ISSN 1518-2541

Hélade 1 (2), 2000: 02-17

Sumissão: Set/2000; Aceitação: Set/2000

Adriene Baron Tacla

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ e Pesquisadora do LHIA – UFRJ.

adriene@openlink.com.br

O Funeral na Tribo de Hochdorf  *

 

 

    O Achado

Em 1975, foi descoberta por um lavrador, na região do Baden-Württemberg (sudoeste da Alemanha), uma tumba de tipo tumulus (1). A princípio, pensaram os historiadores do escritório regional do patrimônio histórico tratar-se de um enterramento do período romano, porém, com o decorrer das escavações, verificaram os arqueólogos que, de fato, este tumulus datava do final da primeira Idade do Ferro, ou seja, de fins do período hallstattiano (fins do século VI a.C. e início do século V a.C.); o que significava que encontravam-se diante de um enterramento celta.  

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Mapa das fortalezas e tumuli celtas da Idade do Ferro.   (Fonte: Witt, 1996)

Este tumulus, escavado por Jörg Biel, compreende uma câmara central de 22 m², que consiste no enterramento principal, isto é, aquele do chefe com seu rico mobiliário, e duas câmaras secundárias – com enterramentos posteriores – todas cobertas por um montículo que possuía 60 m de diâmetro e 6 m de altura, tendo 7000 m3 de terra e 280 toneladas de pedra. Preservara-se ele, até aquele momento, de saques e roubos, tendo permanecido desconhecido tanto para os pesquisadores, que vinham escavando tumbas no Baden-Würtenberg desde a segunda metade do século XIX, quanto para a população local, que considerava o tumulus como mais uma das colinas próximas à Floresta Negra. Não havia ali nenhum marco ou sinal que indicasse a existência de um enterramento nesse local, que por muito tempo permanecera coberto pela floresta, e cuja forma fora sendo modificada e reduzida pela erosão ao longo dos séculos; o que corroborou para que permanecesse ele desapercebido, sendo confundido com uma colina.

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Foto aérea do tumulus de Hochdorf  (Fonte: www.keltenmuseum.de)

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A câmara central, feita de encaixes de toras de carvalho e pedras, continha o esqueleto de um homem de aproximadamente 40 anos, deitado sobre um leito de bronze coberto com tecidos e flores, ornado com uma gargantilha (torc), um bracelete e duas fíbulas serpentiformes de ouro, um cinto de couro com fivela de ouro, um punhal de bronze recoberto com ouro, sapatos de couro com cobertura em ouro, um chapéu em forma cônica feito de casca de bétula.

O mobiliário da tumba continha, ainda, um pente, uma navalha de ferro, um cutelo de ferro, uma bolsa pequena com três anzóis, uma aljava com pontas de flechas, um carro de quatro rodas de 4,5 metros de comprimento com enfeites em ferro, dois arreios e um serviço para banquete com nove pratos, oito chifres para bebida adornados com ferro, uma grande taça em forma chifre em ferro com detalhes em ouro, três tigelas de bronze e um grande caldeirão grego em bronze com capacidade para 500 litros.

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Desenho de reconstrução da câmara central da tumba de Hochdorf. 

(Fonte: Biel, 1985: 48)

Funeral, Poder e Sociedade

            Historiadores, arqueólogos e antropólogos colocam-se diante da morte – seus vestígios, significados e implicações – de diversas formas nas diferentes sociedades e períodos da história.  Quer em sociedades antigas, quer nas modernas ou contemporâneas, deparam-se eles com tipos e locais de sepultamento que variam não somente de uma sociedade para outra, mas, também, em uma mesma sociedade conforme o momento histórico e o contexto social então vivenciado.   

As pesquisas etnográficas e os inúmeros achados arqueológicos têm alertado os arqueólogos e historiadores de que “... uma cultura ou sociedade não é caracterizada por um único tipo de enterramento, mas, ao contrário, uma sociedade empreenderá (...) diferentes formas de enterramentos, que (...) estarão, freqüentemente, correlacionadas ao status do morto” (Ucko,1969: 270). A morte, suas concepções e apropriações não são meramente determinadas pela cultura (2) de cada sociedade – sendo norteadas apenas por valores morais e/ou religiosos – e sim construídas pelas formas de sociabilidade, pelas relações e transformações sociais encontradas em cada comunidade; podendo os enterramentos variar segundo as práticas religiosas, mas, também, segundo as leis suntuárias, os diferentes grupos sociais e de parentesco e as diversas regiões habitadas.

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Ao contrário do que se poderia supor, os diferentes tipos de sepultamento e funerais não se resumem exclusivamente a diferentes formas de compreender e posicionar-se diante da morte; não contêm somente uma mensagem individual de seus construtores para sua época ou para as gerações futuras. Constituem eles, em verdade, rituais (3) que estabelecem um elo entre vida e morte, construindo a idéia de ancestralidade, a memória (4) de uma família ou de uma linhagem. Permitem criar o lugar social  (5)  do morto, inserindo-o no mundo dos vivos por meio da delimitação de um espaço específico (a sepultura), conferindo-lhe um status na sociedade (cf. Allara,1995)  (6). 

No caso que nos propomos neste artigo analisar – a tumba do chefe de Hochdorf, na região do Baden-Württemberg – os achados arqueológicos descortinaram novos horizontes de pesquisa sobre as sociedades celtas antigas.   Mais do que revelar um dos enterramentos ricos melhor preservados da Primeira Idade do Ferro na Europa central, apresentaram aos pesquisadores uma sociedade celta de grande complexidade, que desafiava todos os modelos até então estabelecidos.

            A princípio, quando ainda estavam em andamento as escavações da tumba, parecia que os achados apenas corroborariam para o que já se conhecia acerca das sociedades hallstattianas tardias na Europa central, evidenciando tão somente a acentuada hierarquização social, o início da institucionalização da chefia e a elaboração de todo um arcabouço de legitimação ideológica destas transformações sociais (cf. Frankesntein,1997; Frankesntein and Rowlands,1978; Wells, 1980, 1985; Brun, 1992; Champion and Champion, 1986; Cunliffe,1988).   Contudo, com a conclusão dos trabalhos de escavação, o aprofundamento da análise dos artefatos encontrados  (7) e a descoberta dos vestígios de uma aldeia próxima à tumba (8), verificamos a necessidade de se reverem os modelos explicativos, confrontando-os com as novas evidências, as quais revelaram significativas singularidades na organização e dinâmica sociais desta tribo.

Uma única tumba escavada - uma tumba de tipo principesco (9) - afigurou-se como um dos mais importantes achados para o estudo das sociedades celtas do período hallstattiano final, de sorte a nos permitir estudar inúmeros aspectos da vida cotidiana e do âmbito sócio-político da tribo (10) a que estava relacionada, tal como apontaram Bartel (1982), Morris (1992, 1995), Tainter (1978) e Ucko (1969). A documentação arqueológica encontrada na tumba do chefe de Hochdorf consiste em um suporte fundamental para o estudo das relações sociais e políticas nessa tribo celta, assim como de seus contatos com as sociedades mediterrâneas (11). Esta tumba veicula, por conseguinte, informações sobre a identidade social, a bem dizer, o status social do morto, assim como da sociedade em que ele viveu, sendo-nos possível não só estudar os costumes desta tribo, mas inserir o morto na dinâmica social da tribo, analisando práticas e aspectos da economia política da mesma. 

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Os bens nela depositados possuem um significado pessoal para o morto (objetos de uso pessoal, objetos que ele gostasse ou que fossem símbolos  (12) de sua posição na sociedade), mas que podem também indicar sanções morais ou religiosas.  Portanto, a opulência dos enterramentos não pode ser interpretada como uma evidência cabal de status ou riqueza do morto, nem tampouco como “... base inquestionável para a reconstrução das estruturas sociais” (Witt, 1996).

Torna-se imprescindível, portanto, atentar para as singularidades de cada caso estudado, da sociedade a que está relacionado o enterramento, analisando-o segundo seu contexto arqueológico e social e não de acordo com estáticos padrões de classificação arqueológica e antropológica (que, muitas vezes, demonstraram ser falhos); rompendo, destarte, com as generalizações ou simplificações quando do estudo de artefatos mortuários.  Mesmo quando há sanções morais, proibições legais ou, inclusive, uma prática de negação da desigualdade nos funerais (ver, por exemplo, o caso do baixo Ródano em Dietler, 1995) não é impossível depreender a hierarquização e a dinâmica sociais, bastando, para tanto, uma análise comparativa dos enterramentos e suas associações, cotejando os dados da documentação mortuária com aqueles de contextos arqueológicos correlatos e, quando possível, de documentos textuais e/ou epigráficos. 

 

As abordagens dos rituais funerários (e aquelas acerca da tumba de Hochdorf não são exceção) seguem, via de regra, ou uma perspectiva de análise da religião e do ritual propriamente dito ou dos fenômenos sociais. A primeira interpreta o enterramento como um ritual religioso, onde o grupo, a família ou a linhagem procuraria prover as necessidades do morto no Outro Mundo (13), de modo que, no caso de Hochdorf, o serviço de banquete presente na tumba constituiria uma evidência da existência, na primeira Idade do Ferro, da crença céltica do “banquete do Outro Mundo”, freqüentemente encontrada nos mitos irlandeses, ou, ainda, como traços de um banquete funerário, como aponta Miranda Green (1997: 68-69). A segunda interpreta, porém, os mesmos artefatos como indicativo das relações sociais e da economia política da tribo. Centrando-se no conceito de prestígio como base da economia política das tribos hallstattianas, propõe ela que o enterramento e o mobiliário nele contido representariam um meio de destruição da riqueza (cf. Bradley, 1982; Cunliffe, 1997), uma vez que por meio da deposição de oferendas funerárias, a família e/ou linhagem do morto estariam retirando de circulação, das trocas sociais determinados bens de prestígio, como uma forma de construir e manter o status e o prestígio sociais.

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            Esta última via de abordagem encontra maior ressonância nas pesquisas sobre as sociedades hallstattianas tardias, visto que comporta tanto o estudo dos contatos com o mundo mediterrâneo, quanto das relações estabelecidas no interior da própria tribo; ao passo que a primeira, a despeito de ser, em uma certa medida, “muito popular” (Whitehouse,1996: 25), é pouco adotada para o caso da zona ocidental de Hallstatt (14), especialmente porque concebe a ação ritual como distante do social, isto é, segundo uma concepção de “costumes culturais” isolados dos aspectos sociais. Pressupõe ela a existência de uma partilha entre cultura, política e estrutura social (ignorando qualquer possibilidade de inter-relação entre tais fatores), compreendendo o funeral como um ritual orientado por uma lógica própria e distinta, onde os objetos (os bens enterrados com o morto) adquiririam um sentido ritual em oposição ao seu sentido prático, utilitário do cotidiano. 

 Parte ela, com efeito, do princípio de que os significados e usos dos objetos/símbolos empregados nos funerais seriam determinados pelo próprio ritual, conforme a lógica intrínseca do ritual; o que constrói uma concepção determinista e naturalizante do ritual.  Enfim, não permite nem analisar a pluralidade de construção de significados e os usos sociais e políticos dos símbolos empregados no funeral, nem pensar as relações sociais, o status e a hierarquização sociais nele evidenciados.  Optar por esta sorte de abordagem é, a nosso ver, enveredar por uma análise simplista acerca das práticas funerárias, ignorando, inclusive, que um objeto não possui apenas um significado ou uso em um mesmo ritual.

Tais usos e significados não são determinados pelo ritual. Pelo contrário, são construídos no ritual por quem o pratica, isto é, a família ou linhagem do morto, a comunidade, os hóspedes estrangeiros e os aliados.  Isso quer dizer que, no nosso entender, mesmo uma análise do ritual funerário a partir de uma perspectiva religiosa não pode deixar de considerar as questões sociais – caso contrário, acabar-se-ia por incorrer em uma análise simplista e reducionista.

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              Os artefatos dispostos em um enterramento atendem não apenas a ritos funerários correntes, mas, também, ao significado desses objetos na vida cotidiana e nas práticas rituais dessa sociedade. Constituem os enterramentos vestígios intencionais, depósitos conscientes de objetos como oferendas aos mortos e não podem ser analisados dissociados do âmbito sócio-político, haja vista que o próprio processo de deposição desses bens consiste em um fenômeno social diretamente ligado à economia política das tribos (Bradley, 1982: 109).  Logo, para compreendermos esse processo de deposição de objetos, tal como os usos e significados dos bens, tanto no enterramento quanto na dinâmica social da tribo, é preciso considerar a vida social desses objetos (15), sua trajetória – desde a produção, a circulação como mercadoria (troca/distribuição) até seu consumo, seus usos nos rituais e/ou na vida cotidiana, sua perda, deposição ou descarte (Appadurai,1986).

 Podemos, então, concluir que aqueles bens encontrados na tumba do chefe de Hochdorf foram selecionados a fim de identificar o morto ante a sociedade, marcando seu status, posição e prestígio sociais. De modo geral, as jóias e os objetos pessoais marcam para a comunidade a identidade do morto, enquanto os chapéus, punhais, carros de quatro rodas e “serviços de banquete” constituem símbolos de status.  Cada um desses objetos possui uma carga simbólica distinta na dinâmica social do prestígio, sendo acumulados e na tumba depositados como uma estratégia para construir prestígio e ratificar a desigualdade social.  A posse desses bens inalienáveis afirmava tanto o status e o prestígio pessoal do morto, quanto a identidade e a posição sociais de sua linhagem e do grupo ao qual ele pertencia (Weiner, 1992: 133).  

A construção da tumba como um monumento, com oferendas sob a forma de bens de prestígio de grande densidade simbólica  (16) reafirmava, ao mesmo tempo que construía, as relações de dominação, desigualdade e poder na tribo de Hochdorf.  Mais do que marcar a identidade do morto e falar de seu poder (17) e riqueza para todos que aos funerais comparecessem, declarava-se a força dos que ali permaneciam – dos que dele descendiam, daqueles que pertenciam à sua linhagem e daqueles que eram seus aliados.

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Reafirmava-se e reproduzia-se, assim, a desigualdade para que fosse reconhecida a posição e o prestígio não do morto, mas dos vivos, de tal forma que o funeral constituísse um instrumento de dominação ou, como considera Cohen (1974 apud Dietler, 1995, p.69) um “teatro político- simbólico”, uma via de construção intencional de parte da atividade ritual pública, consistindo em uma declaração simbólica do status de grupos ou indivíduos na sociedade; donde o funeral e os objetos na tumba depositados eram usados em Hochdorf em um caráter eminentemente político – um uso que é retórico e social (Appadurai,1986: 38), que ostenta e consolida uma determinada posição social para quem o pratica.

            Se nos voltarmos para o serviço de banquete (18) encontrado na tumba de Hochdorf, veremos que os nove pratos e taças sugerem a presença de outras pessoas ao lado do chefe durante os banquetes e em seu próprio enterramento. Toda a comunidade, bem como os estrangeiros, tomavam parte nos banquetes (que eram rituais públicos), compartilhando da comida e da bebida através do que Dietler (1994) designa como “política da comensalidade”, que sob a forma de hospitalidade e a distribuição de bebida e comida reforçaria as relações sociais e políticas, possibilitando ao chefe o estabelecimento de alianças, angariando-lhe novos seguidores dentro e fora da tribo (19).  Os banquetes afigurar-se-iam, nesse sentido, como eventos diacríticos essenciais para a construção do prestígio e do poder desse chefe ante a tribo.

Desta forma, a seleção de apenas oito taças e pratos para serem colocados na tumba, juntamente com aqueles do chefe, permite-nos inferir que eles representariam o grupo que lastreava o poder do chefe; donde temos que a sua presença na tumba do chefe reafirmava ante a sociedade o status e o poder do chefe/morto, assim como o prestígio e o status do grupo próximo a ele. A deposição de bens de grande densidade simbólica lhes conferia prestígio, poder e autoridade, lhes possibilitando obter ascendência sobre os demais integrantes desta sociedade e, ao mesmo tempo, impressionar e intimidar os membros de outras unidades políticas (Renfrew e Bahn, 1994: 358). 

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 Montagens feitas com o mobiliário da tumba de Hochdorf.  (Fonte: Witt, 1996)

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              Logo, esses seguidores, familiares ou aliados marcariam sua ligação com o chefe morto por meio da deposição, na tumba, de objetos que simbolizassem esses laços: vasos para banquete e presentes diplomáticos, isto é, de amizade-hospitalidade.  Seriam eles, então, depositados em virtude do valor neles imbuído, de sua densidade simbólica e, sobretudo, das relações que representassem. Temos, por conseguinte, que a deposição de objetos de maior densidade simbólica na tumba do chefe de Hochdorf constitui, em verdade, uma via de expressão e legitimação da diferença hierárquica, evidenciando, destarte, a organização social, as estruturas de poder e dominação, bem como as estratégias de um grupo para manter a liderança da tribo quando da morte de um chefe.

 

Conclusão  

Tais inferências traçadas a partir da tumba de Hochdorf podem, portanto, ser compreendidas como uma reafirmação das teses tradicionais acerca das sociedades celtas do final do período de Hallstatt (550-450 a.C.) tal como propõe Biel (1997), porquanto indicariam um processo de aumento de complexidade dessas sociedades, de hierarquização social, de institucionalização da chefia. Os achados dessa tumba, a seu ver, da mesma forma as demais “tumbas principescas” do período hallstattiano tardio, evidenciariam um processo de fortalecimento dos assentamentos fortificados (Fürstensitzen), os quais controlariam fazendas e aldeias dispersas pelo território, submetendo, inclusive, outras tribos mais fracas. Segundo as teses tradicionais  (20), cunhadas, sobretudo, com base no caso de Heuneburg, o enterramento de Hochdorf estaria relacionado à fortaleza de Hohenasperg, sendo prova do poder e do prestígio desse assentamento e daqueles que o habitavam.

Temos, porém, que as evidências de Hochdorf apontam para a necessidade de enveredarmos pela micro-análise a fim de explicarmos a dinâmica social em cada um dos assentamentos da Primeira Idade do Ferro na Europa central, rompendo com os modelos generalizantes. A partir das evidências da aldeia de Hochdorf, vemos que não se tratava de uma aldeia que fosse controlada ou estivesse submetida a uma fortaleza, onde residissem o chefe e os integrantes da aristocracia. Em verdade, não há nela qualquer indício de uma relação com tal fortaleza, nem tampouco haveria uma tal relação entre a tumba e esse assentamento. Ao contrário, essa aldeia seria o próprio “centro” da tribo e estaria associada diretamente à tumba e ao cemitério (que ainda não foi escavado) que se encontram próximos a ela.

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A descoberta desse assentamento demonstra, com efeito, que não haveria um Fürstensitz no caso da tribo de Hochdorf e que nesta tribo haveria uma outra forma de organização social.  Mesmo que a escavação do cemitério próximo à aldeia revele o tipo de enterramentos tradicionalmente considerado como “enterramentos aristocráticos” (Adelsgräber) (21) – denotando uma distinção estatutária com relação à tumba do chefe – o caso de Hochdorf não se adequaria aos modelos explicativos tradicionais.  Encontrava-se essa aldeia organizada em pequenas fazendas, cada uma com uma casa, silos, celeiro e cabanas de artesanato  (22), as quais podem ser interpretadas como oficinas de artesãos; o que sugere não haver nessa aldeia uma divisão social do trabalho, quer dizer, que a atividade agrícola, pastoril e artesanal fossem complementares. Donde, não haveria um grupo privilegiado de artesãos que se distinguiriam dos agricultores e se encontrariam mais próximos do chefe e dos integrantes da aristocracia.  Mas, ao invés, se havia uma elite, podemos supor que seria ela composta de agricultores-artesãos que se distinguiriam dos demais em status e prestígio não em virtude de sua atividade econômica e sim dos laço pessoais com o chefe, que eram reafirmados e ostentados em rituais públicos, tais como os banquetes e o funeral do chefe.

 

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__________.    Mediterranean Trade and Culture Change in Early Iron Age Central Europe.    In:  CHAMPION, T.C.  and  MEGAW, J.V.S.(eds.)    Settlement and Society:  Aspects of West European Prehistory in the First Millenium B.C. Cambridge: Leicester University Press, 1985, pp.69-89.

WHITEHOUSE, R. D.     Ritual Objects – Archaeological joke or neglected evidence?    In: WILKINS, J.B. (ed.)  Approaches to the Study of Ritual.  Accordia Research Institute, University of London, 1996, pp.9-30.

WITT, C.  Barbarians on the Greek Periphery? Origins of Celtic Art.  University of Virginia,1996, PhD Dissertation (in HTML).  www.iath.virginia.edu/~umw8f/Barbarians/first.html  

 

NOTAS

* Este artigo é uma versão modificada do trabalho que foi apresentado como avaliação final do curso “Ritos e Festas no Mundo Romano” ministrado pela Profª. Dra. Regina Maria da Cunha Bustamante, no Programa de Pós-Graduação em História Social do IFCS-UFRJ.  

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1. Designamos por tumulus as tumbas em montículo, isto é, as tumbas cujas câmaras são recobertas por montes de terra, parecendo-se com colinas.  

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2. Não estamos, aqui, a considerar a cultura como uma esfera autônoma e que não tenha qualquer conexão com as relações sociais e políticas, as instituições ou os interesses econômicos.  Ao contrário, objetivamos analisar os rituais e práticas funerários a partir de sua relação com interesses políticos e as dinâmica social na tribo de Hochdorf. Adam Kuper (1999) enfatiza que a cultura não é meramente um sistema simbólico, porquanto crenças religiosas, saber, rituais, ideologias, valores morais e estética constituem apenas alguns aspectos do que abarca o conceito de cultura; donde, a seu ver, para que se possa entender uma cultura, é preciso que se analise cada um desses aspectos individualmente, isto é, como vários processos distintos que estão relacionados a diversos outros processos e fenômenos sociais. 

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3. Segundo Gellner (1997), o ritual consiste em uma via de construção de identidade e de ratificação de status de um indivíduo ou grupo social, que, a nosso ver, no caso estudado, evidencia formas de dominação e de construção do poder.  

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4. Segundo Certeau (1994: 335, n.7), “memória, no sentido antigo do termo, (...) designa uma presença à pluralidade dos tempos e não se limita, por conseguinte, ao passado”.  

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5. Utilizamos, aqui, o conceito de “lugar social” como elaborado por Certeau (1987, 1994), entendendo-o como uma configuração de posições na sociedade.   

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6. “A sepultura contribui para dar ao morto um estatuto que fixa, no seio da cidade, os limites do grupo dos vivos, ao mesmo tempo em que reconhece o espaço dos mortos” (Allara,1995: 75).  

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7. Referimo-nos, aqui, às análises osteológicas, de grãos de pólen, de fibras e amostras de tecidos, de tecnologia de metalurgia e etc.  

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8. Esta aldeia, que passaremos a designar, ao longo deste trabalho, como aldeia de Hochdorf, foi descoberta em 1989 a 400 m da tumba do chefe e as escavações encontram-se em fase final; donde temos apenas um relatório parcial do que nela foi encontrado até o momento de publicação do mesmo (ver Biel,1997).

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9. A terminologia “tumba principesca” (fürstengräber) foi cunhada por Eduard Paulus em 1877 e, apesar do anacronismo que possa sugerir, ainda é utilizada pelos arqueólogos e historiadores ao se referir a um tipo característico de enterramento, isto é, um enterramento-monumento – com tumba de tipo tumulus com uma câmara central ricamente mobiliada, que se supõe ser de um chefe.  

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10. Ao longo de nosso trabalho, priorizando a clareza para o leitor, nomearemos a referida tribo a partir da tumba do chefe a ser analisada.  A maior parte dos especialistas, principalmente os arqueólogos, preferem distinguir a nomenclatura dos assentamentos e das tumbas, não fazendo uma menção direta às tribos propriamente ditas.  Consideramos, entretanto, perfeitamente viável e adequada ao nosso estudo, a nomeação dessa tribo pela tumba, posto que não analisaremos a tumba isoladamente (buscamos relacioná-la com a sociedade e o período a que se refere) e essa forma de nomenclatura destaca, inclusive, que nossa pesquisa é centrada na época em que viveu o chefe de Hochdorf (segunda metade do século VI a.C. ao início do século V a.C.).

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11. No presente trabalho, propomo-nos a interpretar os ritos funerários diferentemente de Van Gennep (1978), isto é, não nos centrando somente em sua acepção religiosa.  Ao invés, consideraremos o funeral como uma complexa interação de aspectos culturais, rituais e sociais (Tainter, 1978: 109), a partir dos quais pode-se analisar os mais diversos fenômenos sociais, em uma determinada época – tais como, por exemplo, transformações, disputas, conflitos, complexidade social e hierarquização. 

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12. Utilizaremos, ao longo deste trabalho, a definição de símbolos elaborada por Richards (1992: 131, 133), conceituando-os como uma forma de comunicação e instrumentos de entendimento e construção do mundo.

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13. Devemos destacar que, segundo Wait (1995: 490), nos mitos célticos, não fica claro se o Outro Mundo é apenas onde vivem os deuses ou se também inclui lugares onde habitem os mortos. Miranda Green (1997: 68) considera, porém, que este Outro Mundo seja o mundo dos deuses e dos mortos, e que seria similar ao mundo dos vivos, mas sem que houvesse doenças, envelhecimento ou ruína.

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14. A zona ocidental de Hallstatt abarca as regiões que hoje conhecemos como Suíça, Áustria, sudoeste da Alemanha e leste da França.

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15. Aqui fazemos menção ao conceito de “vida social dos objetos” elaborado por Arjun Appadurai (1986) a fim de explicar a circulação, os usos e o consumo de objetos em diferentes contextos sociais. Ao longo de sua vida social, um objeto é usado em diferentes situações, nas quais adquire significados e valores distintos. O conceito de vida social cria a possibilidade de analisar-se cada uma dessas situações e de compará-las para encontrar inter-relações, que nos permitam aprofundar os estudos e nosso conhecimento acerca dessas sociedades.  

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16. Weiner (1994: 394) define “densidade simbólica” como o valor simbólico atribuído aos objetos nas relações sociais.

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17.  O poder, segundo Gellner (1995: 105), é a possibilidade de ação presa a posições sociais especiais e que pode estar relacionado ao controle da produção e da sociedade (meios de coerção) e à distribuição da riqueza.  

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18. A existência de um “serviço de banquete” para nove pessoas só é verificável nessa tumba, apesar da deposição de vasos e louças para banquete ser freqüente em tumbas muito ricas. A particularidade desse “serviço de banquete” ganha ênfase quando constatamos que ele foi utilizado por um período prolongado, quer dizer, que não foi feito expressamente para o enterramento; da mesma forma, que havia uma hierarquização nesse ritual, onde  o chefe possui uma posição distinta daquela dos demais, evidenciada a partir da presença de um leito com traços de uso anterior ao enterramento e, também, do próprio “serviço de banquete”– a taça do chefe é maior do que as outras (possuindo capacidade para 5,5 litros de bebida) e feita de material diferente (ela é de ferro, enquanto as demais são de chifre de boi).  

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19. Em verdade, quanto maior o banquete, maior era o prestígio daquele que o oferecia; donde temos que nele eram demonstrados, ostentados e disputados o status e o prestígio sociais a partir da distribuição de comida e bebida para todos que tomassem parte do ritual.

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20. Vide os trabalhos de Frankenstein, Frankenstein e Rowlands, Wells e Brun que constam de nossa bibliografia.  

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21. A inumação só era praticada pelos chefes e integrantes da aristocracia, enquanto a cremação era adota pela maior parte da população. Havia, inclusive, bens de prestígio característicos de cada posição social, de sorte que se criou uma hierarquização de enterramentos: os de chefes (Häuptlingsgräber) e aqueles de aristocratas (Adelsgräber). Esses enterramentos compreendem tumbas de tipo tumuli, mas, igualmente, tumbas rasas (que constituem a grande maioria).  Em diversos períodos, desde a Antigüidade, muitas dessas tumbas foram saqueadas. Segundo Arnold (1995: 51), os saques empreendidos na antigüidade ocorreram, provavelmente, em momentos de crise, a fim de obter bens de prestígio que seriam “reutilizados” na competição social, em especial, para manter o status de elites secundárias.   

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22. Foram encontradas nessa aldeia cabanas de bronzeiro, ferreiro, ourives, oleiro e várias com vestígios de tecelagem e apenas uma casa maior do que as demais; o que nos permite inferir ser essa a casa do chefe.  

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