ISSN 1518-2541

Hélade 1 (2), 2000: 42-47

Sumissão: Ago/2000; Aceitação: Set/2000

Gilvan Ventura da Silva                     

Professor de História Antiga da Universidade Federal do Espírito Santo

Mestre em História Antiga e Medieval e Doutorando em História Econômica

A CONCEPÇÃO DE NATUREZA EM LUCRÉCIO

 

                A obra De Rerum Natura, composta pelo poeta romano Lucrécio provavelmente na primeira metade do século I a C., apresenta-se como uma das mais importantes sistematizações da filosofia concebida por Epicuro, pensador grego que viveu entre os anos 341 e 270 a C. Em seu poema, composto de seis livros, Lucrécio expõe de maneira bastante detalhada os argumentos epicuristas acerca de como as coisas que existem no mundo puderam um dia chegar a ser ou, dito conforme as palavras do próprio autor, como das trevas o ser pôde transpor a margem da luz (Luc. I, v. 170).  Além disso, Lucrécio preocupa-se em demonstrar também o modo pelo qual a natureza se comporta, quais são os seus limites e possibilidades, que forças intervêm no sentido de criá-la, conservá-la ou destruí-la e qual é o lugar ocupado pelo homem frente a isso tudo.   Apresentando as soluções propostas por Epicuro para todos esses questionamentos, Lucrécio possui o mérito de nos permitir identificar em sua obra todo um repertório de características que definem a natureza sob a ótica do epicurismo, características essas que pretendemos analisar no decorrer de nosso trabalho.  Antes, porém, julgamos necessário demonstrar como o binômio Homem/Natureza foi para o epicurismo, desde o início, um dos seus principais temas de reflexão.

              Concebida num momento de crise da pólis grega, a filosofia epicurista se constituiu, à partida, como um sistema de pensamento bastante próximo do estoicismo e do cinismo no que concerne às questões de ordem existencial que pretendeu responder.  De fato, tanto os cínicos quanto os estóicos e epicuristas tentaram construir uma filosofia fundamentada na Ética que permitisse aos seus contemporâneos suportar as transformações estruturais pelas quais a sociedade grega da época estava passando, com o enfraquecimento da autonomia políade e a consequente ascensão das monarquias helenísticas.  Os cínicos proclamavam no domínio da moral um isolamento completo do homem frente aos demais e frente à natureza, defendendo com isso uma radical introspecção que aspirava à autarcia, ao retiro, à autonomia absoluta, como um meio de possibilitar ao indivíduo um reencontro consigo mesmo (Brun, 1987:20).  Os estóicos, por sua vez, acreditavam que a sensação de desamparo e insegurança experimentada pelos homens de seu tempo advinha de um pleno desconhecimento da simpatia universal, pois estes, ao contrário dos sábios, ignoravam que o mundo, sendo regido pelo destino, se encontrava inextricavelmente unido por uma rede de causas e conseqüências, cabendo ao homem a tarefa de observar, compreender e aceitar as disposições de uma providência soberana e onipotente, a qual poderíamos designar com o nome de Deus.   Por outro lado, se para os estóicos era importante fornecer uma diretriz para as ações individuais e não coletivas dos homens, devemos ressaltar que no âmbito da filosofia estóica esta diretriz não estabelecia um isolamento radical do indivíduo com relação à sociedade e a natureza.  Pelo contrário, o estoicismo propunha que todos os homens fazem parte de uma grande associação, a cosmopólis, a qual ultrapassa em larga medida os horizontes limitados da pólis clássica.  Em segundo lugar, dentro do estoicismo percebemos uma estreita identificação da natureza com Deus e o destino, quase como um panteísmo, de modo que para o homem viver de acordo com a divina providência é ao mesmo tempo reconciliar-se com a natureza, aceitando as suas manifestações como evidências empíricas de uma ordem divina, de uma racionalidade que aos poucos se explicita no mundo.  Somente agindo assim tem o homem condições de atingir a felicidade, pois não se impressiona com nada o quanto exista e nem se revolta contra o que foge ao seu controle, o que se situa além das suas capacidades.

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              O epicurismo, da mesma forma que o estoicismo, se opõe aos cínicos no que diz respeito ao extremo isolamento defendido por estes últimos.  Entretanto, as alternativas propostas por Epicuro e seus discípulos para solucionar os problemas vividos pela sociedade grega no limiar da Era Helenística são radicalmente opostas às dos estóicos, embora externem também um tom eminentemente individualista em face do esgotamento das utopias filosóficas acerca da construção de uma sociedade ideal governada pelos sábios (Nizan,1978:20).  Dentre as diferenças entre o pensamento de Epicuro e o de Zenão de Cício, devemos mencionar, a princípio, a dessacralização da natureza operada pelo primeiro.   Para os epicuristas, a natureza nem se confunde com Deus nem com os deuses nem é regida por poderes externos a ela mesma.  Isso significa dizer que a natureza não compartilha de nenhum atributo próprio da condição divina, como a perfeição e a imortalidade, nem se encontra regida por um destino inflexível e onipotente.  Dessacralizando a natureza, Epicuro pretende reconciliá-la ao homem, pois a torna um aglomerado de elementos materiais no seio do qual a ação humana adquire uma importância até então inusitada posto que, se nem o destino nem os deuses comandam a natureza, cabe ao próprio homem transformá-la ao seu favor e assim conquistar a felicidade ou, dito em termos epicuristas, atingir o prazer contínuo durante o fugidio tempo da vida.  Além disso, não deveria o sábio, aquele que compreendeu o real sentido da existência, permanecer integrando a pólis ou mesmo a cosmopólis dos estóicos, mas sim se retirar a uma vida cenobítica, cercado de amigos leais e interlocutores à altura, pois como costumava declarar Epicuro: "Nunca me preocupei em agradar a multidão.  Porque aquilo que lhes agradava, eu ignorava-o, e aquilo que eu sabia ultrapassava muito o seu conhecimento" (Epicuro Fr. B 43 apud Nizan, 1978 :23).

 

            Esse ideal de vida proposto por Epicuro relacionava-se diretamente com a sua tentativa de reintegrar o homem à natureza, uma vez que o convívio na pólis era para ele, em oposição a Aristóteles, apenas uma convenção e não um dado de natureza.  Por outro lado, conforme pensava Epicuro a vida na pólis, além de não ser um dado de natureza, possuía a agravante de condenar o homem à infelicidade, na medida em que proporcionava o surgimento de desejos não naturais, desnecessários e insaciáveis, frutos de uma falsa avaliação do que é a felicidade e o Supremo Bem.  Os insensatos, na busca de satisfações para desejos desse tipo, não mediriam esforços, propagando assim o orgulho, a cobiça, a vaidade, a vingança, a animosidade e outros sentimentos que impedem a realização plena do homem, o alcance do equilíbrio perfeito (Brunt,1987:107).  Vivendo de acordo com a natureza o homem evitaria todos esses inconvenientes, pois nela seria capaz de encontrar satisfação para as necessidades elementares da sua existência, como o comer, o beber e o dormir, e isso era, na  concepção de Epicuro, tudo o quanto bastava para a fruição da harmonia, da tranquilidade e da paz.  Tal satisfação era o que os epicuristas denominavam por prazer, o primeiro dos bens conforme a natureza, o parâmetro através do qual podemos aceitar ou rejeitar as coisas e assim alcançar o Supremo Bem (Châtelet,1988:188)

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             A filosofia epicurista, nascida num momento de extrema conturbação social vivenciado pelos gregos, chegou a Roma ainda no século III a C., durante a expansão republicana rumo ao Oriente.  Entretanto, somente no século I a C. constatamos uma maior assimilação do epicurismo por parte dos círculos intelectuais romanos, passando esta corrente filosófica a ser professada por homens como Ático, Mânlio Torquato, Lúcio Pisão, Caio Cássio e Amafínio, o primeiro a escrever um tratado latino sobre o epicurismo (Nizan,1978:43).  Dentre esses romanos seduzidos pela doutrina de Epicuro o mais notável foi, sem dúvida, Lucrécio Caro, responsável pela elaboração de uma obra importantíssima para a difusão do epicurismo: o tratado Da Natureza ao qual já nos referimos.  Essa maior aceitação da filosofia pelos romanos não foi um acontecimento gratuito, pois resultou de um contexto bastante próximo daquele que presidiu o surgimento do epicurismo na Grécia, ou seja, o de crise da cidade-Estado, momento em que Roma se encontrava imersa num  processo de desestruturação do regime republicano de governo, de implosão dos alicerces da Urbs, o que gerava uma tensão e uma angústia crescentes, reivindicando a sociedade novas regras de comportamento que pudessem situar os indivíduos frente ao mundo e guiá-los na busca da felicidade.  Esse papel foi cumprido em parte pelo epicurismo, em parte pelo estoicismo e pelos cultos mistéricos.

              A difusão do epicurismo em Roma a partir do I século a C. adveio, em larga medida, do conceito de natureza inerente à doutrina e expresso de forma bastante clara, diríamos mesmo didática, por Lucrécio.  Nesse sentido, devemos mencionar logo de início que a natureza, dentro da obra do referido autor, surge como uma entidade absolutamente dessacralizada, conforme mencionamos.  Isso porque, segundo Lucrécio, a terra, o céu, o mar, as estrelas, o sol, a lua e o conjunto dos seres vivos não foram produzidos por nenhum potentado astral, por nenhuma força transcendente, não se confundindo tampouco com a natureza dos deuses (Luc. II 644-651 e V 148-153).  As forças que foram postas em movimento a fim de gerarem tudo o quanto existe encontram-se, de acordo com o poeta, circunscritas tão somente à natureza em si, conforme o próprio significado do termo latino natura-ae: ação de fazer nascer, nascimento.  Sendo assim, a natureza não pode ser entendida apenas como criação, isto é, como a obra de um artífice ou artífices onipotentes que no princípio dos tempos teriam organizado este mundo para usufruto da raça humana.  Pelo contrário, Lucrécio admite que a natureza é, por ela mesma, uma entidade criadora, como se depreende da seguinte passagem em que o autor se dirige a Mêmio:

"Vou começar a expor-te a essência do céu e dos deuses, e revelar-te-ei os princípios das coisas, donde as cria a natureza e as faz crescer e as alimenta, e para onde as leva de novo a mesma natureza, já exaustas." (Luc.I, vv. 52-56).

              Apesar de possuir o atributo da criação, a natureza não atua de maneira arbitrária e inconseqüente, pois se encontra submetida a leis fixas e imutáveis, a princípios que regem o ato criador.  Tais princípios, no entanto, não são estranhos à própria natureza, mas inerentes a ela mesma, de modo que todas as etapas de nascimento e corrupção dos seres obedecem a uma predeterminação natural e perfeitamente cognoscível, motivo pelo qual afirma Lucrécio, referindo-se aos temores que atormentavam os seus contemporâneos:

"Ora, é preciso que afugentem este temor e estas trevas do espírito, não os raios do sol nem os dardos lúcidos do dia, mas o espetáculo da natureza e as suas leis. E, para início, tomaremos como base que não há coisa alguma que tenha jamais surgido do nada por qualquer ação divina. (...) Assim, logo que assentemos em que nada se pode criar do nada, veremos mais claramente o nosso objetivo, e donde podem nascer as coisas e de que modo pode tudo acontecer sem intervenção dos deuses.Realmente, se fosse possível nascer do nada, tudo poderia nascer de tudo, e coisa alguma teria necessidade de semente." (Luc. I, vv. 148-161).

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            No que diz respeito à maneira efetiva pela qual alguma coisa é criada Lucrécio, sempre orientando-se de acordo com o raciocínio de Epicuro, recorre à teoria de que os corpos, sejam eles vegetais, minerais ou animais, se compõem de minúsculas partículas materiais, invisíveis, indestrutíveis e sem vida, os chamados elementos ou átomos, cuja combinação se dá através das leis da criação às quais já aludimos (Luc. I, vv. 169-172 e II, v. 700-706).  Desse modo, a morte ou a destruição dos corpos nada mais são do que o rompimento desse agregado de elementos que, movendo-se no vazio, trazem as coisas à existência.  E uma vez desfeito um determinado corpo, os elementos que outrora o compunham se encontram livres para integrarem outros arranjos que possibilitarão a emergência de um novo ser, pois, segundo Lucrécio:

"Tudo o que saiu da terra à terra volta, tudo o que foi enviado das regiões do céu outra vez o recebem os espaços do céu. A morte não destrói os corpos a ponto de aniquilar os elementos da matéria: só lhes quebra a união. Depois combina-os de outro modo e faz que todas as coisas modifiquem as formas e mudem de cor e adquiram sensibilidade, manifestando-a logo." (Luc. II, vv. 1000-1006).

              Ao dotar a natureza de uma autonomia em termos da capacidade de se produzir e perpetuar, Lucrécio a seculariza por completo, não admitindo em hipótese alguma que a terra, o céu ou o mar possam ser identificados com as divindades ou mesmo constituir um veículo para a manifestação destas (Luc. II, vv. 654-661).  O conjunto da natureza, em essência, não é mais do que a combinação ordenada de átomos, combinação esta que um dia chegará a seu termo já que, na concepção de Lucrécio, é evidente que foi marcado um fim certo à destruição das coisas, porque vemos que tudo se refaz e que, simultaneamente foi, por geração, fixado às coisas certo tempo para que possam atingir a flor da idade (Luc. I, vv. 560-562).  Dessa passagem, podemos concluir que nada do que existe é eterno, a não ser os elementos que formam os corpos.  A terra e o céu, como partes integrantes da natureza, estariam assim sujeitos ao desaparecimento como qualquer outro ser, o que em termos da mentalidade greco-romana era um tipo de pensamento bastante diferente das crenças comumente propaladas, conforme o próprio autor não deixou de observar  (Luc. V, vv. 98-104).  Despida definitivamente da sua aura mística, a natureza como um todo deve, necessariamente, sofrer o destino de tudo o que não compartilha da centelha divina, estando com isso sujeita ao envelhecimento, à degenerescência, à mortalidade.  Essa vertente de raciocínio, porém, não altera significativamente a concepção cíclica do tempo comum aos homens da Antiguidade.  Ela apenas incorpora ao ciclo de transformações características dos fenômenos astrofísicos, climáticos e agrários os três principais repositórios da criação, ou seja, a terra, os mares e o céu.  De fato, na opinião de Lucrécio é bem possível que a natureza, na sua totalidade, já tenha sido criada e destruída, sendo então o mundo da sua época de criação recente (Luc. V, vv. 330-342).

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              Dentro do pensamento de Lucrécio, a questão da finalidade da natureza assume especial relevância para compreendermos os motivos pelos quais a criação não se encontra submetida a leis exteriores a ela mesma.  Tentando refutar os argumentos estóicos acerca da perfeição da natureza e da sua existência como sendo uma determinação da soberana providência em benefício do homem, Lucrécio propõe-se a demonstrar que o nosso mundo, na verdade, apresenta inúmeros defeitos, pois comporta em seu interior elementos que são nocivos à vida humana (Luc. VI, vv. 770-860).  Além disso, jamais poderia ter a natureza surgido mediante concurso divino, pois os deuses, sendo imortais e livres de degenerescência, não necessitariam criar uma natureza imperfeita (Luc. V, vv. 146-151).  Defender a idéia de que a natureza compartilha em alguma medida a essência divina é, segundo Lucrécio, atribuir aos deuses coisas indignas deles e alheias à sua paz (Luc. VI, vv. 69-71), é tentar aproximar domínios completamente distintos, é enfim julgar que a natureza divina, etérea e atemporal, pode se degradar a ponto de se confundir com a natureza propriamente dita, material e fugaz.  Cabe notar aqui que a filosofia epicurista não propõe, como poderíamos ser levados a concluir, a inexistência do divino.  Ela apenas se preocupa em reafirmar com toda ênfase a separação dos planos divino e humano já divisada pela tradição filosófica grega desde os seus primórdios.

              A retomada da filosofia epicurista por Lucrécio não deve ser considerada, em nossa opinião, um acontecimento fortuito, mas sim estreitamente relacionado com o contexto de stásis vivido pelos romanos durante o último século da República, como se verifica logo na abertura da obra, quando em sua invocação a Vênus canta o poeta:

"E tu, ó deusa, enquanto ele (Marte) repousa, enlaça-o com teu corpo sagrado, solta dos lábios tuas doces palavras e pede para os romanos, ó cheia de glória, a plácida paz.  Efetivamente, nesta época terrível para a pátria, nem eu posso com serenidade realizar o meu trabalho nem o ilustre, descendente dos Mêmios iria, em tais circunstâncias, faltar à salvação comum" (Luc. I, vv. 36-42).

               A “terrível situação” a qual Lucrécio se refere, fruto dos embates contínuos entre as facções oligárquicas que disputavam o controle da civitas, encontrava-se ainda agravada por fatores de ordem religiosa.  Isso porque, de acordo com a mentalidade greco-romana, o mundo terrestre e o mundo dos deuses compartilhavam de uma estreita conexão, de modo que qualquer ato sacrílego efetuado pelos homens poderia acarretar um desequilíbrio cósmico que afetaria o domínio dos deuses.  Estes, por sua vez, cientes do problema, agiriam no sentido de exigir dos transgressores uma restauração da harmonia do cosmos ameaçada.  O veículo para a transmissão da vontade divina seria nada mais nada menos que as forças da natureza materializada em prodígios variados como, por exemplo, relâmpagos num dia de sol, chuvas torrenciais, enchentes súbitas, nascimento de andróginos e outros (Bayet, 1984:68-69).  Um pensamento desse tipo, que faz da natureza um instrumento nas mãos das divindades, coloca os homens, em contrapartida, numa posição de extrema fragilidade, sempre na expectativa de uma catástrofe iminente caso alguma regra de conduta fosse violada.  O estoicismo tentou solucionar esse estado de tensão permanente entre o homem e a natureza, atribuindo aos fenômenos naturais uma predeterminação divina e conclamando os homens a aceitarem com resignação e mesmo com reconforto a manifestação de tais fenômenos, tomando-os então como a evidência de que, em algum lugar, a simpatia universal havia sido atingida, razão pela qual a soberana providência, visando ao nosso próprio bem, expunha o problema a todos a fim de que se buscasse a solução.  A proximidade desse raciocínio com a concepção tradicional da pax deorum é por demais evidente para que possamos considerar o estoicismo, pelo menos nesse aspecto, um ponto de inflexão, salvo o fato de que agora a natureza não era mais um suporte para a ação divina, mas se confundia ela mesma com a divindade.  O epicurismo, por sua vez, veio subverter de alto a baixo a concepção tradicional de natureza, acentuando em larga medida as teorias atomísticas de Demócrito e contribuindo, com isso, para a consolidação de uma vertente de pensamento que se costuma designar por materialismo.  

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             Desfeitos os laços que uniam a natureza às divindades, à soberana providência ou ao destino, abre-se espaço para que o homem possa, ele mesmo, definir a sua conduta num mundo repleto de imperfeições, sem preocupar-se com problemas que transcendem o universo da sua própria existência e em nada podem atingi-lo.  Valendo-se do pensamento materialista para refletir sobre a própria essência da condição humana, Lucrécio conclui que a nossa vida é tão mortal quanto a própria natureza, com a desvantagem de não poder se perpetuar em ciclos (Luc. III, vv. 339-341).  Isso equivale a dizer que não existe vida após a morte e que a alma humana, sendo composta assim como o corpo de elementos materiais está sujeita à degradação (Luc. III, vv. 510-525).  Dessa forma, a única vida a qual podemos aspirar é essa que possuímos enquanto integrantes e agentes de um mundo material, motivo pelo qual tudo devemos realizar no sentido de obtermos aqui a felicidade, caso contrário não teremos outra oportunidade de fazê-lo, nem num mundo superior a este nem num retorno à vida, haja vista o fato de que, uma vez tendo assinalado a mortalidade da alma, Lucrécio posicionava-se contra a metempsicose nos seguintes termos:

"Se a substância da alma é imortal, e se introduz-se no corpo ao nascer, por que razão não podemos lembrar-nos do tempo passado nem conservar qualquer vestígio do que foi feito? Efetivamente, se a tal ponto se transformaram as faculdades do espírito que tenha desaparecido toda a retentiva das coisas realizadas, creio se não anda muito afastado da morte; é por isso que é necessário confessar que morreu a que existia antes e foi depois criada a que depois existe (Luc.III, vv. 670-677).

              De acordo com a filosofia epicurista, a obtenção da felicidade exige que o homem admita que está só diante da natureza, e que apenas se reencontrando com ela será capaz de evitar as necessidades não naturais e não necessárias que tanto sofrimento lhe causam.  Tais necessidades são todas aquelas que resultam de uma complexificação excessiva da vida social, de modo que à antiga indumentária feita de ramagens e peles de animais se sucedem os tecidos de ouro e púrpura, por exemplo, o que suscita a inveja, a cobiça, as guerras, a infelicidade e a dor, afastando assim o homem do Bem Supremo ao qual naturalmente tende (Luc. VI, vv. 25-26).  Ser feliz exige, assim, a renúncia de toda e qualquer convenção social que possa interpor-se entre o homem, este ser que possui necessidades, e a natureza, domínio onde se pode encontrar satisfação para tudo o que se deseje, desde que o desejo seja naturalmente necessário.  Essa última conexão entre o homem e a natureza não significa que a relação assim estabelecida esteja isenta de dificuldades.  Pelo contrário, se a natureza contém tudo o que o homem de fato precisa para viver (e viver bem, conforme Lucrécio), cabe a ele saber aproveitar adequadamente as potencialidades do mundo que o cerca através do trabalho.  De fato, uma vez que a natureza não foi criada com a finalidade de abrigar a espécie humana, o homem tem de adaptar o meio às suas exigências, vencendo com isso os obstáculos que se colocam no seu caminho.  Recriando a natureza, o homem tem o privilégio de aproximar, na medida do possível, aquilo que é ‘imperfeito’ da perfeição, e talvez nesse sentido possa se considerar artífice e responsável pela construção do seu próprio mundo.  

 

DOCUMENTAÇÃO

LUCRÉCIO. Da natureza. In: CIVITA, V. (ed.) Os pensadores. V. V. São Paulo: Abril, 1973.

 

BIBLIOGRAFIA

BAYET, J. La religion romana.  Madrid: Cristiandad, 1984.

BRUN, J. O epicurismo.  Lisboa: Ed. 70, 1987.

_______. O estoicismo. Lisboa: Ed. 70, 1986.

CHÂTELET, F. História da filosofia. T. 1. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.

NIZAN, P. Os materialistas da Antigüidade. Lisboa: Estampa, 1978.

 

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