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ISSN 1518-2541 Hélade 1 (2), 2000: 02-17 Sumissão: Set/2000; Aceitação: Set/2000 Adriene
Baron Tacla Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ e Pesquisadora do LHIA – UFRJ.
O Funeral na Tribo de Hochdorf *
O AchadoEm 1975, foi descoberta por um
lavrador, na região do Baden-Württemberg (sudoeste da Alemanha), uma tumba de
tipo tumulus (1).
A princípio, pensaram os historiadores do escritório regional do patrimônio
histórico tratar-se de um enterramento do período romano, porém, com o
decorrer das escavações, verificaram os arqueólogos que, de fato, este tumulus
datava do final da primeira Idade do Ferro, ou seja, de fins do período
hallstattiano (fins do século VI a.C. e início do século V a.C.); o que
significava que encontravam-se diante de um enterramento celta. Mapa das fortalezas e tumuli celtas da Idade do Ferro. (Fonte: Witt, 1996)
Este tumulus, escavado por Jörg Biel, compreende uma câmara central de 22 m², que consiste no enterramento principal, isto é, aquele do chefe com seu rico mobiliário, e duas câmaras secundárias – com enterramentos posteriores – todas cobertas por um montículo que possuía 60 m de diâmetro e 6 m de altura, tendo 7000 m3 de terra e 280 toneladas de pedra. Preservara-se ele, até aquele momento, de saques e roubos, tendo permanecido desconhecido tanto para os pesquisadores, que vinham escavando tumbas no Baden-Würtenberg desde a segunda metade do século XIX, quanto para a população local, que considerava o tumulus como mais uma das colinas próximas à Floresta Negra. Não havia ali nenhum marco ou sinal que indicasse a existência de um enterramento nesse local, que por muito tempo permanecera coberto pela floresta, e cuja forma fora sendo modificada e reduzida pela erosão ao longo dos séculos; o que corroborou para que permanecesse ele desapercebido, sendo confundido com uma colina. Foto aérea do tumulus de Hochdorf (Fonte: www.keltenmuseum.de) 02 |
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Hélade 1 (2), 2000: 02-17 A câmara central, feita de encaixes de toras de carvalho e pedras, continha o esqueleto de um homem de aproximadamente 40 anos, deitado sobre um leito de bronze coberto com tecidos e flores, ornado com uma gargantilha (torc), um bracelete e duas fíbulas serpentiformes de ouro, um cinto de couro com fivela de ouro, um punhal de bronze recoberto com ouro, sapatos de couro com cobertura em ouro, um chapéu em forma cônica feito de casca de bétula. O mobiliário da tumba continha, ainda, um pente, uma navalha de ferro, um cutelo de ferro, uma bolsa pequena com três anzóis, uma aljava com pontas de flechas, um carro de quatro rodas de 4,5 metros de comprimento com enfeites em ferro, dois arreios e um serviço para banquete com nove pratos, oito chifres para bebida adornados com ferro, uma grande taça em forma chifre em ferro com detalhes em ouro, três tigelas de bronze e um grande caldeirão grego em bronze com capacidade para 500 litros. Desenho de reconstrução da câmara central da tumba de Hochdorf. (Fonte: Biel, 1985: 48)
Funeral, Poder e Sociedade
Historiadores, arqueólogos e antropólogos colocam-se diante da morte – seus
vestígios, significados e implicações – de diversas formas nas diferentes
sociedades e períodos da história. Quer
em sociedades antigas, quer nas modernas ou contemporâneas, deparam-se eles com
tipos e locais de sepultamento que variam não somente de uma sociedade para
outra, mas, também, em uma mesma sociedade conforme o momento histórico e o
contexto social então vivenciado.
As pesquisas etnográficas e os inúmeros achados arqueológicos têm alertado os arqueólogos e historiadores de que “... uma cultura ou sociedade não é caracterizada por um único tipo de enterramento, mas, ao contrário, uma sociedade empreenderá (...) diferentes formas de enterramentos, que (...) estarão, freqüentemente, correlacionadas ao status do morto” (Ucko,1969: 270). A morte, suas concepções e apropriações não são meramente determinadas pela cultura (2) de cada sociedade – sendo norteadas apenas por valores morais e/ou religiosos – e sim construídas pelas formas de sociabilidade, pelas relações e transformações sociais encontradas em cada comunidade; podendo os enterramentos variar segundo as práticas religiosas, mas, também, segundo as leis suntuárias, os diferentes grupos sociais e de parentesco e as diversas regiões habitadas. 03 |
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Ao contrário do que se poderia supor, os diferentes tipos de sepultamento e funerais não se resumem exclusivamente a diferentes formas de compreender e posicionar-se diante da morte; não contêm somente uma mensagem individual de seus construtores para sua época ou para as gerações futuras. Constituem eles, em verdade, rituais (3) que estabelecem um elo entre vida e morte, construindo a idéia de ancestralidade, a memória (4) de uma família ou de uma linhagem. Permitem criar o lugar social (5) do morto, inserindo-o no mundo dos vivos por meio da delimitação de um espaço específico (a sepultura), conferindo-lhe um status na sociedade (cf. Allara,1995) (6). No caso que nos propomos neste artigo analisar – a tumba do chefe de Hochdorf, na região do Baden-Württemberg – os achados arqueológicos descortinaram novos horizontes de pesquisa sobre as sociedades celtas antigas. Mais do que revelar um dos enterramentos ricos melhor preservados da Primeira Idade do Ferro na Europa central, apresentaram aos pesquisadores uma sociedade celta de grande complexidade, que desafiava todos os modelos até então estabelecidos. A princípio, quando ainda estavam em andamento as escavações da tumba, parecia que os achados apenas corroborariam para o que já se conhecia acerca das sociedades hallstattianas tardias na Europa central, evidenciando tão somente a acentuada hierarquização social, o início da institucionalização da chefia e a elaboração de todo um arcabouço de legitimação ideológica destas transformações sociais (cf. Frankesntein,1997; Frankesntein and Rowlands,1978; Wells, 1980, 1985; Brun, 1992; Champion and Champion, 1986; Cunliffe,1988). Contudo, com a conclusão dos trabalhos de escavação, o aprofundamento da análise dos artefatos encontrados (7) e a descoberta dos vestígios de uma aldeia próxima à tumba (8), verificamos a necessidade de se reverem os modelos explicativos, confrontando-os com as novas evidências, as quais revelaram significativas singularidades na organização e dinâmica sociais desta tribo. Uma única tumba escavada - uma tumba de tipo principesco (9) - afigurou-se como um dos mais importantes achados para o estudo das sociedades celtas do período hallstattiano final, de sorte a nos permitir estudar inúmeros aspectos da vida cotidiana e do âmbito sócio-político da tribo (10) a que estava relacionada, tal como apontaram Bartel (1982), Morris (1992, 1995), Tainter (1978) e Ucko (1969). A documentação arqueológica encontrada na tumba do chefe de Hochdorf consiste em um suporte fundamental para o estudo das relações sociais e políticas nessa tribo celta, assim como de seus contatos com as sociedades mediterrâneas (11). Esta tumba veicula, por conseguinte, informações sobre a identidade social, a bem dizer, o status social do morto, assim como da sociedade em que ele viveu, sendo-nos possível não só estudar os costumes desta tribo, mas inserir o morto na dinâmica social da tribo, analisando práticas e aspectos da economia política da mesma. 04 |
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Os bens nela depositados possuem um significado pessoal para o morto (objetos de uso pessoal, objetos que ele gostasse ou que fossem símbolos (12) de sua posição na sociedade), mas que podem também indicar sanções morais ou religiosas. Portanto, a opulência dos enterramentos não pode ser interpretada como uma evidência cabal de status ou riqueza do morto, nem tampouco como “... base inquestionável para a reconstrução das estruturas sociais” (Witt, 1996). Torna-se imprescindível, portanto, atentar para as singularidades de cada caso estudado, da sociedade a que está relacionado o enterramento, analisando-o segundo seu contexto arqueológico e social e não de acordo com estáticos padrões de classificação arqueológica e antropológica (que, muitas vezes, demonstraram ser falhos); rompendo, destarte, com as generalizações ou simplificações quando do estudo de artefatos mortuários. Mesmo quando há sanções morais, proibições legais ou, inclusive, uma prática de negação da desigualdade nos funerais (ver, por exemplo, o caso do baixo Ródano em Dietler, 1995) não é impossível depreender a hierarquização e a dinâmica sociais, bastando, para tanto, uma análise comparativa dos enterramentos e suas associações, cotejando os dados da documentação mortuária com aqueles de contextos arqueológicos correlatos e, quando possível, de documentos textuais e/ou epigráficos.
As abordagens dos rituais funerários (e aquelas acerca da tumba de Hochdorf não são exceção) seguem, via de regra, ou uma perspectiva de análise da religião e do ritual propriamente dito ou dos fenômenos sociais. A primeira interpreta o enterramento como um ritual religioso, onde o grupo, a família ou a linhagem procuraria prover as necessidades do morto no Outro Mundo (13), de modo que, no caso de Hochdorf, o serviço de banquete presente na tumba constituiria uma evidência da existência, na primeira Idade do Ferro, da crença céltica do “banquete do Outro Mundo”, freqüentemente encontrada nos mitos irlandeses, ou, ainda, como traços de um banquete funerário, como aponta Miranda Green (1997: 68-69). A segunda interpreta, porém, os mesmos artefatos como indicativo das relações sociais e da economia política da tribo. Centrando-se no conceito de prestígio como base da economia política das tribos hallstattianas, propõe ela que o enterramento e o mobiliário nele contido representariam um meio de destruição da riqueza (cf. Bradley, 1982; Cunliffe, 1997), uma vez que por meio da deposição de oferendas funerárias, a família e/ou linhagem do morto estariam retirando de circulação, das trocas sociais determinados bens de prestígio, como uma forma de construir e manter o status e o prestígio sociais. 05 |
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Parte ela, com efeito, do princípio de que os significados e usos dos objetos/símbolos empregados nos funerais seriam determinados pelo próprio ritual, conforme a lógica intrínseca do ritual; o que constrói uma concepção determinista e naturalizante do ritual. Enfim, não permite nem analisar a pluralidade de construção de significados e os usos sociais e políticos dos símbolos empregados no funeral, nem pensar as relações sociais, o status e a hierarquização sociais nele evidenciados. Optar por esta sorte de abordagem é, a nosso ver, enveredar por uma análise simplista acerca das práticas funerárias, ignorando, inclusive, que um objeto não possui apenas um significado ou uso em um mesmo ritual. Tais usos e significados não são determinados pelo ritual. Pelo contrário, são construídos no ritual por quem o pratica, isto é, a família ou linhagem do morto, a comunidade, os hóspedes estrangeiros e os aliados. Isso quer dizer que, no nosso entender, mesmo uma análise do ritual funerário a partir de uma perspectiva religiosa não pode deixar de considerar as questões sociais – caso contrário, acabar-se-ia por incorrer em uma análise simplista e reducionista. 06 |
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Os artefatos dispostos em um enterramento atendem não apenas a ritos funerários correntes, mas, também, ao significado desses objetos na vida cotidiana e nas práticas rituais dessa sociedade. Constituem os enterramentos vestígios intencionais, depósitos conscientes de objetos como oferendas aos mortos e não podem ser analisados dissociados do âmbito sócio-político, haja vista que o próprio processo de deposição desses bens consiste em um fenômeno social diretamente ligado à economia política das tribos (Bradley, 1982: 109). Logo, para compreendermos esse processo de deposição de objetos, tal como os usos e significados dos bens, tanto no enterramento quanto na dinâmica social da tribo, é preciso considerar a vida social desses objetos (15), sua trajetória – desde a produção, a circulação como mercadoria (troca/distribuição) até seu consumo, seus usos nos rituais e/ou na vida cotidiana, sua perda, deposição ou descarte (Appadurai,1986). Podemos,
então, concluir que aqueles bens encontrados na tumba do chefe de Hochdorf
foram selecionados a fim de
identificar o morto ante a sociedade, marcando seu status, posição e prestígio sociais. De modo geral, as jóias e
os objetos pessoais marcam para a comunidade a identidade do morto, enquanto os
chapéus, punhais, carros de quatro rodas e “serviços de banquete”
constituem símbolos de status.
Cada um desses objetos possui uma carga simbólica distinta na dinâmica
social do prestígio, sendo acumulados e na tumba depositados como uma estratégia
para construir prestígio e ratificar a desigualdade social.
A posse desses bens inalienáveis afirmava tanto o status e o
prestígio pessoal do morto, quanto a identidade e a posição sociais de sua
linhagem e do grupo ao qual ele pertencia (Weiner, 1992: 133). A construção da tumba como um monumento, com oferendas sob a forma de bens de prestígio de grande densidade simbólica (16) reafirmava, ao mesmo tempo que construía, as relações de dominação, desigualdade e poder na tribo de Hochdorf. Mais do que marcar a identidade do morto e falar de seu poder (17) e riqueza para todos que aos funerais comparecessem, declarava-se a força dos que ali permaneciam – dos que dele descendiam, daqueles que pertenciam à sua linhagem e daqueles que eram seus aliados. 07 |
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Reafirmava-se e reproduzia-se, assim, a desigualdade para que fosse reconhecida a posição e o prestígio não do morto, mas dos vivos, de tal forma que o funeral constituísse um instrumento de dominação ou, como considera Cohen (1974 apud Dietler, 1995, p.69) um “teatro político- simbólico”, uma via de construção intencional de parte da atividade ritual pública, consistindo em uma declaração simbólica do status de grupos ou indivíduos na sociedade; donde o funeral e os objetos na tumba depositados eram usados em Hochdorf em um caráter eminentemente político – um uso que é retórico e social (Appadurai,1986: 38), que ostenta e consolida uma determinada posição social para quem o pratica. Se nos voltarmos para o serviço de banquete (18) encontrado na tumba de Hochdorf, veremos que os nove pratos e taças sugerem a presença de outras pessoas ao lado do chefe durante os banquetes e em seu próprio enterramento. Toda a comunidade, bem como os estrangeiros, tomavam parte nos banquetes (que eram rituais públicos), compartilhando da comida e da bebida através do que Dietler (1994) designa como “política da comensalidade”, que sob a forma de hospitalidade e a distribuição de bebida e comida reforçaria as relações sociais e políticas, possibilitando ao chefe o estabelecimento de alianças, angariando-lhe novos seguidores dentro e fora da tribo (19). Os banquetes afigurar-se-iam, nesse sentido, como eventos diacríticos essenciais para a construção do prestígio e do poder desse chefe ante a tribo. Desta forma, a seleção de apenas oito taças e pratos para serem colocados na tumba, juntamente com aqueles do chefe, permite-nos inferir que eles representariam o grupo que lastreava o poder do chefe; donde temos que a sua presença na tumba do chefe reafirmava ante a sociedade o status e o poder do chefe/morto, assim como o prestígio e o status do grupo próximo a ele. A deposição de bens de grande densidade simbólica lhes conferia prestígio, poder e autoridade, lhes possibilitando obter ascendência sobre os demais integrantes desta sociedade e, ao mesmo tempo, impressionar e intimidar os membros de outras unidades políticas (Renfrew e Bahn, 1994: 358).
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