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ISSN 1518-2541
Hélade 1 (2), 2000: 28-41 Sumissão: Set/2000; Aceitação: Set/2000 Ana Livia Bomfim Vieira Professora Mestre, Pesquisadora do LHIA- UFRJ.
Os Camponeses e a phýsis
A pólis ateniense do período clássico estava profundamente mergulhada em valores rurais. Sabemos que o termo pólis nomeia uma sociedade que conjuga o espaço urbano e rural em um território determinado, contudo, os valores políades eram ligados ao espaço rural - chôra. A agricultura, inclusive, possuía uma valoração significativa para os atenienses. Apesar disso, o estudo do espaço rural foi durante muito tempo esquecido ou minimizado em função do centro urbano ateniense. O nosso objetivo, com este trabalho, é fazer renascer o interesse pelo estudo das áreas rurais, não só do mundo antigo, como também das sociedades modernas de forma geral e da brasileira em particular. Podemos afirmar que os séculos V e IV a.C., foram basicamente caracterizados pelo estado de guerra, mais especificamente, por uma corrida incessante pela hegemonia do mundo grego, com um estado quase que permanente de guerra generalizada, isso sem mencionarmos os vários conflitos localizados. É com a guerra do Peloponeso – 431 a 404, que percebemos uma virada na história grega, seja esta mudança encarada tanto por aspectos econômicos, políticos, sociais ou militares. Dá-se início à desagregação da pólis, como quadro essencial da civilização grega, sendo substituída por novos quadros, como a monarquia, que vai imperar durante a época helenística. O século V pode ser caracterizado, também, por aspectos que surgem já com a guerra do Peloponeso, e aos que surgem paralelamente ao conflito, a saber: transformação das técnicas da guerra, conflitos sociais e políticos, e por outros traços que, para esse nosso trabalho, serão de suma importância, ou seja , uma mudança, ou melhor, uma desagregação dos valores políades, valores estes que mantinham a unidade da pólis porque mantinham a unidade entre os iguais, entre os cidadãos. 28 |
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O quinto século ateniense conheceu, também, grandes mudanças no seu ideal de cidadão, mudanças essas estreitamente vinculadas ao local e tipo de trabalho que era realizado. Durante a primeira metade do século V o trabalho digno e honesto era o trabalho na terra. O camponês, principalmente o agricultor, e o espaço rural representavam o que havia de mais valoroso. Os valores morais, como já lembramos, estavam associados a chôra. E eram esses valores que formavam o perfeito cidadão ateniense: A coragem (andréia), a temperança (sophrosýne), a bondade (praótes), a liberdade (eleutheriótes), a verdade (alétheia), a reserva (aidós), a justa indignação (gémesis), a amizade e o amor (philía), a piedade (eusébeia) e a disciplina (eutaxía). Eles estavam vinculados ao duro trabalho nos campos. A labuta na terra é que lapidaria um verdadeiro polites. Os valores vão continuar os mesmos, eles não mudaram. O que vai mudar é o lugar de produção, o lugar em que estes valores vão estar presentes assim como o segmento social, ou segmentos, a eles associados. Estes valores vão estar presentes, agora, no espaço urbano e nas suas instituições, vão estar associados às elites urbanas já mencionadas. O homem, segundo o pensamento sofista, pode conhecer a natureza e até mesmo duvidar da existência dos deuses. Não digo que a população estivesse de acordo ou simplesmente conhecesse tais idéias, contudo o seu surgimento neste momento já é extremamente significativo. O saber é o "racional", da argumentação, do debate, é o lógos. O tempo é muito mais o do homem do que o da natureza, é o tempo da força da tomada de decisão, do trabalho na marinha , no comércio e no artesanato. Para melhor visualizar, oferecemos o seguinte quadro:
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Este quadro refere-se, logicamente, a um sistema de valores. Nem o saber camponês desapareceu na segunda metade do quinto século, nem o comércio inexistia antes deste período. Nosso intento é tornar mais visível a que espaço e atividade, estavam ligados os valores ideais no decorrer do quinto século. Após a guerra greco-pérsica, incluindo esta, uma série de processos históricos vão contribuir para uma mudança nos esquemas culturais relativos à valoração da cidade ao invés do campo. Seriam estes, a partir da segunda metade do quinto século, esquemas simbólicos, ou culturais, democráticos. Esta mudança visava à própria manutenção da estrutura políade que mostrava sinais de desagregação. E isto deve-se, além de tudo, ao choque da eclosão e posterior derrota na Guerra do Peloponeso. Atenas sai fragilizada e, para não desestruturar-se, procura fortalecer seus valores morais ligando-os ao espaço urbano, lugar da prática política democrática. E isso foi feito ligando esses valores às atividades dos segmentos sociais que formavam a nova elite urbana. Não ocorre uma inversão de valores, mas uma reorganização das categorias culturais, que estavam anteriormente associadas a valores aristocráticos. Era preciso fortalecer a democracia neste momento conturbado. E a melhor forma era valorizar ou euforizar as práticas e saberes do espaço da ásty. Essa imagem de uma Atenas essencialmente rural pode ser identificada na documentação textual do período mas, principalmente, nas tragédias do poeta Ésquilo. Suas obras vão apresentar uma comunidade envolvida em valores rurais, herdeira de uma sociedade aristocrática, micênica, que encarava a terra como um bem maior e os ideais morais formadores do cidadão como estando, também, associados à terra. Ésquilo está muito mais próximo à cultura oral do passado (Seagal, 1994: 196) (1), de Hesíodo, por exemplo. É claro que Hesíodo não era um ateniense. Mas tanto uma sociedade como a outra valorizavam o campo como lugar de bem viver e a agricultura como trabalho honroso e fundamental para a sobrevivência da pólis (HESÍODO. Os Trabalhos e os Dias, vv.20-25, 299-303, 306-307. ÉSQUILO. Eumênides, vv.1195-1205, 1237-1251.). 30 |
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Mas, o que nos leva a afirmar isso? O que nos faz concluir que Hesíodo, no VII século, e Ésquilo, na primeira metade do V, falam de uma mesma realidade, pelo menos no que diz respeito aos valores? Podemos concluir assim, pois identificamos em ambos a presença do que chamamos de saber camponês. Nas obras dos dois autores a relevância do espaço rural é marcada pela utilização desse saber tradicional de forma contundente. O que seria, contudo, o saber camponês? Esse era um conhecimento construído pelos camponeses, de forma empírica, através da observação e verificação. Ligava, estreitamente, os fenômenos da natureza - phýsis - e as atividades dos campos, principalmente a agricultura. Esses fenômenos, que poderiam ser astronômicos, climáticos ou ambientais, serviam de guia para a realização das práticas rurais na forma de marcação do tempo. Dentro desta questão, o exemplo de Hesíodo é fundamental:
Pode ser observado, na referida passagem, que a constelação das Plêiades é utilizada como sinal, como guia do camponês para que esse não descuide do tempo correto de realização da colheita e da semeadura dos grãos. Ésquilo também vai se utilizar desse saber em suas obras (ÉSQUILO. Agamêmnon. Vv.5-10, 928-929, 1020-1021, 1109-1118.), porém, o que é mais marcante neste autor são suas metáforas ligadas ao espaço rural e suas atividades. Como exemplo podemos destacar o seguinte trecho da peça Eumênides:
Termos eminentemente ligados à realidade do agricultor (ceifar, semente, plantação) são utilizados, metaforicamente, como forma de passar uma mensagem não necessariamente vinculada ao campo. Isso denota a existência de um público, para as peças, formado, na sua maioria, de camponeses, ou, no mínimo, de homens que possuíam o pleno domínio desse tipo de conhecimento. A Atenas apresentada por Ésquilo era familiar aos homens que assistiam às apresentações de suas tragédias. A Atenas da primeira metade do quinto século era, portanto, uma sociedade ruralizada que valorizava o camponês e o trabalho na terra. 31 |
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Durante a primeira metade do referido século, como vimos, todas as características formadoras de um pleno cidadão eram encontradas no campo. A partir da segunda metade do quinto século - 460 aproximadamente - Atenas reafirma sua opção pelo espaço urbano. Isso ocorre como forma de fortalecer a democracia e os segmentos sociais a ela ligados, segmentos esses essencialmente urbanos. O representante dessa nova Atenas, urbanizada, será Eurípides. Esse poeta trágico vai falar da natureza, porém, não mais será uma natureza rural. As imagens do campo vão desaparecer. O que vamos encontrar são referências à fenômenos astronômicos, na sua maioria. Ao contrário de Ésquilo, Eurípides vai utilizar-se de alusões aos fenômenos astronômicos com o claro objetivo de criar uma particular atmosfera para o decorrer de suas peças, é quase como um cenário lúdico e mítico. Eurípides escreve suas obras em um momento que Atenas está passando por profundas transformações, entre as quais, podemos citar, aquelas ligadas à forma de pensamento (Assael, 1983: 309). De um lado, o pensamento tradicional, mítico, representado pelo saber camponês. De outro, o pensamento racional, desmistificador, ligado aos sofistas. Eurípides vai se situar no meio destes pólos. Deve ser observado, contudo, que Eurípides não vai se posicionar radicalmente em favor de um deles. Muito mais importante do que o posicionamento em um dos extremos, é o caráter, à primeira vista, contraditório do autor. Eurípides vai lançar mão, ao mesmo tempo, de uma tradição mítica e de um pensamento "científico". Podemos afirmar, no entanto, que ele lança mão de explicações míticas, ao invés de "científicas", quando fala dos astros (EURÍPIDES. Orestes, vv.1635-1636.). Eurípides recupera os discursos míticos que falam sobre a transformação das divindades em astros, diferentemente de Hesíodo ou Ésquilo que apenas mencionam os astros como marcação de tempo, sem mencionar os mitos que os originaram. Tal explicação é bastante significativa. Em Hesíodo e Ésquilo, a phýsis, ou mais especificamente, os fenômenos astronômicos, vão estar associados às práticas cotidianas dos homens, inclusive sendo comparados a estes. Em Eurípides, os únicos que serão comparados aos astros serão os heróis (EURÍPIDES. Hipólito. V.1122; As Fenícias, vv.127-130.). 32 |
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Quando nos referimos a Eurípides estar situado entre duas formas de pensamento, queremos dizer que continua lançando mão de uma tradição mítica, como foi demonstrado. Embora esta seja usada de forma diferente. O referido poeta possuía algum conhecimento de física, talvez por influência do contato que manteve com Anaxágoras. Esta presença ajuda a explicar a associação, feita pelo poeta, de um o eclipse com o recuo do sol (EURÍPIDES. Orestes, v.812.) (3). Lembremos, ainda, que estes physikoí baseavam o seu conhecimento, o seu saber, no própria palavra. Não associavam os fenômenos à vontade dos deuses. A explicação dos fenômenos estava calcada em uma crítica lógica, "racionalizada". Era a força da palavra daquele que detinha essa forma de téchne. É essa força da palavra, democratizada pelos sofistas, que vai imperar na segunda metade do quinto século. É a procura pelo saber racional, pelo que pode e deve ser conhecido, incluindo nesse caso, a própria phýsis. A necessidade de desmistificar é, também, uma herança dos physikoí. Afinal, Heráclito nos disse que "as coisas que se podem ver, ouvir e conhecer são as que eu prefiro" (in: HIPPOLYTUS. Refutatio Omnium Haeresium, IX, 9, 5.). Aristófanes era um conhecido comediógrafo e suas peças mostram uma voz discordante neste momento. Ele vai criticar tanto a desagregação dos valores políades, que ele articula aos centros urbanos, e, para isso, veremos ressurgir o saber camponês na produção cultural, como os novos saberes racionalistas. Quanto ao saber camponês, podemos citar algumas passagens:
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Aristófanes é quem vai reaproximar a natureza dos homens. Vai, através do saber camponês, recolocar o campo num lugar de destaque em relação à cidade. Este destaque se dá tanto no que diz respeito às instituições citadinas, quanto aos novos saberes. Esta "retomada" dos valores rurais, é na verdade, uma tentativa de retomada dos valores dos aristoí, e o retorno a um momento de paz, que o autor antagoniza ao momento em que escreve as suas peças. Um momento de conflito que não poderíamos deixar de lembrar, principalmente pela invasão da Ática pelos espartanos e seus aliados, em 413, quando se estabelecem de forma permanente na região da Decêleia. Essa tática militar trouxe perdas significativas para a agricultura ateniense (CHEVITARESE, 1997: 189.). Além disso, com a derrota na guerra do Peloponeso, Atenas teve que entregar quase que praticamente toda a sua frota aos vencedores, o que acabou produzindo a perda de seu império marítimo, e, logo, seu acesso livre e direto às rotas de comércio. Isso vai, inclusive, ocasionar neste quinto século, uma forte pressão social em termos da importação dos cereais. Todo esse contexto de desagregação vai ser associado pelo comediógrafo à democracia, às novas atividades urbanas. Aristófanes, contudo, sendo um conservador muito mais do que democrata ou oligarca, vai criticar ferozmente as suas instituições, e, logo, a ásty. O comediógrafo apresenta as instituições citadinas de forma crítica e pejorativa. Em As Aves, por exemplo, verifica-se que o dito heliasta (um pró-Atenas) aparece em um contexto citadino, ao contrário do anti-heliasta, que está inserido no espaço rural. O autor euforiza este último, já que ele se coloca contrário tanto a prática de julgar em troca do misthós, quanto a prática dos sicofantas, vistos como delatores pelo comediógrafo:
Além de se confessar um delator, o personagem afirma não ter vocação para cavar. Ora, o homem não possuía vocação para os trabalhos agrícolas, que Aristófanes considerava o trabalho digno. Esta imagem negativa do espaço urbano fica clara até mesmo pela escolha dos personagens e das atividades que estes exercem; e por colocá-los tentando entrar nesta pólis das aves - representante do espaço rural. Todos os recém-chegados serão expulsos da Nephelokokkugía. Além do sicofanta, caçador de processos e que se auto-denomina um delator por tradição. 34 |
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Podemos, a partir desses dados, levantar a questão da dificuldade, para a maioria da população, em diferenciar um sophós de um sofista, ou um arquiteto/geômetra de um pedreiro. Mas Aristófanes permite ao espectador perceber que o que está sendo proposto na peça é um completo absurdo. Isto acontece intencionalmente, pois está associado à ridicularização dos saberes racionais. Todavia, as referências de Aristófanes dizem respeito a questões de saberes "científicos" que permeavam a sociedade neste momento (4). Apesar da elite, juntamente com setores urbanos, parecer optar pelo espaço urbano, a maioria da população encontra-se, na verdade, atônita e confusa com estes novos personagens da vida cívica. Da comédia As Nuvens, podemos destacar um trecho bastante significativo da ridicularização dos saberes racionais:
Temos ainda na mesma obra, uma interessante discussão sobre a divinização das nuvens. Essas, segundo Aristófanes pela boca de Sócrates, seriam deusas, o que é uma clara referência à proposta do pensamento racional de desvincular os fenômenos da vontade dos deuses. Esses teriam uma lógica própria, passível de ser conhecida. Sobre isso o autor nos diz:
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Não deve ser perdido de vista que esta era uma discussão eminentemente urbana, e que os camponeses se encontravam distantes destes saberes. Ao contrário, tinham o seu próprio saber, como já dissemos, baseado nos fenômenos da phýsis e construído de forma empírica. E são estes saberes que Aristófanes coloca como sendo importantes. Isto se faz, de imediato, pelo fato de que as aves são fundamentais na percepção do tempo para as práticas rurais, principalmente as agrícolas (ARISTÓFANES. As Nuvens, v.105, vv.230-260, 705-720). A seguir, pela escolha das aves como personagens principais desta peça. Concordamos com P. Ghiron-Bistagne (Ghiron-Bistagne, 1973: 307), quando esta pesquisadora salienta que o Coro, sendo composto por animais, estava relacionado com o espaço rural. Podemos lembrar, inclusive, de outras comédias Aristofânicas, como, por exemplo, As Rãs e As Vespas, nas quais o Coro se caracteriza com os traços destes animais, realizando críticas, novamente, ao espaço urbano. O camponês é apresentado como incapaz de entender os novos saberes, como bronco e ignorante. Todavia essas características, na verdade, são aquelas dadas pelos segmentos sociais urbanos, pelos grupos democráticos. São esses que identificam o camponês como alguém incapaz de entender e interagir com essa nova realidade. Porém, Aristófanes vai apresentá-los como ignorantes, sim. Mas ignorantes nesses novos saberes, considerados por ele como perniciosos. Além do que, ele associa os homens do campo aos mais altos valores políades. A questão do trabalho também está vivamente presente em Aristófanes. O trabalho digno era aquele ligado a terra. O produto da agricultura era visto como um bem. Pelo contrário, as ocupações de comerciantes e artesãos, novos setores urbanos presentes na vida política de Atenas, eram mal vistas. O comediógrafo nos explicita isso na peça Os Cavaleiros, onde critica intensamente dois personagens, conhecidos políticos atenienses e tidos por Aristófanes como demagogos: um curtidor - Cléon - e um fabricante de lamparinas - Hipérbolo. Voltando-se para o povo que estava a aderir às palavras do demagogo, um simples salsicheiro diz:
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Aristófanes critica o papel dos demagogos, dos políticos profissionais que são uma das características deste século IV. E critica ainda mais a submissão, por parte do povo, à esses homens, levando à ruína da política; pois esta seria o fruto da reunião do povo em Assembléia. Outros, Aristóteles por exemplo, também se colocaram contra os demagogos, porém Aristófanes mostrou que, ao banir da Assembléia a liberdade da palavra em conseqüência do encorajamento à esses políticos, o que ocorria, pouco a pouco, era a perda da soberania dos cidadãos. Perda da soberania, como vemos, pela desunião, divisão do corpo que deveria por obrigação estar unido, criando, ou intensificando a identidade tão preciosa em momentos de crise. Além disto, o povo estaria colocando o poder da palavra nas mãos dos demagogos. Ora, no sistema políade, há uma proeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder (Vernant, 1989: 34). E a arte da política é a arte da linguagem, do Lógos. E a política é função do cidadão. É ela que talvez, mais que tudo, acentuava a identidade entre estes homens. Portanto, como aceitar que em um momento de crise, de desagregação, aonde o fortalecimento dos laços de identidade entre os politai precisavam ser apertados, estivesse ocorrendo exatamente o contrário? Devemos lembrar que essas profissões, como já falamos, possuíam um caráter, um estatuto inferior às atividades rurais (Finley, 1986: 193; Mossé, 1989: 127). Contudo, neste momento, esses segmentos urbanos estão presentes na vida política ateniense, com alguns ricos artesãos tendo chegado a assumirem o governo de Atenas no final do quinto século (Mossé, 1994: 35). Aristófanes, ridicularizando a figura destes homens, chama a atenção de sua platéia para o momento político em que vivem. Momento esse que valoriza segmentos sociais desvinculados dos valores considerados por ele como estando ligados, necessariamente, ao espaço rural, aos arístoi. Xenofonte, no Econômico, também estabelece a mesma crítica. Ele refere-se à artesãos e comerciantes como desligados dos interesses públicos, como preguiçosos para o trabalho, tendo por isso o corpo mole, e como sendo incapazes de uma ligação de amizade, philía (XENOFONTE. Econômico, L. IV, 2-3; L. VI, 5). O camponês, ao contrário, seria aquele homem de corpo rijo, trabalhador, que pensa na koinonía, e é, melhor do que ninguém, capaz de construir relações de philía (XENOFONTE. Econômico, L. V, 1, 7, 13; L. VI, 9). Na peça As Aves Aristófanes ainda ressalta a importância da philía e de que os verdadeiros amigos estavam dentro da cidade das aves, uma alegoria para o espaço rural, sendo necessária a construção de muralhas como proteção aos inimigos externos, os homens da ásty (ARISTÓFANES. As Aves, v.375). 38 |
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Aristófanes volta a falar da chôra como o lugar ideal para o homem de bem viver. Um lugar tranqüilo (ARISTÓFANES. As Aves, vv.415-425) sem os perigos que o centro urbano traz:
Um lugar onde um homem de bem não precisa de tanto dinheiro para viver, já que se alimenta do que planta (ARISTÓFANES. Os Acarnenses, vv.34-36). Sua riqueza vem da terra. Lembremos também da peça A Paz, que proclama uma volta à calma e tranqüilidade do passado, de um passado aristocrático de valores ligados à terra e que são associados, por Aristófanes, a um tempo de tranqüilidade, de riquezas advindas da chôra e de uma participação política vinculada aos bem nascidos. O que pretendemos, enfim, é demonstrar que as obras de Eurípides vão representar uma Atenas eminentemente urbana. Isto pode ser percebido, não só pelo reduzido número de referências à chôra, mas também, pela presença do conflito pensamento racional / pensamento tradicional nas suas peças. Esta era uma discussão eminentemente citadina, não chegando à maioria dos cidadãos, ainda camponeses. Esta discussão fazia parte da construção de uma imagem urbana para Atenas, da construção de um éthos urbano. Para reforçar nossa afirmação, mostramos que o próprio Aristófanes, ao se utilizar do saber camponês como uma forma de reafirmação dos valores ligados ao espaço rural, questionava, exatamente, a valoração dos saberes e práticas urbanas, como sendo provenientes de uma sociedade em desagregação. Questionava a euforização da ásty como espaço de formação dos valores morais. 39 |
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