ISSN 1518-2541

 Hélade 1 (2), 2000: 62  

José Antonio Dabdab Trabulsi

 Professor Titular de História Antiga - UFMG

 

A cólera e o sagrado

 

 

La colère et le sacré. Recherches franco-brésiliennes. Organizado por Pierre Lévêque, Sílvia de Carvalho e Liana Trindade. Besançon, Presses Universitaires Franc-Comtoises, 2000.

 

            Dando continuidade a um volume anterior (Recherches brésiliennes. Archéologie, Histoire Ancienne et Anthropologie, 1984) da mesma coleção, Pierre Lévêque, o grande helenista francês da conhecidíssima Aventura Grega, toma a iniciativa de reunir trabalhos de pesquisadores franceses e brasileiros em torno do tema “A cólera e o sagrado”. O objetivo da empresa é o de permitir a pesquisadores brasileiros e franceses um trabalho conjunto na área de história e antropologia das religiões, num vasto plano comparativo.  

            As contribuições são muito diversificadas: P. Lévêque trata de enquadrar a problemática geral numa interessante introdução, “Cólera e sagrado. Pistas de reflexão”; S. Carvalho, explora o tema na antropologia brasileira, “A cólera divina e o castigo da humanidade”; R. Viertler analisa deste ponto de vista a religião e a mitologia dos Bororo do Mato Grosso; com L. Trindade, A. Delgado e V. Junqueira dos Santos passamos a outro universo com o estudo do “Riso de Exu e a cólera dos deuses” e “Pomba-Gira: uma entidade que pune rindo”. Com C. Lépine, passamos aos Iorubá, “Ìyàmi Òsòròngà revisitado: a força das mulheres e a cólera dos homens”; Finalmente, os historiadores da antiguidade voltam a se sentir em casa com os artigos finais: M.-Ch. Leclerc, “Cóleras sagradas. Sobre algumas funções da cólera na fundação do sagrado, de Homero a Euripides” e D. Faivre, “YHWH, o deus do nariz que queima”.

            Este conjunto, aparentemente heterogêneo, tem um objetivo global: delimitar os setores onde se desenham permanências entre os mitos da cólera na África negra e na América do Sul, seus paralelos, suas evoluções, suas disparidades, sem esquecer os casos indo-europeu e semítico. A iniciativa se inspira, portanto, nas pesquisas comparatistas, e mostra, por parte de um helenista de prestígio internacional, uma vontade de diálogo da antiguidade clássica com outros domínios do conhecimento histórico e antropológico, como o ameríndio e o negro-africano. Com a convicção de que este diálogo é importante para a própria renovação dos estudos sobre a antiguidade.

            Seria muito longo resumir aqui cada uma das contribuições. Basta dizer que ela se constitui num instrumento de pesquisa muito útil  todos os que se interessam por esse tema tão central como a cólera (o helenista lembrará aqui, imediatamente, a cólera de Aquiles, e seu papel fundador na cultura grega), suas relações com o sagrado, mas também, de forma mais ampla, pelos sistemas de representações míticas, suas relações com a vida social, com a história, etc.  

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