promoções em cargos da burocracia estatal por méritos ou distinção. (17) Escravos também eram doados ou confiscados pelo/ou para o Império, segundo condições legais. (18)
As
mulheres escapavam da segunda classificação (Eunuco – não Eunuco),
mas dificilmente caíam na primeira (T’u), a não ser que fossem esposas
de homens em situação semelhante.
A
grande parte da população escrava da época adveio das populações
chinesas que estavam fora do território Imperial - principalmente, das
hordas de Xiong-Nu (Hunos) - que eram capturadas nas intermináveis
batalhas na fronteira norte, ao longo da muralha. Sima Qian (II – I
a.C.) e depois Ban Gu (I d.C.) foram perfeccionistas na contagem dos
aprisionados: 3000 em 127 a.C., 15000 homens e mulheres em 124 a.C., e
assim por diante.
(19)
E isto só em campanhas oficiais: desconhecemos o número
dos escravos submetidos em expedições particulares. Há dúvidas em
saber, porém, como era administrada a submissão destes escravos (T’u
ou Nu). Não parece ter havido um mecanismo automático de escravização
de estrangeiros, e por vezes o interesse em alianças políticas pode ter
determinado a condição (incluindo a manumissão) dos prisioneiros.
Já
os eunucos sofriam um preconceito bastante grande na sociedade, por serem
considerados mutilados e por não poderem gerar descendentes, fator este
imprescindível numa sociedade machista e patrilinear, que contava ainda
com a prática do culto aos antepassados. O pobre Sima Qian, caído em
desgraça por ter defendido sinceramente um general derrotado, sofreu esta
indigna punição e se considerou humilhado.
(20)
Ainda assim, ele não
foi servilizado ou escravizado, podendo continuar seu trabalho. Os eunucos
eram utilizados, em geral, em funções domésticas, tais como a guarda de
harém, diversões, etc. Alguns, porém, conseguiram galgar postos no
governo subindo no funcionalismo imperial como serviçais e auxiliares de
funcionários importantes. A partir do século I d.C. sua força cresce
junto à corte, se tornando um elo entre as altas estâncias do poder e
aqueles que buscavam aumentar sua participação no governo. Há ainda uma
consideração difícil de provar, mas levada em conta por alguns autores:
de que haveria uma castração completa para servidores mais baixos e
apenas a retirada dos testículos para servidos mais importantes. Apesar
da idéia ser interessante, não encontramos comprovação na documentação,
o que não nos dá motivos para creditá-la. Sabemos, porém, que alguns
eunucos adotavam crianças, e a motivação para tal variava desde a
reprodução deste grupo, até a criação de uma família com fins de
continuidade do nome. Desta forma, observamos que existem algumas regras para a administração da instituição escravista. Esta se difunde, durante o período Han, com o implemento de sua utilização e com o surgimento de uma nova área econômica que envolvia o tráfico escravista, os mercados, etc. É interessante notar, entretanto, que apesar da legislação desfavorável, os escravos não parecem ter sido “animalizados” ou considerados sub-humanos: a sociedade chinesa parecia ter bem claro em sua mentalidade que lidava com homens e mulheres, e não com mercadorias, embora os tratassem assim nos momentos de compra (mas não nos de servilização penal). Talvez haja aí um grande contributo da ética confucionista, adotada como doutrina oficial da dinastia Han e que possuía caracteres humanísticos, que defendiam o respeito à integridade do ser e da coletividade: algo difícil de ser aplicado aos escravos, mas que todavia podia influenciar o modo de agir dos senhores em relação aos mesmos, criando alguns mecanismos de generosidade ou tolerância. 21 |
|
Hélade 3 (2), 2002: 18-25 Os campos de trabalho dos escravos Aparentemente, no século I a.C. a China já
havia aumentado de forma surpreendente o seu número de escravos. Em torno
do reinado de Gung Yü (44 a.C.) já eram contado cem mil (tanto T’u
como Nu) servindo apenas ao governo.
(21) No
que trabalhavam? E os “particulares”, executavam que tarefas?
Analisemos os campos de produção chinesa para entendermos isso. Obras
públicas
Como foi dito, um
dos grandes motivos para o aumento do uso da mão de obra escrava foi a
realização de obras públicas em larga escala. Anteriormente, essas
obras eram realizadas através da convocação de mão de obra livre nas
comunidades locais, durante tempo (in)determinado, soldados, prisioneiros
e escravos (mas em pequena quantidade). A ascensão da dinastia Qin mudou
isso, no entanto: na construção da grande muralha foram usadas as três
mãos de obra indistintamente, mas com um emprego maciço de escravos. A
situação dos cidadãos livres convocados na época não era das
melhores: conta um poema da época Han que um recém casado morreu na
construção da muralha durante o período Qin, e sua mulher chorou com
tanto pesar diante do grande muro que os tijolos abriram uma brecha e
entregaram-lhe o corpo. Esse poema serve-nos para mostrar que, vez ou
outra, os governantes não faziam distinção daqueles que empregavam.
O
fato é que a mão de obra escrava parece ter complementado a mão de obra
livre nas obras públicas, e em determinados momentos pode até mesmo tê-la
substituída. Mas é difícil trabalhar com números neste ponto. Podemos
apenas afirmar, com certeza, que a quantidade de submetidos aumentou
bastante nessas obras, sendo inclusive uma massa que podia ser mais
facilmente manobrada e deslocada, conquanto os camponeses também tinham o
seu trabalho no campo, e os funcionários sabiam que uma parte fundamental
do sustento social dependia deles.
Manufaturas Com a organização de manufaturas e corporações produtivas, muitas vezes de caráter familiar, se convencionou que o uso de mão-de-obra escrava nas mesmas seria uma boa solução para evitar a contratação de especialistas entre as corporações concorrentes, mantendo os conhecimentos técnicos em caráter mais restrito e atendendo a demanda crescente do comércio. O desenvolvimento deste ramo da economia, porém, atraiu também massas camponesas vilipendiadas da posse de suas terras, que se dirigiram para os grandes centros urbanos em busca de trabalho. Logo, parece que nesta área houve a convivência de escravos e mão-de-obra livre (barata), que se encarregaram de desenvolver de maneira brutal a produção de seda, artigos de metal, perfumes, enfim, de toda uma gama de produtos negociáveis tanto no território quanto fora dele.Há uma discussão importante no aspecto do comércio: se havia controle ou não do Estado sobre a economia. (22) Esta idéia se remete ao fato do Imperador Wu di (II-I a.C.) ter legislado sobre o controle de distribuição de alguns produtos, no que seria copiado por alguns imperadores seguintes. Parece-nos que não era sua intenção direta restringir o comércio, ao contrário: o fato do imperador exigir cotas de mercadorias e regular sua distribuição visaria, antes de tudo, estimular a produção e a difusão de artigos chineses em todas as partes do território, inclusive na rota da seda, através do envio de presentes consulares, que estimulavam o consumo dos mesmos. Assim sendo, acreditamos que estas medidas tinham por fim impulsionar a produção e o trânsito de mercadorias (no qual os escravos estavam incluídos...). Quanto à exploração das minas, os escravos não aparecem em grande número no serviço de extração, concentrando-se na produção de derivados. Mas aí, pode haver uma falta de evidências na documentação, e não a ausência desta força. (23)
Campo No trabalho agrícola havia uma grande resistência na adoção do trabalho escravo, e este continuou a se basear na mão de obra livre camponesa. Aparentemente, o desenvolvimento do processo produtivo chinês era naturalmente avesso ao uso de escravos, dado suas dimensões e métodos de trabalho. Mesmo em um território tão grande, os chineses apreciavam o plantio em terraços pequenos, e com uso intensivo da terra e de recursos técnicos, tais como irrigação, drenagem, adubagem, etc. Mesmo nas grandes plantações, vemos o terreno dividido em pequenos pedaços trabalhados individualmente, o que nos faz supor que este sistema seja herdado do antigo plantio em hortas. No entanto, a atenção dada a terra fazia com que a produção fosse bastante alta para o tamanho do terreno, dando até duas colheitas por ano. (24) Obviamente um escravo poderia executar estas funções, mas algumas condições se impunham para isso: 1o em geral, se usava (e se preferia, por questões de economia) o uso de familiares ou de habitantes da comunidade local; 2o, os chineses tinham uma preocupação perene com a fome, e isso os intimidava a criarem mais bocas para alimentar; 3o muitas dessas vilas eram pobres, e seus cidadãos não tinham condições de manter escravos; e 4o, parte da colheita era recolhida pelos funcionários como imposto, o que diminuía ainda mais sua renda. Logo, os camponeses não tinham motivos nenhuns para se interessarem por escravos. E mesmo os grandes senhores de terra, que agrupavam em seus latifúndios várias dessas comunidades, não se preocuparam em interferir na vida dos mesmos, desde que pagassem seus tributos. Vez ou outra um escravo aparece na documentação acompanhando senhores de terra: mas como disse Wilbur, eles seriam pouco importantes para a agricultura. (25)
Eis
aí uma consideração interessante: enquanto no mundo clássico Ocidental
a escravidão é um pilar na vida agrária romana, por exemplo, isso não
acontecia na China: motivo pelo qual podemos pensar que, apesar dos
mecanismos semelhantes de funcionamento, a Instituição da escravidão
adaptou-se aos contextos sociais no qual esteve presente. 22 |
|
Hélade 3 (2), 2002: 18-25
Há
que se pensar se os camponeses não passaram, no entanto, por um processo
de servilização aviltante: as convocações para trabalhos públicos
muitas vezes arruinavam diversas famílias, que se viam desprovidas de mão-de-obra
para o trabalho no campo. Não era raro alguns desses convocados fugirem e
voltarem para suas casa. Até o século XVIII, os ingleses continuaram a
atestar este processo de forma cômica.
(26)
É importante apontar que
essas convocações se tornaram ainda mais constantes durante o período
Han, em função do grande número de obras, permitindo, assim, o processo
de falência de vários camponeses que iriam posteriormente para a cidade.
Escravos domésticos Se existia algum campo de atuação onde os escravos estavam realmente presentes era o do serviço doméstico. Era costume emprega-los nas casas, junto com as esposas dos filhos, em toda sorte de serviços: lavar roupas, cozinhar, limpar, cuidar de animais, da casa, das crianças, entreter (quando sabiam) com danças, poesias, músicas, etc. Os mestres tinham ainda direitos sexuais sobre os escravos e escravas (Nu), e algumas podiam virar suas concubinas. (27) Como foi dito, eles tinham direitos plenos sobre a vida deste tipo de escravos, mas bastasse seu desejo e eles poderiam ser libertos, com todos os direitos dos cidadãos. Os escravos caseiros, como foi dito, podiam ser ou não eunucos: em geral, só se utilizava um eunuco em funções específicas, e não era comum mestres e senhores imporem castrações generalizadas, até porque esta não era uma atribuição sua, mas da lei. No entanto, podiam puni-los segundo sua vontade. Um senhor poderia ter predileção por eunucos, e adquiri-los junto a um mercador, segundo sua conveniência. Quando os eunucos começam a crescer em importância na corte e no funcionalismo público (principalmente no período Han posterior), algumas famílias começam a castrar seus filhos para aumentar suas chances de serem bem sucedidos em carreiras políticas, prática que se tornaria comum posteriormente em toda a China.
Havia
um grupo de escravos bem interessante, que eram os militares e
guarda-costas. Podiam ser dos dois gêneros existentes, eunucos ou não,
mas que se distinguiam, em geral, por serem símbolos de prestígio
social. Eram bem vestidos, paramentados e tidos como os mais fiéis, além
de bem tratados. Possuíam regalias, mas deviam dar sua vida pelo senhor,
caso fosse necessário; e parece, também, que muitos o faziam, tanto
quanto roubavam ou matavam pelo seu mestre.
(28)
A originalidade deste
grupo está no fato dos chineses apreciarem utilizar estrangeiros exóticos
para tal. Para os serviços
domésticos, escravos de outras etnias só eram empregados quando um
senhor era muito rico, e podia tê-los em grande número na sua casa.
Usualmente, no entanto, grande parte dos donos limitavam-se à ter
estrangeiros na guarda, na cozinha ou na cama.
A
origem desses escravos parece variar: alguns são traficados, outros são
estrangeiros que vendem sua liberdade para serem servos T’u. Em geral,
os chineses costumavam apreciar os brancos e os negros, apesar da maioria
dos escravos ser composta, como foi dito, de bárbaros do Norte. Existe
uma citação sobre um general Huno apoiado pelos chineses chamado Chi Chi
(I a.C.) que possuía uma guarda toda formada por homens brancos e que
lutavam com táticas especiais, inclusive formando uma carapaça de
tartaruga com os escudos.
(29)
Uma estátua do tempo Han também apresenta
um homem negro vestido com uma armadura militar, mas variadas são as
referências a concubinas estrangeiras. Mas porque achamos citações tão
esparsas de um processo que parece ser difundido? As hipóteses que
podemos levantar são: 1o, de que talvez esta fosse uma prática
realmente restrita para quem tivesse recursos financeiros; 2o,
de que talvez não interessasse aos escritores falar sobre; 3o,
de que os escritores não se interessavam justamente por ser uma prática
difundida e normal – em contraposição direta à primeira hipótese.
Poderíamos pensar em mais algumas, mas acho que estas três bastam para
comprovar o pouco que percebemos na documentação: de que existiam, sim,
escravos estrangeiros, e em número razoável (mas passíveis aí de serem
confundidos em suas origens étnicas e geográficas). Estes escravos
atuavam, de fato, nas funções para eles destacadas, mas para tanto era
necessário que o seu senhor possuísse recursos para compra-lo ou
contrata-lo, o que restringia o número de pessoas capazes
de tê-los. Temos que diferenciar também o tipo de estrangeiro utilizado:
afinal, a massa de escravos empregada pelo governo nos trabalhos mais vis
era formada por hunos (estrangeiros bárbaros), comuns nas fronteiras e não
por brancos ou negros – coisa um tanto diferente na época. Vale lembrar
que esses negros são essencialmente indianos; acreditamos ser improvável,
dada a conformação das rotas comerciais da época e a distância
existente, que muitos negros africanos estivessem por lá presentes. Assim
sendo, estes escravos só eram apontados em ocasiões especiais, motivo
pelo qual os escritores talvez só lhes davam atenção para chegar à
outra pessoa, o magistrado que os possuía.
Vemos,
portanto, que o campo do trabalho doméstico é realizado em grande
parcela por escravos, e nesse ele predomina. Nos perímetros urbanos,
parece ter sido comum que até famílias de renda média tivessem seus
serviçais, para ajudar no trabalho doméstico. Só no campo , como dito
antes, havia a resistência ao trabalho escravo.
Considerações finais O governo Imperial por vezes interviu nas formas de submissão e de administração da população escrava, para conter o aprisionamento de cidadãos livres em áreas fronteiriças ou sobre fraca influência do poder central. As legislações sobre o estatuto do escravo também variavam segundo os decretos de cada imperador, mas sempre a questão poder direto sobre vida do escravo Nu foi reafirmada. As discussões que existiam costumeiramente envolviam a propriedade dos filhos dos escravos, ou de sua família, critério que parecia variar (em alguns momentos, toda a família do prisioneiro era escravizada – em outros, apenas o prisioneiro). Houve também observância em relação ao comércio de escravos e sua utilização social e econômica. Durante o tempo do Imperador Wu di, um dos principais estimuladores indiretos do escravismo, houve um debate forte em torno da questão, e o aumento do número de escravizados aumentou tanto que um de seus conselheiros, Tung Shu, sugeriu a abolição da escravatura, opinião essa não aceita, mas que estimulou a promulgação de leis regulatórias sobre o sistema, incluindo regras sobre a compra da liberdade. (30)
O
que podemos observar, por fim, é que não devemos considerar a escravidão
como a principal força de trabalho na China Antiga, mas desconhece-la
seria também um grande erro. Observamos que as condições peculiares do
campo chinês desestimularam seu uso agrícola, mas quando necessário,
ela surgiu como uma satisfatória opção de trabalho nas manufaturas, e
como meio de prestígio para as classes mais altas.
O número
de escravos, que aumentou muito durante o período Han, não parece ter
sido, porém, grande em proporção ao do Ocidente, embora essas considerações
sejam difíceis de serem feitas. Nas revoltas camponesas que existiram na
dinastia Han, é provável que escravos lutassem dos dois lados: alguns,
libertados, do lado dos camponeses e outros, ainda, dos seus senhores. Mas
o fato é que na China não se conheceu nenhuma revolta típica de
escravos como as ocorridas na península itálica.
Assim
sendo, podemos concluir este trabalho observando que as práticas legais
que envolveram a escravidão na antiguidade Chinesa parecem partir de
pressupostos semelhantes, tais como a necessidade de mão-de-obra, expansão
do comércio, etc., mas os mecanismos pelo qual esta instituição se
construiu dependeram essencialmente das condições culturais que
permearam a absorção deste sistema, o que cria singularidades na análise
dos métodos escravocratas, e de sua manifestação em cada uma das
sociedades antigas, tal como é o caso da China. Este não foi, talvez, um
Império com uma economia Escravista na ampla acepção da palavra: mas é
impossível negligenciar a existência dos mesmos em sua sociedade. 23 |
|
Hélade 3 (2), 2002: 18-25 NOTAS: 1 - GRANET, M. A Civilização Chinesa. Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1979.
2 - Ponto de vista muito bem levantado por FINLEY, M. in Escravidão Antiga e Ideologia Moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1991 1o cap.
3 - Consideração feita KUO M. J. La Societé esclaviste chinois. Paris, s/d.
4 - Sima Qian (II-I a.C.), autor do Shi Ji (Recordações Históricas), cuja precisão Histórica é comprovada atualmente pela maior parte dos sinólogos. Tal era a lucidez de Sima Qian em relação às dificuldades de datação que ele mesmo reconhecia que antes do século IX a.C. era difícil Ter certeza de alguns períodos abordados, no que ele estava certo.
5 - WATSON, W. China Antiga. Lisboa: Verbo, 1969 1º cap.
6 - Quem o faria seria Kong Fu Zi, ou Confúcio, nos seus livros Shu Jing (Livro dos Documentos) e Chun Qiu (Primaveras e Outonos), ambas crônicas históricas.
7 - CHANG, K. The archaeology of ancient China. London: Yale Univer. Press, 1968.
8 - Para saber mais sobre este período, ler o livro de GRANET, M. Pensamento Chinês. Lisboa: Contraponto, 1997.
9- “Abusou-se tanto do termo feudal que este perdeu toda a significação. Melhor será que o esqueçamos e nos limitemos a caracterizar pelas suas instituições específicas o sistema político e social que, na longa história do mundo chinês, se aproximaria mais daquilo a que os historiadores do Ocidente atribuíram pela primeira vez este qualificativo.” in GERNET, J. O Mundo Chinês. Lisboa: Cosmos, 1979 v.1 pp.60-61.
10 - Discurso do príncipe de Zheng após a derrota perante o exército de Chou. Zho Quan (Tso Chuan) Cap.1 P.63, livro comentário do Chun Qiu
11
- Ibidem 3
12
- WILBUR,C.M. Slavery
in China during the former Han Dynasty. Chicago: Field Museum of
Natural History, 1943
13
- CH’U, Tsung Tu Han
Social Structure. Washington: Univer. Washington Press, 1972
14
- O Shi
Ji, de Sima Qian,
traduzido por WATSON, B. Records of the Grand Historian. New York:
Columbia Univer. Press, 1961 e o Han
Shu, de Ban Gu, traduzido por DUBS, H. The History of the former Han
dynasty. Baltimore: Waverly Press, 1955 3 v.
15
- CH’U, 1972 p.135 24 |
|
Hélade 3 (2), 2002: 18-25 16 - WILBUR, pp. 81-82
17
-Han
shu Cap.68:12a
18
- CH’U, p.137
19 - Shi
Ji Cap.110:23b, 111:3b e Han shu Cap.55:3 a-b,
94:19b
20
- Han
shu Cap.62:14b-19a
21
- WILBUR, pp.398-400
22
- in KIRBY, E.S. Introduction
to the economic History of China. London: George Allen, 1954 p.79
23 - CH’U, p.148.
24 - No livro de PEYREFITTE, A. O Império Imóvel. Rio de Janeiro: Casa Jorge, 1997, que descreve a embaixada inglesa realizada na China no final do século XVIII, os visitantes ficam surpresos com a produtividade do campo e seu uso intensivo, com o sistema de rotação de colheitas e sem descanso da terra.Mal eles sabiam, como cita o autor, que este sistema remontava a antiguidade, tais como outras práticas que veremos a seguir.
25 - WILBUR, pp.215-216.
26
- Ibidem cit. Opt 24. Era divertido aos ingleses
verem durante os trabalhos de sirgagem (arrasto de barcos pelo rio através
de cordas puxadas por pessoas na margem) que os camponeses locais,
convocados para o trabalho, mesmo debaixo de bambuadas, por vezes fugiam
correndo no meio do trabalho, e como ocorriam fugas de várias pessoas ao
mesmo tempo e em várias direções, os guardas não sabiam o que fazer e
ficavam constrangidos. Ainda assim, o trabalho era feito, provavelmente
para se evitar punições contra as vilas e a repetição do trabalho.
Estas revoltas contra o serviço forçado já ocorriam desde antiguidade,
sendo um dos motivos de protesto da seita de inspiração taoísta dos 5
alqueires de arroz, que congregava camponeses contra o sistema imperial
Han (período Han posterior, I-III d.C.) N.A.
27
- Han
shu, Cap.99A
28
- Han
shu, Cap.47:5a
29
- BUSSAGLI, M. “Asia centrale e
mondo dei nomadi” in Ásia centrale e Giappone. Turim,
1970 p.72-73 sustenta que estes só poderiam ser romanos – o que foi
comprovado por CUI B. Roman descendants found in Gansu: Lijian Ruins.
Beijing, 1998.
30
- Han
shu, Cap. 24a:15b
Copyright © 2002 Todos os direitos reservados a André Bueno. |