| ISSN 1518-2541
Hélade 3 (1), 2002: 02-12 Submissão: Jan/2002; Aceitação: Fev/2002 Ciro Flamarion Santana Cardoso Prof. Titular Dr. de História Antiga do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e-mail: ciro@cruiser.com.br
Os egípcios antigos e o mar Vermelho: navegação, exotismo e maravilhas Introdução Desde o início de sua menção em documentos egípcios, o país africano de Punt neles aparece como uma região fabulosa de onde provêm maravilhas, além de ser, em si, maravilhosa e incrivelmente rica. Data do III milênio a.C. um curioso episódio em que o rei Pepi II (2246-2152 a.C.), da VI dinastia, que na época tinha dez ou onze anos, informado de que o funcionário Herkhuf, que partira em missão meridional, vinha de volta ao Egito trazendo um anão (talvez um pigmeu) bailarino “semelhante ao pigmeu (...) trazido de Punt na época (do rei) Isési”, ordenou que se enviasse a Herkhuf, ainda viajando, uma carta, ditada pessoalmente pelo monarca infantil, na qual recomendava que cuidasse muito bem do anão bailarino, para que este chegasse “vivo, próspero e saudável” à corte de Mênfis. A carta dizia, entre outras coisas: “Minha Majestade deseja ver este pigmeu mais do que todas as maravilhas de Punt!” (1)No presente texto, nossa finalidade é estudar a navegação dos egípcios no mar Vermelho, com atenção especial à região (de localização e extensão provavelmente variáveis no tempo, como logo verificaremos) que chamavam de pwnt, “Punt”, no relativo ao II milênio a.C. As bases principais de nossas observações serão dois documentos: 1) uma obra de ficção do início do período considerado (século XX a.C.), conhecida como o “Conto do Náufrago” ou “A ilha da serpente”; 2) a inscrição da rainha-faraó Hatshepsut em seu templo de Deir el-Bahri relativa a uma expedição histórica a Punt, documento datado do século XV a.C. Não nos limitaremos aos aspectos conhecidos da navegação e das trocas efetuadas com o país de Punt, atestadas (intermitentemente) por mais de um milênio, entre o século XXV e o século XII a.C.: também observaremos as representações egípcias acerca desse país, qualificado de “terra divina”, do qual se tinha uma visão favorável - ao contrário do que acontecia, por exemplo, com a Ásia ocidental - e ao qual se atribuíam características maravilhosas e fabulosa riqueza. 2 |
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Hélade 3 (1), 2002: 02-12 Os meios de ação: barcos e
portos egípcios nas rotas do mar Vermelho no Na costa oeste da península do Sinai, banhada pelo Golfo de Suez, acharam-se restos de dois pequenos portos egípcios do Reino Médio na baía de El Markha. Ao que parece, do Sinai é que partiam, no III milênio a.C., as expedições marítimas em direção a Punt. Mais tarde, com a crescente proeminência de Tebas, passou-se a proceder de outro modo: de Coptos, pouco ao norte de Tebas, as expedições tomavam o rumo leste, atravessando o estéril Wadi Hammamat em direção ao Mar Vermelho. A política do Reino Médio a respeito foi, como também em outros casos, abrir poços no deserto e garantir etapas intermediárias. Na costa oeste do Mar Vermelho, nas proximidades de Mersa Gawasis, na saída do Hammamat, estava o porto egípcio. Aí se construíam os barcos, sendo a madeira carregada do vale do Nilo até o porto. Uma hipótese alternativa é a do transporte por terra dos barcos prontos, de Coptos até o mar Vermelho, através do já mencionado vale seco, desmantelando-os para depois montá-los outra vez no litoral, na volta tornando a desarmá-los para seu transporte por terra a Coptos e o reembarque. Isto implicaria também, tanto na ida quanto na volta, transportar por terra - mediante uma caravana de muares - todo o carregamento dessas embarcações. (6) Em qualquer caso, de Mersa Gawasis é que se empreendia a viagem por mar, seja em direção ao Sinai, seja em direção ao país de Punt. Esta última designação, sob o Reino Médio, aplicava-se possivelmente a uma parte da costa ocidental do Mar Vermelho, de Suakim até Massaua, bem como às ilhas próximas. Só mais tarde, segundo parece, o nome “Punt” se estendeu a regiões mais meridionais - talvez a Somália - e, segundo alguns, também ao extremo sul da Arábia. (7) A verdade é que a localização exata de Punt continua sendo assunto controverso. A única maneira de tentar localizar tal região é por meio de uma interpretação das figurações contidas nos relevos que acompanham a inscrição de Hatshepsut em Deir el-Bahri e de alguns textos, isto é, dos dados pictóricos ou escritos egípcios que se refiram à sua fauna e flora, bem como aos seus habitantes, às características destes e a suas edificações. Com base exatamente nesses mesmos dados, há opiniões que, em lugar da Somália, favorecem, seja a costa sudeste do Sudão, seja a Eritréia, como zona mais provável para a localização de Punt. (8) 3 |
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Hélade 3 (1), 2002: 02-12 No caso específico das viagens no mar Vermelho, nossa primeira fonte central, o “Conto do Náufrago”, dá as dimensões de um barco nelas empregado. A unidade de medida utilizada no texto é o cúbito, que no antigo Egito tinha 52,30 centímetros. Assim, o barco descrito pela primeira vez nas linhas 25-26 do mencionado documento tinha quase 63 m de comprimento e quase 21 m de largura, ao que parece o tamanho dos maiores barcos marítimos egípcios da época. Quanto à inscrição de Hatshepsut, nossa outra fonte mais importante, aparece acompanhada de ilustrações, incluindo a da frota utilizada na viagem. A interpretação dessas figuras parece ser a que segue. Na hipótese de ser o Punt da época localizado na Somália, a navegação para lá, indo em direção ao sul no mar Vermelho, seria relativamente fácil com o uso das velas, devido ao vento constante que sopra do norte ao longo de praticamente todo o ano. Pela mesma razão, entretanto, a viagem de volta seria difícil e dependeria de remar cerca de 800 km no sentido sul-norte. Assim, tais barcos são estreitos e parecem bem menos pesados do que as embarcações egípcias que navegavam no Mediterrâneo mais ou menos na mesma época (das quais há uma boa reprodução pictórica na tumba de Kenamon, do século XIV a.C.). Outra razão de seu aspecto, que lembra em certos pontos o de barcos feitos em tempos muito posteriores para competir em velocidade, poderia ser uma busca necessária de rapidez, mais do que de capacidade de carga, causada pela escassez de pontos para abastecimento de água ao longo da árida costa a percorrer, pelo qual as dificuldades da viagem seriam, na verdade, semelhantes às das expedições a regiões desérticas. (9) A controvérsia egiptológica acerca de Punt O que se disse acima, mesmo contendo já alguns pontos controversos, representa as opiniões que aceito, isto é: que Punt fosse uma região costeira do nordeste da África; e que os egípcios a atingissem ordinariamente, no II milênio a.C., por meio de expedições que navegassem, na ida, no rio Nilo, em seguida fizessem a travessia terrestre até o mar Vermelho, no qual seriam de novo embarcadas até o que talvez configurasse, no país puntita, um ou mais empórios ou, mesmo, algo próximo ao conceito polanyiano de port of trade (10) - havendo a possibilidade de interpretar algumas cenas dos relevos de Deir el-Bahri como indicativas dos procedimentos daquilo que os antropólogos chamam de “comércio silencioso”. (11)Desde 1968, entretanto, outra opinião veio desafiar a que já expusemos: a afirmação de ser Punt uma zona sudanesa interior e não costeira, à qual os antigos egípcios chegassem navegando rumo ao sul no rio Nilo e, em seguida, trilhando um caminho terrestre (ou, segundo outros, viajando o tempo todo por via fluvial). Entre os defensores mais intransigentes desta nova tese contam-se Claude Vandersleyen e uma incansável iconoclasta, Alessandra Nibbi. (12) Os seguidores dessa postura acreditam - ao contrário da imensa maioria dos egiptólogos - que a palavra composta uadj-ur, ou “o grande verde”, que é o termo habitual em Médio Egípcio para “mar” (sendo ym uma designação tardia, pouco atestada em Médio Egípcio, comum em Neo-Egípcio), longe de significar “mar”, referir-se-ia a uma região situada junto ao rio Nilo. (De passagem, seria interessante saber como taduziriam esses autores a comparação egípcia, bem atestada, mi hapy her seta re uadj-ur, “como o Nilo correndo para o mar”!) (13) 4 |
Hélade 3 (1), 2002: 02-12 Os argumentos dessa corrente não convenceram os egiptólogos, como mostram as opiniões mais recentes sobre a localização de Punt. (14) É que o esquema Nilo-Wadi Hammamat-mar Vermelho parece repousar sobre bases sólidas e estar, mesmo, representado pictoricamente em sua etapa terrestre de transporte por muares (que falta nos relevos de Hatshepsut) na tumba tebana número 89, de Amenemés (da época de Thutmés IV); além de que o Papiro Harris (como reconhece com certo embaraço Vandersleyen, embora ainda aqui teime na defesa de seu esquema) descreve indubitavelmente, na época de Ramsés III, o desembarque de mercadorias vindas de Punt, seu transporte terrestre por asnos e homens e a seguir seu reembarque em navios diferentes. (15) O
'Conto do Náufrago' As características do próprio papiro e as da linguagem - um Médio Egípcio literário mas com fortes marcas do estilo oral narrativo - remetem o documento ao início do Reino Médio, provavelmente ao século XX a.C. O contexto também apoiaria tal localização temporal: após o abandono das expedições de troca e mineração enviadas a países estrangeiros pelos faraós durante o Primeiro Período Intermediário, no fim da XI dinastia e no início da seguinte, reunificado o Egito sob o chamado Reino Médio, foram retomadas tais expedições, inclusive às minas do Sinai, à Núbia (Uauat, Kush) e ao país de Punt, que constituem, como veremos, as três referências geográficas contidas no texto. (17) Ao iniciar-se o conto, uma expedição egípcia, navegando no Nilo em direção ao norte, chega ao limite meridional do Egito: a primeira catarata, onde se situava a cidade de Abw ou Elefantina: [2-7:] “Eis que chegamos ao lar! O malho foi tomado, a estaca de amarração foi fincada, a corda de proa, jogada a terra. Faz-se uma ação de graças, louva-se o deus. Cada homem está abraçando o seu companheiro. A nossa tripulação voltou sã e salva.” Logo depois se menciona que o barco que transporta o protagonista e o comandante da expedição, antes de atracar em território egípcio, havia ultrapassado o limite da Núbia setentrional (Uauat para os egípcios) e passado pela ilha de Senmut - atualmente Biggeh -, imediatamente ao sul de Assuã, ou seja, da primeira catarata do Nilo. A implicação é tratar-se de uma expedição que retorna, seja de Uauat, seja, mais ao sul (entre a segunda e a quarta cataratas), do país de Kush propriamente dito; ou, ainda, de alguma escaramuça punitiva contra os povos da estepe sudanesa, Medjau para os egípcios. Ao retomarem a mineração de ouro no alto vale do Nilo e nos desertos adjacentes, ao sul do Egito, bem como o tráfico de produtos núbios, após a interrupção ocorrida no Primeiro Período Intermediário, os egípcios encontraram maiores dificuldades, no Reino Médio, do que durante o Reino Antigo para o controle da região, devido ao surgimento do reino de Kerma, ao sul da segunda catarata. A política seguida foi construir fortes que vigiassem a navegação e enviassem patrulhas às regiões próximas ao rio. Mas, no período em que surge A ilha da serpente, tal política está ainda em seus inícios: o Egito controla Uauat, o norte da Núbia, mas só esporadicamente se faz presente mais ao sul. (18)5 |
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Quanto a
uma expedição anterior narrada pelo protagonista, que uma tempestade
tirara do curso que seguia, diz-se que ia em direção “à mina do
soberano” (linhas 23-24, também linhas 89-90) por mar. Como o acesso às
minas do deserto Arábico e da Núbia se fazia pelo rio e a seguir por
terra, trata-se quase certamente de viagem pelo Mar Vermelho em direção
à Península do Sinai. A reconstituição dos acontecimentos ficcionais
seria a seguinte: uma vez iniciada a travessia em direção ao Sinai, uma
tempestade tirou o barco do curso e depois o destruiu, morrendo todos os
que estavam a bordo, salvo o protagonista que, agarrado a uma prancha
destacada do barco destruído, foi jogado pelo mar numa ilha do país de
Punt: [23-41:] “Eu me dirigia à mina do Soberano. Desci ao mar num barco de cento e vinte cúbitos de comprimento e quarenta cúbitos de largura. Havia a bordo cento e vinte marinheiros, do escol do Egito. Vigiassem eles o céu, vigiassem eles a terra, o seu coração era mais corajoso do que (o dos) leões. Eles previam o vento tempestuoso antes que acontecesse, uma procela antes que ocorresse. “Desencadeou-se o vento de tempestade quando estávamos em (alto) mar, antes que pudéssemos chegar a terra. Ao levantar-se, o vento fazia um rugido incessante: e lá estava uma vaga de oito cúbitos! Foi uma prancha que a procurou em meu proveito. Então o barco morreu. Dos que estavam a bordo, nenhum restou. Eu fui levado a uma ilha por uma onda do mar.”
Como
a seguir fica claro que a ilha a que chegou o náufrago estava situada no
país de Punt, aqui temos mais um argumento a favor da hipótese, que
estamos seguindo, de ser tal país atingido pelos egípcios por mar: como
imaginar, numa navegação no rio Nilo, uma tempestade do tipo descrito,
com ondas de mais de quatro metros de altura? Trata-se de um conto fantástico,
sem dúvida; mas, neste tipo de literatura, detalhes corriqueiros são
acumulados no relativo ao que constitui a parte do texto não referida àquilo
que transcende a experiência habitual, exatamente para tornar crível
também a parte fantástica quando esta fizer por fim sua aparição.
A
ilha descrita no conto é a antecessora dos diversos países fantásticos
da literatura, de que constitui o exemplo conservado mais antigo. A
serpente ou dragão que ali vivia define-a como “ilha do Ka”,
termo, este último, que levaria a duas possíveis traduções: algo como
“ilha do Espírito”, sendo o ka um
componente habitualmente invisível da personalidade dos homens e dos
deuses; ou, como ka também
significa “riqueza”, poderia ser “ilha da Fortuna” a tradução
adequada. A ilha em questão caracteriza-se por mágica abundância, mesmo
estando desabitada (a não ser por uma espécie de dragão): [47-52:] “Achei lá figos, uvas, toda espécie de legumes úteis; havia lá frutos de sicômoro com e sem entalhe e pepinos que pareciam cultivados (lit. feitos); havia lá peixes e aves; nada havia que não houvesse naquele lugar (lit. inexistente aquilo que não estivesse dentro dela, i.e. da ilha).”
Esta
abundância se coaduna com a idealização pelos egípcios das características
de Punt (região onde, na linha 152, verifica-se estar situada tal ilha
maravilhosa): linhas 47-52, 114-116, 151-153. Eis aqui o carregamento que
de lá levou o protagonista -
um carregamento típico do comércio egípcio com Punt: [162-166:]“...mirra, azeite sagrado, láudano, canela, árvores de especiarias, perfume, pintura negra para os olhos, caudas de girafa, grandes torrões de incenso, presas de elefante, cães de caça, macacos, babuínos - (enfim,) coisas preciosas de todo tipo.” 6 |
Hélade 3 (1), 2002: 02-12 Documentos há que mencionam como mercadorias puntitas também o ouro, o marfim e escravos, sendo possível, porém, que Punt funcionasse, quanto a tais mercadorias, só como intermediário, recebendo-as de outras regiões e repassando-as aos egípcios. Além das expedições egípcias a Punt, há alguns dados que mostram os homens do “país divino” vindo, por sua vez, realizar trocas na costa egípcia do mar Vermelho. (19)
Voltando
ao nosso conto, passado algum tempo um barco egípcio chega à ilha e
acolhe o náufrago, fazendo a viagem de volta à capital egípcia da época,
Itji-tauí. Tal viagem deve ter ocorrido por mar até o porto do Mar
Vermelho, em seguida por terra até o Nilo em Coptos, de novo em barco,
navegando Nilo abaixo até a “Residência” faraônica, isto é, a
capital dinástica de Itji-tauí, na entrada do Fayum (linhas 154-156,
166, 169-174): o tempo de viagem total, dois meses (linha 174), é razoável
para a navegação da época mais a etapa terrestre; o conto não entra em
detalhes, entretanto, acerca do trajeto mar-terra-rio que teria de ser
cumprido para se chegar à Residência real.
Note-se,
por fim, que a aparência e os atributos da serpente ou dragão que
habitava a ilha a que chegou o náufrago são típicos da descrição egípcia
de entes divinos: corpo com incrustação de ouro e partes de lápis-lazúli
(linhas 62-68), capacidade de adivinhar as razões dos acontecimentos e
prever o futuro (linhas 113-125, 132-136, 149-150, 153-154, 159, 167-169).
Trata-se de um deus limitado, no entanto, incapaz de prever e evitar certos
eventos que o afetam mais de perto, como a queda da estrela que incendeia
os seus semelhantes (linhas 126-132). A atitude do náufrago a seu
respeito é paralela à que se devia assumir diante do faraó também
divino, isto é, a prosternação (linhas 67-68, 81-82, 87-88, 136-138,
161-162, 166-167); ou ainda mais religiosa, com a promessa de oferendas e
a efetivação de um holocausto de ação de graças (linhas 139-148,
171-172). A inscrição e as ilustrações relativas à expedição a Punt no templo da rainha-faraó Hatshepsut em Deir el-Bahri (Tebas ocidental) A documentação egípcia mais explícita subsistente acerca do país de Punt pode ser datada de cerca de meio milênio após a época que viu surgir o Conto do Náufrago: trata-se da inscrição e dos relevos relativos à expedição puntita ordenada por Hatshepsut (1473-1458 a.C.), gravados na parte sul do segundo pórtico da “Mansão de milhões de anos” - um tipo de santuário chamado outrora pelos egiptólogos de templo funerário - que a rainha-faraó mandou construir em Deir el-Bahri. A inscrição pode ser dividida em cinco partes: 1) panegírico régio; 2) decreto oracular de Amon-Ra ordenando se realizasse a expedição; 3) decreto real no mesmo sentido; 4) descrição da expedição a Punt; 5) recepção tebana da expedição em seu retorno e oferendas a Amon-Ra. Mais do que resumir as informações acerca da expedição e da região visitada, queremos recolher os dados que mostram como o país de Punt era encarado ou caracterizado em círculos oficiais egípcios no século XV a.C. (20)No decreto oracular, o deus Amon-Ra declara sua propriedade sobre Punt: trata-se de “um lugar de delícias” que Amon criara para si mesmo com a finalidade de “refrescar seu coração”, bem como o da senhora de Punt, a deusa Háthor. Em outra passagem, que descreve uma estátua de Amon-Ra e da rainha que Hatshepsut mandou com a expedição para que fosse instalada lá, menciona-se, de passagem, a “grande Enéada que reside no país de Punt”, associando assim aquele país meridional aos deuses cosmogônicos primordiais de Heliópolis. Como bem mais tarde, no Relatório de Unamon (texto que se refere a acontecimentos do início do século XI a.C.), Amon aparecerá como aquele que faz crescer as árvores nas montanhas do Líbano expressamente para que a madeira resultante seja usada na construção e no consertos de sua barca sagrada fluvial, nesta ocasião ele afirma, em forma análoga, garantir pessoalmente que os “Terraços do incenso” de Punt produzam tal substância indispensável ao culto egípcio das divindades. O incenso é uma das “maravilhas do país divino”. 7 |
Hélade 3 (1), 2002: 02-12 Fazia já aproximadamente um milênio que expedições egípcias se dirigiam a Punt. Ainda assim, Amon-Ra diz em seu oráculo, a respeito desse país, que os egípcios “ignoram a sua existência”, que “o país divino não fora pisado previamente”. Amon diz a Hatshepsut, sua filha: “Eu te dou Punt inteiro, até os limites do país divino”. O texto dá a entender que os reis do passado obtinham as maravilhas puntitas pagando por elas, enquanto, no caso de Hatshepsut, os barbudos habitantes de Punt, “que não conheciam as pessoas do Egito”, aclamarão a rainha-faraó, enquanto os enviados desta se apropriarão à vontade das riquezas da região. A afirmação da prioridade absoluta do faraó que no momento estivesse no trono, ao empreender ele alguma ação, era corrente nos documentos reais egípcios com a finalidade de ressaltar o valor ímpar do empreendimento presente. No entanto, em relação a Punt, ocorre com muito maior insistência do que em outros casos, e em numerosos períodos, a noção de ser um país que os antigos egípcios desconhecessem. Também no Conto do Náufrago, por exemplo, o protagonista diz, ao terminar uma fala dirigida à serpente divina que encontrou numa ilha puntita, ser aquela “uma terra distante, desconhecida dos homens” - entenda-se, dos homens do Egito (linha 148). Achamos, portanto, que a referência insistente ao caráter desconhecido de Punt comporta algo específico a tal região. Ao contrário da Ásia ocidental, acessível por terra do Egito mediante a travessia da parte da península do Sinai que costeia o Mediterrâneo, podendo também ser atingida por mar com relativa facilidade, pelo qual não eram infreqüentes as viagens egípcias àquela região e de asiáticos ao Egito, Punt configurava-se como uma paragem remota, dificilmente acessível, visitada só esporadicamente, a longos intervalos, por expedições de laboriosa organização, com a finalidade de obter determinados bens, típicos de uma zona tropical. As viagens de navegantes de Punt às costas egípcias do mar Vermelho eram, ao que tudo indica, ainda mais raras. Os egípcios aparentemente tinham consciência de tal diferença em suas relações com cada uma das duas áreas mencionadas. O próprio fato de ser Punt mal conhecido - em conjunto com a total impossibilidade prática (logística) para os egípcios, mesmo no auge do Império, de exercerem qualquer domínio sobre aquele país que fosse mais do que retórico, bem como, simetricamente, de os habitantes de lá ameaçarem de alguma forma o Egito e suas fronteiras - era o que permitia uma idealização do exotismo puntita de forma quase sempre positiva, ao contrário de uma invariável tendência pejorativa dos textos egípcios ao se referirem a alguma região da Ásia ocidental (ou, analogamente, à Núbia ou Kush, que colindava com o Egito pelo sul e era diretamente acessível pela navegação Nilo acima). (21)Após o decreto da rainha-faraó, o texto, doravante narrado na terceira pessoa, menciona “os Terraços do incenso de Punt” como “lugar sagrado da delícia do coração”, tendo pouco antes reafirmado a noção de Amon-Ra como “governante de Punt, (o país) amado”. O que ensinam os documentos de Deir el-Bahri - texto escrito e iconografia - acerca da expedição e do próprio país de Punt? 8 |
Hélade 3 (1), 2002: 02-12 Em primeiro lugar, o decreto de Amon menciona duas vezes que a expedição a ser enviada viajaria “por mar e por terra”, coisa também afiançada depois numa fala atribuída a habitantes de Punt, o que confirma a rota Nilo-travessia terrestre-mar Vermelho, assunto já tratado. Além de visar à importação de produtos tropicais (incluindo árvores de incenso a serem transplantadas junto aos templos de Karnak e Deir el-Bahri), o empreendimento comportava também, explicitamente, finalidades de exploração, já que o decreto real contém a passagem seguinte: “Minha Majestade ordenou, pois, que fosse enviada (uma expedição) aos Terraços do incenso, que fossem abertas suas melhores rotas, reconhecidos seus contornos e explorados seus caminhos, de acordo com a ordem de meu pai Amon.” Aparecem nos relevos cinco navios - planejados, já se mencionou, mais para serem velozes do que para conterem carga muito pesada - movidos a vela e a remo. O pessoal da expedição comportava majoritariamente remadores, um número bem menor de tripulantes, uns poucos soldados e um comandante cujo nome era Nehesy. Punt é figurado como região tipicamente africana, com tamareiras, sicômoros, palmeiras, coqueiros e árvores de incenso; da fauna, aparecem por exemplo macacos, um pássaro, bois, uma girafa, um leopardo. As cabanas dos habitantes têm forma cônica e elevam-se sobre estacas; uma escada conduz à porta. Um dos relevos, acompanhado de texto, mostra o encontro do comandante egípcio Nehesy e seus soldados - tendo à frente uma mesa baixa com as mercadorias trazidas do Egito para troca: colares de ouro, miçangas, braceletes, uma espada - com o magro chefe de Punt, Parahu, sua gorda esposa Ity (que não apresenta esteatopigia - como se pretendeu às vezes - mas, sim, extrema obesidade e lordose), seus dois filhos e uma filha, representando-se igualmente um asno conduzido por três puntitas, destinado a transportar Ity. Aquela região e seus habitantes são, pois, figurados nos relevos acentuando-se voluntariamente o pitoresco, a alteridade. Diante da cabana onde se alojava Nehesy, numa das cenas, acumulam-se produtos de Punt, enquanto outros ainda estão sendo trazidos, na presença do chefe Parahu e de sua esposa. Justifica-se, assim, a interpretação possível dessas cenas de troca como aludindo a um “comércio silencioso”: os egípcios apresentam em bloco as mercadorias que trazem, os puntitas amontoam as suas, até que se chegue a um acordo sobre as proporções dos lotes respectivos de produtos e a troca se efetue. O comandante Nehesy recepcionou os “grandes de Punt” oferecendo-lhes pão, cerveja, vinho, frutas - em suma, “todas as coisas provenientes do País Amado (o Egito)” -, fazendo-o “conforme a instrução que havia sido dada no palácio real”. O carregamento que os barcos transportaram no retorno ao Egito é descrito assim: “Os navios estavam pesadamente carregados com as maravilhas do país de Punt: todas as essências odoríferas do país divino; montes de incenso; árvores de incenso ainda verdes; ébano e marfim puro; ouro verde do país de Aamu; láudano e canela; mirra, incenso, pintura negra (para os olhos); macacos, macacas e cães; numerosas peles de panteras do sul; pessoas com seus filhos.” Já se viu anteriormente que nem todas estas mercadorias eram do próprio Punt: algumas - como o ouro, o marfim e talvez os escravos - provinham de outras regiões africanas, agindo os puntitas como intermediários. 9 |
Hélade 3 (1), 2002: 02-12 Na chegada ao Egito, o texto e os relevos mostram - em cumprimento de uma passagem do decreto oracular de Amon - os grandes de Punt, em conjunto com núbios, oferecendo a Hatshepsut o carregamento da expedição e bens provenientes de outros países meridionais como se fossem tributos, quando, na verdade, houve uma troca em Punt, como vimos, além de haver sido a expedição eminentemente pacífica. A presença física em Tebas, naquela ocasião, de tais habitantes das regiões situadas ao sul do Egito é altamente improvável. A afirmação a respeito obedece simplesmente a uma convenção segundo a qual as importações egípcias efetuadas mediante expedições régias eram sempre apresentadas ao público interno como se fossem tributos e presentes, mesmo quando, como no caso que analisamos, houvessem sido obtidas mediante um processo de intercâmbio. Hatshepsut dedicou a Amon-Ra de Karnak, à chegada da expedição, abundantes oferendas, compostas não somente de produtos trazidos de Punt (entre eles, trinta e uma árvores vivas de incenso a serem transplantadas em Karnak) como também de bens provenientes de Kush, incluindo gado e outros animais. A rainha-faraó é representada medindo pessoalmente incenso para seu pai Amon-Ra, comprovando desse modo o que afirmara em seu decreto real, no qual havia declarado ser a finalidade precípua da expedição puntita a obtenção de preciosas oferendas para o deus dinástico. À guisa de conclusão: as representações dos egípcios acerca do país de Punt no contexto das suas representações gerais sobre os países estrangeiros Examine-se, adiante, o gráfico que elaborei para resumir as representações egípcias básicas sobre os países estrangeiros. As representações reunidas no gráfico em questão dependem de outra, mais geral: a de que o faraó, descendente em linha direta do deus criador (e, eventualmente, hipóstase do mesmo), é dono de todo o universo, incluindo os países estrangeiros. No Reino Novo, Amon-Ra reivindica a posse específica de certas regiões (a qual torna extensiva ao rei do Egito, seu filho): governante de Punt, ele lá faz crescer as árvores de incenso. Com isto, garante o culto a todos os deuses egípcios, dos quais, segundo a religião monárquica da época, é o rei; e, nas montanhas do Líbano, faz crescer a madeira que servirá à construção e ao conserto de seu barco sagrado, rebocado no rio Nilo quando de certos festivais. As relações do Egito com Biblos, por meio de cujo porto conseguia madeira do Líbano, eram antigas e estreitas, o que, sob certo aspecto, dava a essa região asiática uma posição à parte no imaginário egípcio, até certo ponto simétrica à que ocupava Punt. Simétrica - e, não, idêntica - porque em Biblos se constata um grau importante de egipcianização, enquanto Punt é percebido fundamentalmente sob o prisma da alteridade. Os puntitas submetem-se ao faraó, como todos os estrangeiros, e - teoricamente em certas ocasiões, efetivamente em outras - enviam embaixadores carregados de tributos e presentes para o rei do Egito. Constituem, porém, um caso especial: não se representa, verbalmente ou em imagens, o faraó massacrando gente de Punt, como ocorre com os demais povos estrangeiros que tinham relações com os egípcios; e só muito excepcionalmente o país de Punt aparece integrando os “Nove Arcos”, isto é, a lista dos inimigos tradicionais do Egito pisoteados pelo faraó (e a iconografia correspondente). (22) Em suma, as representações acerca de Punt raramente contêm elementos negativos. Trata-se, acima de tudo, do “país divino”: uma região fabulosa, mirífica, até mesmo por ser só muito ligeiramente conhecida (o que possibilita, a respeito, visões mirabolantes), da qual vêm maravilhas para o Egito.10 |
Hélade 3 (1), 2002: 02-12 Representações egípcias acerca dos países estrangeiros durante o Reino Novo (segunda metade do II milênio a.C.) (1) Representa as expedições pacíficas de troca, eventualmente ordenadas por Amon mediante decretos oraculares e confirmadas por decretos reais. (2) Representa as expedições belicosas, quando Amon entrega a cimitarra de guerra ao faraó. *** A rainha Hatshepsut, na estátua de si mesma e de seu pai Amon que enviou quando de sua expedição para que a instalassem em Punt, provavelmente fora representada como a deusa Háthor, especialmente associada pelos egípcios aos países estrangeiros, de que era a “senhora”. Se, em relação a Punt, ocorreu de parte dos egípcios, a milênios de distância no tempo, algo semelhante em termos gerais a algumas das primeiras representações européias acerca da América, que a davam como terra maravilhosa, para sorte dos puntitas não houve qualquer possibilidade de uma conquista efetiva de sua região pelo Egito. Assim, contrariamente ao que aconteceu com as imagens paradisíacas dos europeus sobre a América, que foram efêmeras, a visão de Punt como terra de fábula contendo maravilhas pôde manter-se durante todo o período de mais de um milênio em que tal região e o Egito mantiveram contato na Antigüidade faraônica. 11 |
Hélade 3 (1), 2002: 02-12 NOTAS 1 - Inscrição
na tumba de Herkhuf em Assuã, apud VERCOUTTER,
Jean. L’Égypte et la vallée du
Nil. 1. Des origines à la fin de l’Ancien Empire 12000-2000 av. J.-C. Paris:
Presses Universitaires de France, 1992, p. 334. Segundo Vercoutter (Ibidem,
p. 141), o pigmeu ou anão bailarino deve ter sido obtido por Herkhuf, não
diretamente em Punt mas, sim, indiretamente, na região sudanesa de Yam.
2 - PARTRIDGE,
Robert. Transport in ancient Egypt. London:
Rubicon Press, 1996, p. 54.
3 - Ver KEES, Hermann. Ancient Egypt. A cultural topography. Trad. de Ian F. D. Morrow. Chicago-London: The University of Chicago Press, 1977, pp. 78-80. A respeito das espécies identificadas como tendo originado a madeira (local ou importada) empregada em objetos egípcios - mas trata-se de uma lista que deixa totalmente de lado os barcos -, bem como no relativo às técnicas e ferramentas de que dispunham os antigos egípcios para o trabalho da madeira, ver LUCAS, Alfred. Ancient Egyptian materials and industries. Quarta ed. revista e aumentada por J. R. Harris. London: Histories & Mysteries of Man, 1962, pp. 429-456.
4 - VINSON, Steven. Egyptian boats and ships. Princes Risborough (Buckinghamshire): Shire Publications, 1994, pp. 34-36.
5 - SOUROUZIAN, Hourig. “La ‘belle fête d’Opet’ ou la barque d’Amon-Rê”. In: JOURET, Rose-Marie (org.). Thèbes 1250 av. J.-C. Ramsès II et le rêve du pouvoir absolu. Paris: Autrement, 1990, pp. 154-159.
6 - PARTRIDGE, Robert . Op.cit., p. 61.
7 - LEFEBVRE, Gustave. Romans et contes égyptiens de l’époque pharaonique. Paris: Adrien Maisonneuve, 1976, p. 30; ROTHENBERG, Beno et al. Sinai. Pharaohs, miners, pilgrims and soldiers. Washington-New York: Joseph J. Binns, 1979, pp. 137-171; VALBELLE, Dominique. Les neuf arcs. L’Égyptien et les étrangers de la Préhistoire à la conquête d’Alexandre. Paris: Armand Colin, 1990, capítulo II. Alguns autores acham que os egípcios chegaram a ter um segundo e até mesmo um terceiro porto na costa do mar Vermelho: cf. MANLEY, Bill. The Penguin historical atlas of ancient Egypt. London: Penguin, 1996, pp. 74-75.
8 - SHAW,
Ian e NICHOLSON, Paul. The
dictionary of ancient Egypt. New York: Harry N. Abrams, 1995, pp.
231-232.
9 - VINSON, Steve. Op.cit., p. 40; SÄVE-SÖDERBERGH, Torgny. The navy of the eighteenth egyptian dynasty. Uppsala-Leipzig: A.-B. Lundequiststka Bokhandeln-Otto Harrassowitz, 1946, p. 16.
10 - Cf.
REVERE,
Robert B. “ ‘Tierra de nadie’: los puertos comerciales del Mediterráneo
oriental”. In: POLANYI, Karl et alii (org.). Comercio y
mercado en los imperios antiguos. Trad. de Alberto Nicolás.
Barcelona: Labor, 1976, pp. 87-110. Apoiamos a opinião que vê em Punt
“uma região bastante vasta da qual os egípcios freqüentavam somente
empórios à margem do mar Vermelho cujas localizações foram variáveis
segundo a época” (VALBELLE, Dominique. Op.cit.,
p. 60).
11 - Ver ZAYED, Abd el Hamid (com a colaboração de DEVISSE, J.). “Relations de l’Égypte avec le reste de l’Afrique”. In: MOKHTAR, G. (org.). Afrique ancienne. Paris: Jeune Afrique-Stock-UNESCO, 1980, pp. 133-152 (pp. 144-148 para Punt especificamente). Col. “Histoire générale de l’Afrique”, vol. II; O’CONNOR, David. “New Kingdom and Third Intermediate Period, 1552-664 BC”. In: TRIGGER, Bruce et alii. Ancient Egypt. A social history. Cambridge: Cambridge University Press, 1983, pp. 183-278 (sobre Punt especificamente, pp. 270-271).
12 - VANDERSLEYEN, Claude. L’Égypte et la vallée du Nil, 2. De la fin de l’Ancien Empire à la fin du Nouvel Empire. Paris: Presses Universitaires de France, 1995, pp. 65-66, 257-258 e passim; NIBBI, Alessandra. “A note on the Lexikon entry: Meer”. Göttinger Miszellen (Göttingen). 58, 1982, pp. 53-58.
13 - Cf. HANNIG, Rainer. Grosses Handwörtebuch Ägyptisch-Deutsch (2800-950 v. Chr.). Mainz: Phillip von Zabern, 1995, p. 179 (verbete wAD-wr ).
14 - Por exemplo: POTTS, D. T. “Distant shores: ancient Near Eastern trade with South Asia and Northeast Africa”. In: SASSON, Jack M. et alii (org.). Civilizations of the ancient Near East. New York-London: Charles Scribner-Macmillan-Simon & Schuster, 1995. 4 vols. Volume III, pp. 1451-1463 (pp. 1459-1460 para Punt).
15 - VANDERSLEYEN, Claude. Op.cit., pp. 605-606. Ver a reprodução do relevo da tumba número 89 de Tebas em SÄVE-SÖDERBERGH, Torgny. Op.cit., p. 25 (Figura 7).
16 - Ver o texto egípcio anotado em: BLACKMAN, Aylward M. Middle-Egyptian stories. Bruxelles: Fondation Reine Élisabeth, 1972, pp. 41-48. Uma publicação recente contendo o texto hieroglífico, transcrição fonética, tradução e comentários é: LE GUILLOUX, Patrice. Le conte du Naufragé (Papyrus Ermitage 1115). Angers: Association Angevine d’Égyptologie “Isis”, 1996. No presente escrito, as citações deste documento basear-se-ão em minha própria tradução, publicada com o texto hieroglífico e a transcrição fonética em: CARDOSO, Ciro Flamarion. “Escrita, sistema canônico e literatura no antigo Egito”. In: BAKOS, Margaret e POZZER, Katia Maria Paim (org.). III Jornada de estudos do Oriente antigo. Línguas, escritas e imaginários. Porto Alegre: Editora da PUC-RS, 1998, pp. 95-144 (o Conto do Náufrago, seguido de notas e análise, encontra-se nas pp. 110-141).
17 - Ver LEFEBVRE, Gustave. Op.cit., pp. 29-32.
18 - LECLANT, Jean. “Egypt in Nubia during the Old, Middle, and New Kingdoms”. In: Africa in Antiquity. I. The essays. New York: The Brooklyn Museum, 1978, pp. 62-73; LALOUETTE, Claire. Thèbes ou la naissance d’un empire. Paris: Fayard, 1986, pp. 65-67.
19 - SÄVE-SÖDERBERGH, Torgny. Op.cit., pp. 22-25.
20 - Todas as passagens e referências à inscrição puntita de Deir el-Bahri incluídas no nosso texto foram retiradas da tradução contida em: LALOUETTE, Claire. Op.cit., pp. 246-256.
21 - Ver a este respeito: WIEDEMANN, Amanda Barbosa. A visão egípcia sobre o “estrangeiro” na literatura do Reino Médio. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1994 (dissertação de Mestrado).
22 - Ver uma rara exceção em: VANDERSLEYEN, Claude. Op.cit., pp. 500-501.
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