ISSN 1518-2541

Hélade 2 (2), 2001: 01

EDITORIAL                                                             

Alexandre Carneiro Cerqueira Lima

Doutor em História Social pela UFRJ  e editor da HÉLADE.

 

Artesão e Historiador da Antigüidade

  A atividade do artesão entre os Antigos Gregos poderia ser interpretada como uma ocupação degradante para aquele que a exercia ou, ao contrário, poderia ser vista como um ofício essencial para a boa ordem de uma pólis. Xenofonte, pensador ateniense do IV século a. C., acreditava que o homem que se dedicasse ao artesanato não seria um bom amigo, nem um bom guerreiro e muito menos um bom cidadão para a sua cidade (Econômico, IV, 1-3). Entretanto, o historiador Heródotos de Halicarnassos (V século a. C.) apontou a pólis de Corinto como aquela que menos desprezo tinha em relação às práticas dos demiourgoí (Histórias, II, 167). A pólis dos coríntios, desde o período arcaico (VIII ao VI séculos a. C.), com a aristocracia dos Baquíades promoveu as atividades artesanais e comerciais em seu território. Assim, a idéia de que todas as póleis se dedicavam essencialmente à agricultura está sendo revisada atualmente pela historiografia.

   O historiador é também um artesão, um demiougós. Sua atividade pode ser valorizada ou menosprezada. Durante muitos anos o exercício da profissão de professor de história no Brasil foi ignorado ou mesmo perseguido. Atualmente, eu creio que muitos fatores levaram a reverter esta situação, com o crescente interesse pela nossa história (os '500 anos' do Brasil) e pela história do Outro (queda do muro de Berlim, guerras e a questão do terrorismo). A história das sociedades antigas também está despertando interesse, principalmente entre os 'internautas' e os alunos dos cursos de Graduação em História. Basta lembrarmos dos inúmeros 'sites' voltados para esta área do conhecimento. Além do aumento significativo de publicações de pesquisas e de teses em História Antiga.

   A Hélade pode ser considerada um 'bom termômetro' para avaliar este 'despertar' de interesse por parte do público. Pois além de uma significativa procura, pelos 'navegantes' da rede mundial, a Revista serve como um instrumento útil para historiadores e pesquisadores. Os artigos nela publicados estimulam debates, críticas e futuras pesquisas. Voltamos à questão do artesão. Eu compreendo que nós historiadores somos como os demiourgoí, ou seja, estamos sempre à procura de lapidar nossas idéias com o objetivo de construir a 'melhor' explicação, a 'melhor' interpretação acerca do objeto que estamos estudando, sempre um esforço em compreender um dado fenômeno no passado. Da mesma forma, quando um demiourgós pintava uma imagem em um vaso, esta mesma cena teria leituras diferenciadas (como nós hoje em dia, entre os Helenos poderia haver interpretações distintas de um mesmo enunciado), o mesmo ocorre com a 'obra' do historiador: sua interpretação pode ser aceita, refutada ou ampliada. Mas eu tenho a convicção que tanto o artesão quanto o historiador ao exercerem suas atividades possuem o mesmo objetivo: o de instigar o seu receptor/ leitor. Não há 'artista' ou historiador que não queira que sua 'obra' crie polêmica e faça um grande 'barulho' impossível de ser ignorado, até mesmo por aqueles que fazem um grande esforço em não ouvi-lo.

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