ISSN 1518-2541

Hélade 1 (2), 2000: 18-27

Sumissão: Set/2000; Aceitação: Set/2000

Alvaro Hashizume Allegrette

Pós-doutorando do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo

Padrões de circulação em Creta da Idade do Bronze: alguns elementos de definição

 

O caso do sítio palacial de Mália

 

            Mália é um sítio localizado no norte da ilha de Creta, na porção sul do Egeu. Esta é uma região que viu a aparição de uma das culturas mais marcantes da Idade do Bronze no Mediterrâneo, a civilização minóica.

            Seu nome veio do lendário Rei Minos, senhor do palácio de Cnossos, casado com Pasífae, cujo filho ilegítimo era o Minotauro, monstro derrotado e morto pelo herói ateniense Teseu com o auxílio da filha de Minos, Ariadne. O responsável por esse batismo foi o arqueólogo inglês Sir Arthur J. Evans, descobridor do palácio de Cnossos, o maior dos palácios minóicos e o primeiro a ser encontrado. Em seguida à sua descoberta em 1900, os italianos e os franceses encontraram dois outros palácios, o de Festos, na parte sul da ilha e o de Mália na parte norte, num período de menos de quinze anos.

            Esses palácios eram vistos como centros de poder religioso, político e econômico regional na ilha, sendo Cnossos encarado como a sede do poder, aparentemente de caráter teocrático. Esta interpretação foi reforçada com a descoberta de outro palácio menor na ilha, em Kato Zacro, no extremo Leste.

            Uma tal visão tem sido contestada nas últimas décadas, com relação à definição destes edifícios como palácios, pois até o momento não se tem informações sobre a identidade dos governantes, com exceção das referências mitológicas (1). O que se sabe é que os palácios constituíam um núcleo de concentração de atividades na região em que se encontravam e que o seu papel não está ainda claramente estabelecido.

           De maneira geral, os palácios começaram a ser construídos durante o Minóico Médio (ca. 1900-1700 a.C.), momento em que há uma reestruturação da sociedade minóica, marcada no estrato arqueológico por incêndios e destruição de edifícios. É neste momento que o núcleo populacional de Mália sofre as maiores transformações.

            Nesse local, as áreas antes ocupadas são abandonadas e os edifícios são construídos em locais diferentes. Observa-se um movimento de deslocamento das construções do litoral para o interior, em direção a um pequeno platô, com a concentração de construções nesta área. Alguns edifícios são reaproveitados, especialmente aqueles que estavam no interior desta área, como a casa Épsilon e a Cripta Hipostila. Outros conjuntos como a quadra Mu são completamente abandonados, fato significativo na história de Mália, pois esta quadra era um dos centros de produção de bens e de administração da economia local.

            Nota-se neste período uma nova forma de construir, que consiste na aglutinação de residências em blocos ou quadras. As construções institucionais são erigidas isoladamente, como o palácio, as villae (2) e os santuários. Temos evidências da implantação de um sistema de ruas e praças que dirige a circulação dos indivíduos na cidade. Como há uma padronização destas ruas, temos um sinal de uma autoridade central que gerencia os negócios públicos.

18

 

           Hélade 1 (2), 2000: 18-27

 

            Em último lugar, verificamos que o palácio se torna o edifício principal da região, pois nele estão centralizadas as atividades políticas, religiosas, econômicas e administrativas.

            Temos como princípio que a organização espacial do palácio representa esta concentração de atividades, onde sua multifuncionalidade estaria expressa em sua própria concepção arquitetônica, voltada para uma integração e uma separação destas funções no edifício.

            Até o momento pouco pode ser mencionado quanto às potencialidades da análise espacial no estudo de contextos proto-históricos, especialmente mediterrânicos e mais particularmente da área do Egeu. Os trabalhos mais relevantes nesta área consistem em estudos variados, destacando-se aquele que privilegia a abordagem teórica do objeto, ainda que sem obter uma confirmação prática dos resultados, como a exaustiva e extensa análise da arquitetura minóica proposta por Donald Preziosi (PREZIOSI, 1983). Considerando as obras que lidam com aspectos e problemas exclusivamente ligados à arquitetura minóica, serão encontradas escassas indicações, pois com exceção dos estudos fundamentais de Shaw (SHAW, 1972) e de Graham (GRAHAM, 1987) (3), os trabalhos são muito restritos. As mais recentes e valiosas contribuições, ainda são a de Palyvou (PALYVOU, 1987, 195-203), a respeito de padrões de circulação nos palácios, publicada em 1987 e a de Driessen (DRIESSEN, 1988-89, 3-23) (4), sobre os indícios de transição arquitetônica no Minóico Recente Ia (ca. 1700-1450 a.C.), publicada em 1988-89 (5). Os estudos sobre a urbanização minóica feitos por Damiani-Indelicato (6) pecam pela fixação de resoluções ao redor de uma hipótese improvável, no caso a de um paralelismo entre a ágora clássica e os conselhos de anciãos com as áreas teatrais (7) e construções associadas, como o edifício Kappa beta de Mália e o complexo de salas CV-CVII de Festos.

            Acreditamos que houve o estabelecimento de uma relação definida entre espaço construído e atribuição funcional no edifício palacial, ou seja, que os espaços foram construídos tendo em vista as atividades que ali seriam desenvolvidas e, além disso, que havia uma intenção de se controlar a circulação de indivíduos dentro da estrutura, separando-se aqueles que eram membros da vida palacial e os que eram visitantes.

            No caso do palácio de Mália observamos que de acordo com as funções havia uma escolha dos materiais e das técnicas de construção das salas, segundo um desenho específico, mas não sabíamos qual era o conceito-chave para entender a configuração geral do edifício. Até agora foram identificadas ao menos cinco funções no interior do palácio: habitação; estocagem; produção (oficinas); atividades cerimoniais (culto e aparato) e atividades administrativas. Estas funções estavam distribuídas em blocos arquitetônicos, havendo por exemplo três blocos de depósitos, outro de oficinas, outros de atividades cerimoniais e dois de habitação.

            Alguns espaços como os depósitos, têm características especiais. Estes consistem em salas alongadas dispostas lado a lado e servidas por um único corredor numa das extremidades menores. Essas salas dispõem de banquetas baixas, valetas e vasos coletores; estão sempre juntas a uma área de circulação. Em Cnossos temos cerca de quinze depósitos em bateria na ala Oeste, local comum para este tipo de sala, junto às áreas cerimoniais.

            Mas o que nos saltou aos olhos foi a noção de que o palácio fora construído em quadras, como as residências. Cada quadra consistia em uma série de salas interligadas com apenas um ou dois acessos externos. Então na circulação estava uma pista da- organização do edifício, não apenas na sua distribuição funcional.

19

 Hélade 1 (2), 2000: 18-27

 

           Como em todos os palácios minóicos, existe um pátio central ao redor do qual existem quatro grandes alas, com entradas em todas as faces externas. As entradas principais ficam ao norte e ao sul, mas não possibilitavam uma visão direta do interior do pátio central. Passa-se por uma série de corredores e pátios menores até se chegar ali, no ponto principal de circulação do palácio. O pátio central é o local a partir do qual se irradiam as rotas de acesso para todas as alas diretamente, com exceção da área residencial.

            Um dos principais elementos de uma entidade arquitetônica é a relação entre o espaço interior e exterior. Isso porque necessariamente qualquer construção define uma situação na qual as coisas e as pessoas estão situadas dentro ou fora. Esta diferenciação normalmente se aplica a medida que o que está do lado de fora está excluído e o que está dentro está incluído (8). Este conceito é básico para a compreensão do problema que eu pretendo analisar aqui, a relação entre os espaços privados e os espaços públicos no palácio de Mália. Ela se refere à questão da acessibilidade dos espaços, considerando como espaços privados aqueles aos quais o acesso é bloqueado por barreiras físicas deliberadas. Neste sentido, lidar com o estudo de padrões de circulação possibilitaria a compreensão dos conceitos de organização do espaço nesta civilização.

            Ao falarmos em padrões nos referimos essencialmente à presença de regularidades relativas à circulação que poderiam delinear um modelo aplicável a qualquer parte do edifício palacial maliota do período neopalacial. Nossa proposta é exatamente a de fornecer subsídios para a elaboração de tal modelo, tomando como base essencialmente a configuração do edifício, sem considerar neste momento o problema de caracterização e identificação funcional (9).

            O palácio de Mália foi inicialmente erigido durante o período protopalacial (ca. 1900-1700 a.C.), compreendendo parte da fachada Oeste e um setor obliterado no ângulo noroeste. O edifício construído no período neopalacial (1700-1450 a.C.), após as destruições do fim do período anterior, ocupava uma área muito maior e abrangia então um complexo de 173 espaços ao nível do solo, cujos vestígios são ainda visíveis.

Neste estudo consideramos a existência de uma série de elementos arquitetônicos vinculados à circulação, ainda que possa não ser esta a finalidade primeira de alguns deles. Isto compreende os pátios, os corredores e as entradas externas, todos consistindo em pontos de conexão e distribuição de circulação no edifício.

palaciomalia.JPG (242780 bytes)
  Planta do palácio de Mália, com indicação das quadras e acessos externos  (École Française d'Athènes).

20

 Hélade 1 (2), 2000: 18-27

 

           Observaremos inicialmente que o palácio dispõe de entradas em quatro de suas faces externas, em um total de oito, das quais três não permitem acesso ao interior do edifício, mas a setores localizados em posição anexa ao mesmo: a entrada para a quadra XVIII, para a quadra XXVI e para o bloco de silos. Todas sem conexão com o interior do palácio. Das outras cinco temos duas que podem ser consideradas as entradas principais, seja pelo cuidado na confecção da estrutura, seja pelas suas dimensões. Estas são as entradas norte e sul.

            A entrada norte se distingue por estar situada no extremo da via pavimentada que percorre a esplanada ocidental, por possuir dois vestíbulos lajeados em seqüência dotados de portas e, possivelmente por ter uma casa de guarda na peça XXVII 1. A sua localização junto ao pátio norte sugere-nos ainda que se tratasse da principal entrada para as quadras III-IV, seguindo-se uma rota que passaria pelo pátio noroeste até a entrada da peça IV 2, único acesso para esse grupo de aposentos cerimoniais no térreo.

            A entrada sul apresenta um corredor lajeado sem paralelo no edifício pelas suas dimensões e pela regularidade do trabalho; deste corredor se tem passagem para o pátio central e para a escadaria monumental que se comunica com o piso superior, no qual haveria uma série de peças de aparato e recepção, com uma passagem obrigatória por XVI 1, peça dotada de dois dispositivos de caráter cultual, pelo que seria lícito crer que esta entrada tivesse conexão com tais áreas de culto, não esquecendo que está imediatamente a oeste do santuário XVIII. Dessa maneira teríamos duas entradas vinculadas a atividades cerimoniais, sendo provável que a entrada norte constituísse a entrada ‘oficial’ do edifício, desde que o indivíduo que penetrasse no palácio por este local teria de cruzar uma série de pórticos, pátios, corredores e vestíbulos para atingir as quadras de caráter cerimonial III-IV ou VI-VII. A entrada sul mais certamente estaria conectada às atividades desenvolvidas no piso superior acima da porção ocidental do edifício e mais provavelmente ainda às atividades desempenhadas no pátio central, no qual a presença do bothros assegura o caráter cultual.

            As entradas sudeste e nordeste se assemelham a entradas de serviço ou melhor ainda, a entradas secundárias, desde que ao contrário das anteriores permitem o acesso direto ao interior do palácio por meio de corredores retos que atingem o pórtico do pátio central e o pórtico do pátio norte respectivamente. A entrada sudeste talvez fosse especialmente ligada ao pátio central, mas sua posição entre XII e XIII não nega sua situação secundária no conjunto de acessos ao palácio (10). A entrada nordeste atesta sua simplicidade no seu piso de terra batida e na sua proximidade com duas áreas de atividade doméstica, em XXIV-XXVI e XXVII 4-6.

            A entrada oeste constitui um caso à parte, pois sua comunicação com a esplanada ocidental e o corredor C1 sugere sua utilização especificamente com fins cerimoniais, desde que esse corredor é o que efetua a conexão dos depósitos da quadra I com as quadras VI-VII, além do que a esplanada ocidental é associada à realização de atividades cerimoniais na forma de procissões, embora não tenhamos claras as evidências que suportem tal hipótese, a não ser uma bancada que percorre a fachada  externa oeste do palácio e que pode ser interpretada como de natureza cultual segundo Gesell (Gesell, 1985, p. 19). Em todo caso a entrada oeste pode ser vista como uma outra associada a atividades cerimoniais, em que talvez fosse utilizada antes como uma passagem de acesso os depósitos desse setor.

21

            

 Hélade 1 (2), 2000: 18-27

 

           Os pátios correspondem a locais nos quais ocorre a possibilidade de escolha de rotas variadas de acesso a quadras distintas do palácio, o que é especialmente notado no pátio central e no pátio norte. O pátio central aparece aos nossos olhos como um dos eixos principais de organização do edifício, havendo uma disposição das quadras em blocos funcionais em faces distintas daquele; temos as quadras VI-VII dominando a face oeste, bem como a quadra IX na face norte, os depósitos XI-XII a leste e as quadras XIV-XV ao sul, contabilizando catorze acessos distintos no perímetro do pátio, dos quais ao menos seis levam a áreas de caráter cerimonial, cultual ou de aparato (escadaria monumental, pórtico VIIa, grande escadaria, loggia, sala hipostila, salão de banquetes), três a áreas de circulação (entrada sul, entrada sudeste e corredor C’), duas a depósitos (XI-XII) e três a locais diversos (quadras XIII e X). O mesmo pode ser dito do pátio norte, que possui acesso a onze áreas distintas.

            O pátio noroeste oferece uma leitura diferente, pois a partir dele só existem quatro acessos, dos quais um leva à quadra V, outro à peça XXVIII 2 e os demais são os que permitem a ligação entre a entrada norte e as quadras III-IV. Sua posição imediata ao pátio norte nos sugere que consistisse antes de mais nada em uma área de transito relacionada a estas quadras do que a servir de ponto de irradiação de rotas do edifício como os outros dois pátios. Não negamos aqui a utilização dos pátios para outros fins, mas desejamos ressaltar que eles possibilitam um número de decisões de movimento que nenhum outro local do edifício oferece, exceção feita ao pátio noroeste pelo que observamos anteriormente.

            Passemos agora a um ponto mencionado rapidamente ao falarmos sobre a fachada sul do pátio central. Nesta face temos as quadras XIV-XV, as quais não foram incluídas em nenhuma das categorias funcionais apresentadas. Do que observamos nestas quadras concluímos que ao menos a porção norte, diante do pátio central, constituísse uma espécie de galeria aberta, possibilidade levantada por Pelon e com a qual mantemos afinidade, desde que as peças XIV 2 e XIV 10, longas e estreitas, possuem na sua parte norte condições para a instalação de aberturas defronte ao pátio (Pelon, 1980, p. 155-156 e 210), ainda que não se tenha clara a finalidade dos outros aposentos. Os problemas do estudo desses setores derivam do fato de que as escavações originais teriam eliminado o piso desses aposentos, descendo até níveis anteriores ao palácio (11).

            Feita essa observação, discorreremos sobre a questão das portas. A sua distribuição no palácio apresenta uma certa coerência com a finalidade das áreas nas quais se encontram, embora em alguns locais a sua ausência seja digna de nota. Há uma predominância de portas em dois locais: nas quadras III-IV e nas quadras VI-VII, onde temos respectivamente seis portas (ou mais, se contarmos aquelas do polythyron) e sete portas, dispostas em locais estratégicos que permitem o controle de circulação em determinados pontos de seu interior. Não é possível se ter uma visão dos aposentos até que se penetre neles, pois as entradas ficam geralmente num canto da sala ou dão num corredor em ângulo reto logo após a entrada.

            Um dos dispositivos mais engenhosos dos minóicos para controlar acesso e ao mesmo tempo controlar luminosidade e ventilação foi o polythyron. Esse dispositivo consistia em uma série de portas duplas separadas por colunas estreitas, ocupando toda a largura de uma sala ou corredor. Com todas as portas abertas ele formava uma passagem aberta, com uma porta aberta apenas, formaria um segundo aposento e com todas as portas fechadas formaria uma parede temporária. Este dispositivo se encontrava apenas nas áreas cerimoniais e residenciais a princípio, mas a idéia se difundiu e acabou usada também nas habitações menores.

22

            

 Hélade 1 (2), 2000: 18-27

 

             Nas quadras III-IV as portas estão localizadas para além dos vestíbulos IV 3-5, sendo que a primeira é a que restringe o acesso ao corredor IV 6, que por sua vez possui o dispositivo de portas e pilares na abertura para a peça III 7, sugerindo que a partir deste corredor se torna necessário o controle de entrada ou a restrição visual e pessoal àquela parte da quadra. Outra porta será notada no corredor IIIa, limitando o acesso à antecâmara da sala lustral, que por sua vez dispõe de uma porta no topo da sua escadaria. Dessa maneira essa última peça parece ser a de acesso mais restrito na quadra, pressupondo que as atividades desenvolvidas ali fossem particularmente privativas e sagradas. A outra porta na peça IVa constitui um bloqueio à entrada na peça IV 1, ao lado de III 7 , tendo fim similar às outras. A porta de IV 9 leva-nos a supor que a peça IV 10 realmente pudesse ser um depósito para bens de culto, dada a exigüidade de acesso.

            As quadras VI-VII possuem uma concentração de portas na parte posterior da loggia, nas peças VI 2 e VI 6, em número de três, criando uma barreira efetiva à penetração nas peças VI 7 e VI 9-12, que mantêm comunicação aberta entre si, sugerindo uma estreita conexão nos fins a que eram destinadas: como vimos, a peça VI 9 possivelmente abrigava atividades cultuais e a sua ligação com as peças anexas permite supor a sua utilização complementar àquela. A porta entre as peças VII 4-5 nos leva a considerar que esta última fosse um anexo destinado à guarda de materiais de culto, em um esquema similar ao observado no santuário XVIII entre as peças XVIII 1-2. A presença de portas duplas na base da grande escadaria é notável, já que sugere uma distinção dupla de acesso ao piso superior neste ponto pela associação de dois dispositivos reguladores de circulação em um único ponto, a porta (horizontal) e a escada (vertical); tal combinação remete a uma identificação desta escadaria como um acesso dotado de uma importância particular no conjunto de atividades cerimoniais deste setor do edifício, bem como dos aposentos situados no piso superior destas quadras.

            A existência de uma porta entre a peça VII 1 e o pórtico VIIa é curiosa na medida em que restringiria a comunicação entre a grande escadaria e o vestíbulo VII 3, a menos que a finalidade fosse exatamente a de isolar esta escadaria do conjunto formado por VII 3-4. Notar-se-á que esta passagem é a única interna que existe entre as duas quadras; a necessidade de bloqueio da passagem nos leva a supor uma distinção na natureza ou na destinação das atividades cerimoniais desenvolvidas em uma ou outra quadra, embora isto permaneça por enquanto como uma questão ser explorada.

            O santuário XVIII dispõe de ao menos quatro portas, desde que consideramos a abertura na parede sul de XVIII 1 como tal. Como duas efetuam o bloqueio de passagem para as peças XVIII 3-4, sugerimos que o material guardado nestes espaços fosse relativamente mais importante do que aquele em XVIII 2, de acesso livre; uma outra hipótese é a de que as peças XVIII 3-4 fossem guarnecidas de portas para evitar a visualização de seu conteúdo e não para impedir o acesso a seu interior. A outra porta citada é a de XVIII 7, cuja finalidade nos parece similar àquelas nas peças ao lado.

            Há outras quadras com portas regulando o acesso ao seu interior e entre as peças; temos aqui as quadras V, IX, X, XI, XVI, XXI, XXV, XXVII e XXVIII, além da quadra XIX, que se encontra incomunicável com as outras. Dessas, a quadra IX (sala hipostila) pode ser avaliada de maneira semelhante às quadras VI-VII, no que se inclui a presença de uma combinação de dois dispositivos reguladores de passagem na escadaria IXa-b, conferindo a nosso ver uma distinção maior ao salão de banquetes do piso superior da quadra, salientada pela existência de outro kernos no patamar dessa escadaria. A quadra XVI apresenta um dispositivo similar junto à porta para a escadaria monumental, aqui também reforçando a nossa hipótese de controle de circulação nas áreas cerimoniais.

23

            

 Hélade 1 (2), 2000: 18-27

 

              Já nas quadras V, X, XXV, XXVII e XXVIII acreditamos que a presença de portas seja devida à necessidade de bloqueio material e visual de espaços situados em locais de circulação nos quais existiria uma prioridade para as rotas de acesso aos setores cerimoniais: caso das quadras V, XXV, XXVII e XXVIII, que são marginais à rota entre a entrada norte e as quadras III-IV; para as quadras X e XI ocorreria algo semelhante, estando próximas ao acesso da quadra IX. Talvez na quadra XI a existência de uma porta seja mais relacionada à sua função, desde que constitui uma área de estocagem aparentemente desvinculada de qualquer traço cultual, sendo um depósito para guarda de bens, especialmente líquidos (12), caso contrário não haveria por que instalar vasos coletores e canaletas para o recolhimento de líquidos vazados; uma porta garante em certa medida uma segurança para o controle de acesso ao seu interior e seu conteúdo.

            Sobre as escadarias mencionamos acima alguns exemplos nos quais elas desempenham papel importante para ressaltar ou controlar o acesso a determinados espaços. Na loggia a sua função é a de estabelecer uma diferença hierárquica de planos, por meio da elevação desta peça cerca de um metro em relação ao pátio central. Da mesma forma a sua elevação oculta parcialmente as peças situadas na sua parte oeste, VI 2 e VI 6, que servem como locais de trânsito entre as outras peças dessa quadra, não interferindo visualmente com os acontecimentos desenvolvidos na loggia.

            Outras dessas escadarias situam-se dentro das quadras, efetuando a comunicação com o pavimento superior, apresentando concentrações em dois pontos do palácio, a noroeste (quadras II, III e IV) e ao norte nas quadras XXI e XXII). Na quadra III há duas escadarias, em IIIb-c e IV 7-8, ou seja, nos pontos extremos a leste e a oeste, sendo a primeira próxima à sala lustral e a segunda próxima à entrada do conjunto. A escadaria de IIIb-c  apresenta uma estrutura bem mais frágil do que a outra, pelo que supomos destinar-se ao acesso a um pavimento superior construído com materiais leves, sendo possivelmente um terraço, desde que está nas proximidades do poço de iluminação em III 7c e do pórtico norte da quadra. A escadaria de IV 7-8 poderia levar a uma estrutura similar, já que a área abrangida no piso superior não poderia ser muito ampla, dada a existência de vãos ao norte e a noroeste. Nada nos leva a crer na ausência de uma conexão com as peças sobre os depósitos I-VIII, apenas consideramos mais coerente com a estrutura desta parte do edifício que houvesse uma diferença de aparelhagem nas peças do setor sobre as quadras III-IV, provavelmente em madeira, enquanto que a área sobre as quadras I-VIII dispõe de suportes para a instalação mais sólida com a utilização de blocos de pedra.

            As escadarias das quadras XXI-XXII estão postas lado a lado, o que seria estranho por duplicar o acesso ao piso superior; entretanto a análise de Graham sugere que esta área seria capaz de fornecer suporte adequado para a instalação de um segundo piso superior, o qual seria acessível pela escadaria XXI 2 – XXII 2, de estrutura mais leve do que a de XXII 1-3, feita parcialmente em pedra e que levaria ao primeiro pavimento superior, ao nível do salão de banquetes (Graham, 1979, p. 69, fig. 8). Nesta perspectiva a escadaria XXII 1-3 efetuaria a conexão entre as áreas de preparação de alimentos em XXIV-XXV e o salão de banquetes sem que fosse necessário usar a escadaria IXa-b, que, como vimos, constitui um elemento de acesso controlado e privilegiado (13).

24

            

 Hélade 1 (2), 2000: 18-27

 

            Em XV 5-6 temos uma pequena escadaria de acesso ao piso superior, a qual certamente se ligaria à sala de culto já citada nesta quadra. Sua posição no interior da quadra sugere que tal área de culto constituísse um local particular, que poderíamos associar à quadra XIII, na qual se observa uma escadaria de pequeno porte para acesso a um pavimento leve, que poderia ter conexão com o pavimento superior das quadras XIV-XV. Se tal ocorresse, a consideração da quadra XIII como área de habitação poderia se estender às quadras XIV-XV pela presença dessa área de culto, de caráter particular. Mas não podemos deixar de fornecer outra explicação, na qual esta área de culto corresponde a um pequeno santuário para cerimônias privadas, em contraste com aquelas que se desenrolariam nas quadras III-IV e VI-VII.

            Passaremos agora à discussão do delineamento de alguns caracteres gerais que definem a circulação no palácio de Mália, procurando expor de maneira sintética alguns padrões.

            Os pontos de irradiação das rotas de circulação no edifício são os pátios, os quais fornecem a estrutura básica para a definição de uma malha de rotas, abrangendo desde a entrada no edifício até a movimentação entre as quadras. O pátio central parece ser o elemento fundamental de ordenação das quadras, criando um grande eixo norte-sul de conexão com as entradas ao norte e ao sul do palácio. Percebe-se no traçado do edifício que existem portas nos acessos a este pátio que permitem torná-lo fechado para o exterior, da mesma forma que os pátios norte e noroeste podem ser isolados do resto do edifício, pelo fechamento das entradas externas norte e nordeste e da extremidade do corredor C’ ao nível do piso térreo; provavelmente o mesmo poderia ser feito no piso superior.

            As entradas do palácio constituem passagens diretas dotadas de portas para controle de circulação.

            As entradas permitem acesso às áreas de circulação ampla, os pátios, exceção feita à entrada oeste pelos motivos já citados anteriormente. Existem ainda dois tipos de entrada: as principais, relacionadas a atividades ou áreas cerimoniais, e as secundárias, que servem de acesso para setores envolvidos no desempenho de outras atividades (estocagem, habitação).

            As portas constituem barreiras de acesso a locais nos quais são desenvolvidas atividades de caráter restrito ou onde são guardados bens de natureza cerimonial (cultual ou de aparato). Outras portas funcionam ainda como bloqueios materiais para controle de movimento em um local com múltiplas possibilidades de circulação.

            As escadarias se situam em pontos nos quais há a predominância de atividades cerimoniais e indicam uma diferença de acesso tão acentuada quanto as portas. A combinação de ambas ocorre em locais de importância cerimonial particularmente significativa.

            O plano das quadras impossibilita ao observador a visão de conjunto de peças contíguas, devido à colocação das passagens em ângulo reto e das aberturas nas peças nas extremidades das paredes; as exceções existentes ocorrem quando há deliberadamente a intenção de se permitir a visão ou acesso direto e formal.

            O acesso às áreas identificadas como oficinas e habitações constitui o de traçado mais simples nas quadras: passando por uma das entradas externas, o indivíduo deve cruzar no máximo duas passagens para atingir um desses espaços. As áreas de aparato e cerimonial se caracterizam por possuírem um conjunto de aposentos recorrentes na arquitetura minóica: consiste em uma sala grande que se liga a uma sala lustral e a um polythyron, tendo ao lado outras salas menores separadas por um corredor. É uma das poucas áreas do palácio que apresentam apenas um acesso exterior e progressivo. O acesso a essas áreas é o mais complexo, sendo necessário cruzar, além do citado acima, um dos elementos de circulação do edifício e pelo menos mais um dispositivo regulador de circulação; em alguns casos será preciso cruzar nove espaços diferentes para se atingir uma determinada peça, como por exemplo para se chegar até a sala lustral a partir da entrada norte do palácio. Esta noção de acesso progressivo permeia a construção, indicando que a maior penetração em um espaço configura o maior grau de privacidade obtido.

25

            

 Hélade 1 (2), 2000: 18-27

 

              A partir do que foi demonstrado podemos verificar que a análise dos padrões de circulação constitui uma abordagem relevante para o estudo do palácio enquanto entidade cultural, reiterando a perspectiva segundo a qual a organização espacial do palácio minóico vincula-se a considerações sociais, econômicas, religiosas e políticas. O palácio apresenta em sua materialidade os elementos necessários para a apreensão da esfera não-material dessa cultura.

 

BIBLIOGRAFIA  

ALLEGRETTE, Alvaro H. Organização espacial no palácio de Mália (1700-1450 a.C.).  Dissertação de Mestrado, São Paulo, FFLCH-USP, 1991, 225 p.

DAMIANI-INDELICATO, Silvia. Piazza publica e palazzo nella Creta minoica. Roma, 1982.

DAMIANI-INDELICATO, Silvia. Minoan town planning, a new approach. BICS 33(1986):138-139.

DRIESSEN, Jan M. The proliferation of minoan palatial architectural style: (I) Crete. Acta Archaeologica Lovaniensia 28/29:3-23, 1988-89.

DRIESSEN, Jan M. The minoan hall in domestic architecture on Crete: to be en vogue in LM Ia? Acta Archaeologica Lovaniensia 21:27-92, 1982.

FOSTER, Sally M. Analysis of spatial patterns in buildings (access analysis) as an insight into social structures: examples from the Scottish Atlantic Iron Age. Antiquity 63(238):40-50, 1989.

GESELL, Geraldine C. Town, palace and house cult in minoan Crete. Goteborg, Paul Astrom, 1985, 151 p. (Studies in Mediterranean Archaeology, 47)

GRAHAM, James W. - Further notes on minoan palace architecture. 1. West magazines and upper halls at Knossos and Mallia. 2. Access to, and use of, minoan palace roofs. American Journal of Archaeology 83(1):49-69, 1979.

PALYVOU, Claire. Circulatory patterns in minoan architecture. In HÄGG, Robin & MARINATOS, Nanno (Eds.). The Functions of the Minoan Palaces. Proceedings of the Fourth International Symposium at the Swedish Institute in Athens 1984. Stockholm, Paul Astrom, 1987,. p. 195-203.

PELON, Olivier. Le palais de Mallia V. Paris, Paul Geuthner, 1980, 2 v. (Études Crétoises, XXV)

PELON, Olivier. Un depôt de fondation au palais de Mallia. Bulletin de Correspondance Hellénique 110(1):3-19, 1986.

SHAW, Joseph W., ‘Minoan Architecture: materials and techniques’, ASAtene, 1972.

 

NOTAS

1. Referências que associam os três palácios maiores aos reis Minos, Radamanto e Sarpédon.  

[voltar ao texto]

 

2. Villa é um termo impreciso usualmente utilizado na arqueologia minóica para designar as grandes residências que serviam de elementos intermediários na administração local da economia palacial.  

 

[voltar ao texto]

3. No caso da obra de Graham, esta poderia ser considerada atualmente ilustrativa da arquitetura minóica, mais do que analítica.  

 

[voltar ao texto]

4. DRIESSEN, Jan, ‘The proliferation of minoan palatial architectural style: (I) Crete.’ Acta Archaeologica Lovaniensia 28/29:3-23, 1988-89.  

 

[voltar ao texto]

5. Deveríamos citar ainda o estudo sistemático do sítio de Myrtos-Fournou Korifi feito por Peter Warren, Myrtos: an Early Bronze Age settlement in Crete. London, 1972. Trata-se de um estudo pioneiro sobre a organização urbana de um núcleo minóico pré-palacial.  

 

[voltar ao texto]

6. Entre outros estudos podemos citar DAMIANI-INDELICATO, Silvia, Piazza publica e palazzo nella Creta minoica. Roma, 1982; ‘Minoan town planning, a new approach.’ BICS 33(1986):138-139. 

 

[voltar ao texto]

26

             

Hélade 1 (2), 2000: 18-27 

 

7. A designação das áreas assinaladas em Cnossos e Festos como ‘teatral’ é fruto remanescente de uma interpretação de Evans de um espaço pavimentado dotado de escadarias em uma de suas faces ao lado do palácio de Cnossos, que ele julgou assemelhar-se às arquibancadas de um anfiteatro.  

 

[voltar ao texto]

8. Creio que aqui poderia muito bem usar uma definição de Foster: “A building is made up of walls which define a series of enclosed spaces, the boundaries between which may be broken by doorways allowing access from one area to another”. FOSTER, Sally M., “Analysis of spatial patterns in buildings (access analysis) as an insight into social structure: examples from the Scottish Iron Age.” Antiquity 63(238):41, 1989.  

 

[voltar ao texto]

9. Tomando como referência o trabalho de Fairclough ‘(...) spatial organisation in society is a function of differentiation, that basic dichotomies can be identified between concepts of aggregation and containment and some ideological and transactional space (in some circumstances reversed), and that there is a correlation between  the nature and organisation of society and the degree of order imposed on building form and use of space (social relations become more formal as they become less frequent)’. Citado de FAIRCLOUGH, Graham, “Meaningful constructions - spatial and functional analysis of medieval buildings.” Antiquity 66(251), p. 349, 1992.  

 

[voltar ao texto]

10. O Prof. Pelon sugeriu a possibilidade de existência de uma outra entrada no ângulo sudeste, destruído, da quadra XIII, devido à disposição dos blocos de sideropetra (comunicação pessoal).  

 

[voltar ao texto]

11. Informações obtidas em discussão com o Prof. Pelon em 1995.  

 

[voltar ao texto]

12. Muito provavelmente azeite, do qual temos evidências de produção no palácio.  

 

[voltar ao texto]

13. Numa visão complementar, Pelon sugere que a existência de três escadarias em um mesmo ponto seria indicativo de acesso diferenciado sendo que IXb  corresponderia a uma escadaria de aparato ou oficial, e as outras a escadarias de serviço dos andares superiores (conforme comunicação pessoal).  

 

[voltar ao texto]

 

Copyright  © 2000 Todos os direitos reservados a Alvaro Hashizume Allegrette.

27