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ISSN 1518-2541 Hélade 2 (1), 2001: 39-49 Sumissão: Fev/2001; Aceitação: Mar/2001 Norma Musco Mendes Profª. Dra. Adjunta de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - IFCS. Departamento de História - Setor de História Antiga - LHIA.
As relações políticas entre o Princeps e
o Populus Romanum através
do “transcrito público”
O objetivo da elaboração
deste texto é trazer algumas contribuições para o estudo da concepção
dos romanos sobre o Imperium e a relação de poder existente
durante o Principado. Para tanto, recorremos à prática analítica
chamada de análise do discurso, para a qual os discursos são
entendidos como produtos culturais empíricos produzidos por eventos
comunicacionais cujo sentido somente pode ser entendido se
contextualizado social e historicamente. Nesta prática analítica os
produtos culturais são entendidos como textos, como formas empíricas
de uso da linguagem verbal, de imagens ou outros sistemas semióticos (1).
Inicialmente, parafrazeando o cientista político Eric Voegelin (1979:
7 e ss)
podemos dizer que a representação é uma idéia-chave da ciência
política, a qual pode ser dividida em três partes interligadas: a
sociedade, o poder e a representação. O poder é o elemento
organizador da sociedade, princípio de unidade social, centro propulsor
e coordenador . E a
representação é um vinculo entre a sociedade e o poder, sintonizando
a ação dos governantes e as aspirações dos governados. Este é o
primeiro sentido da representação
política, ou seja, diz respeito às instituições representativas.
Trata-se da sociedade representada junto ao poder. Por outro lado, é
necessário considerar o poder enquanto ele representa a sociedade, ou
melhor, a sociedade representada pelo poder. Trata-se da forma como o
poder que governa uma comunidade é representado perante os outros
Estados e para a própria sociedade. A este segundo tipo de representação,
Eric Voegelin chama de representação no sentido existencial. Por fim,
a representação assume ainda um terceiro significado, como valor simbólico
manifestando uma ordem transcendente, a ordem do cosmos. O ato de
governar passa a ser a tarefa de assegurar a harmonia entre a ordem da
sociedade e a ordem cósmica. Posto isto,
entendemos que a sociedade se organizou através das relações “face
a face, do ver e do ouvir”, produzindo, reproduzindo e criando,
durante a sua História, imagens textuais e icônicas, com as quais
nomeavam, representavam e simbolizavam a sociedade e os que nela viviam
(Coulet,
1996). A diversidade de comportamento e conhecimento demonstra a existência
na sociedade de um série de discursos de naturezas diferentes tais
como: textos de diversos gêneros, esculturas, estátuas, esquemas
variados de composição arquitetônica, imagens sobre diferentes tipos
de suporte e uma variedade de objetos de uso cotidiano que permitem ao
historiador levantar problemas em relação aos valores, as práticas,
as tensões e aos conflitos sociais . Nosso intuito é
observar a relação entre estes discursos e o poder. Para tanto,
recorremos ao trabalho de J.C. Scott, Domination and the Art of
Resistence (1990) o qual nos oferece um instrumento operacional de
análise para tais discursos, os quais são definidos essencialmente
pelas relações de poder e permitem a criação não somente de formas
dominantes de discurso público - (“transcrito público”, definido
como o auto-retrato da elite dominante, forma como ela quer ser vista, o
qual nos fornece convincentes evidências do sistema de valores da
ideologia de poder), mas de uma série de “transcritos ocultos”
(discursos, gestos, práticas que confirmam, contradizem ou mudam o
“transcrito público”). J. C. Scott pressupõe que as relações políticas
determinam a forma de comportamento entre dominantes e os subordinados
em qualquer sociedade, mas que cada grupo constrói seus próprios
“transcritos ocultos” (superstições, conhecimentos,
ressentimentos, justificativas) desta relação. 39 |
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Hélade 2 (1), 2001: 39-49 “Se o discurso do
subordinado na presença do dominante é um “transcrito público”,
usarei o termo “transcrito oculto” para caracterizar o discurso
existente fora do palco, distante da observação direta dos poderosos.
Não estamos querendo prejulgar as
relações entre aquilo que é dito perante o poder e o que é dito por
trás. Relações de poder não são tão diretas que nos possibilite
chamar de falso o que é dito em contextos que envolvem o poder e
verdadeiro o que é dito fora do palco. Nem podemos descrever o primeiro
como um reino de necessidade e o outro de liberdade. O que é certo é
que transcrito oculto é produzido para uma diferente audiência e sob
diferentes constrangimentos de poder do que o transcrito público.
Avaliando a discrepância entre o transcrito oculto e o transcrito público,
podemos começar a julgar o impacto da dominação do discurso público
” (Scott, 1990: 4-5 Limitar-me-ei ao
transcrito público. No entanto, gostaria de indicar o livro de Yavetz
(1984), como um excelente texto para se começar a pensar na aplicação do
conceito de transcrito oculto para o comportamento da plebe durante o
Alto Império e a análise do discurso colonial constituído pela
cultura material existente nas diversas províncias do império. As formas de domínio,
principalmente aquelas fundadas no poder pessoal, como durante o
Principado, representam uma organização institucionalizada para a
apropriação de trabalho, mercadorias e serviços retirados de uma
população subordinada. Certamente, gera fricção
e somente pode ser sustentada por contínua tentativa de reforço,
manutenção, ajustamento, por atos rituais de poder, os quais são
entendidos como substitutivos para o uso da coerção. Boa parte do trabalho de manutenção
consiste na simbolização através de afirmações discursivas que
visualizam um determinado padrão de poder, tais como: atos de deferência
e comando, cerimonial, punição pública, uso de títulos honoríficos,
procissões, festivais, gestos, comportamento do governante e da elite,
funerais, inaugurações, coroações, produção artística. Estas distintas
formas de transcrito público, cujo papel é seduzir, persuadir e
intimidar os subordinados, exercem na comunicação política as
seguintes funções (2). 1. Afirmar
e ratificar a hierarquia de poder, a potencialidade da coerção e a
estrutura normativa da sociedade; 2. Dissimular
. Ao controlar e custear a organização do transcrito público a classe
dominante cria uma aparência ideal do poder para ser vista pelos
subordinados, protegendo o seu status quo e escondendo aquilo que
deve ser camuflado da sua grandeza e autoridade
3. Eufemizar
. A utilização de eufemismo num transcrito público objetivo
obscurecer algo que é negativamente valorizado e pode se tornar embaraçoso,
transformando e exaltando o seu aspecto
inofensivo, benéfico e positivo. Particularmente é usado para
obscurecer o uso da coerção. Como exemplo poderíamos citar: o uso político
do termo pacificação para ataque armado e ocupação; punição
capital, exílio, confiscações empreendidas pelo soberano como uma
medida exemplar para bem do
Estado. 4. Estigmatizar
atividades ou pessoas que se opõem aos parâmetros oficiais. Rebeldes
ou revolucionários são chamados de inimigos do Estado, rebeldes ou
criminosos; 5. Unanimidade.
As demonstrações públicas que celebram e retratam o poder produzem a
aparência de unanimidade entre a classe dominante e o consentimento do
subordinado, na medida em que são reuniões coletivas autorizadas,
promovidas e custeadas por
aqueles que detém o poder. A exibição de unanimidade é o componente
visual da ideologia hegemônica, fornecendo plausibilidade a eufemização
do poder e buscando promover a integração social. 40 |
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Hélade 2 (1), 2001: 39-49 Tentaremos aplicar
estas funções a quatro modalidades de transcrito público do
Principado, ou seja, à duas estátuas de Otávio Augusto, ao monumento
denominado Ara Pacis Augustae, ao camafeu de Augusto e ao mapa
atribuído à Agripa, buscando-se identificar através da “linguagem
das imagens” construídas em torno da figura do soberano, o sistema de
valores e projeções existentes nas relações de poder no Principado.
Acreditamos que isto é possível porque as imagens conferem sentido e
significados, pois pertence a um determinado contexto histórico e são
socialmente estruturadas. Além disto, a essência ontológica da imagem
a caracteriza como um fator de reconhecimento da identidade romana
frente a alteridade do outro.
Figura 1 - Fonte: Zanker, 1987: 26. Figura 1-Chamada
de Arringatore. Estátua honorífica de uma das principais
personalidades de Perugia, datada do II século
a . C. O retratado veste uma toga exígua e está caracterizado
como membro da classe alta por
causa do amplo debrum na toga , pela túnica e calçado. O homenageado
era identificado como cônsul, pretor, orador, augur. As estátuas
de figuras togadas apresentam um caráter sóbrio e se destacava a
igualdade entre os cidadãos não se permitindo uma glorificação
exagerada dos méritos individuais, a qual seria contraditória com a
exaltação dos interesses coletivos. É a representação
da auctoritas do Orador na sua postura republicana tradicional,
evidenciada pelo gesto do discurso retórico, adlocutio, o qual
nos remete à idéia do vir gravis, pius et sanctus, direcionados
para o coletivo. Figura 2 - Fonte: Zanker, 1987: 226. Figura 2 -
Estátua de Augusto procedente da vila de Lívia situada junto à Prima
Porta, designada também por Thoracata (estátua com couraça).
Trata-se de uma cópia em mármore de uma estátua de bronze que
provavelmente foi feita após a derrota dos partos, nos anos 20 a.C. Foi
oferecida por um cliente. Retrata Augusto como um radiante general,
sustentando na mão esquerda a lança. numa posse que comunica sua auctoritas:
os gestos de comando representados pelo braço direito são associados
ao simbolismo da estátua do Orador. Associa à Augusto uma áurea
divina, pois a inexistência de calçados terrenos deve ser entendida
como uma reminiscência das imagens dos deuses e heróis e a figura de
Eros é uma referência à Vênus como sua ascendente.
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Hélade 2 (1), 2001: 39-49 O retrato de Augusto
e a representação do corpo foram elaborados segundo a arte grega do Vº
século a C. A couraça aparece uma representação do céu e da terra.
Figura 3 - Fonte: Zanker, 1987: 227. Figura 3 - Nos ombros são representadas duas esfinges, guardiões do mundo e na parte de cima aparece em seu carro a divindade Sol e a Lua, a qual é representada de forma eclipsada pela superposição da figura alada da Aurora, anunciando o amanhecer . Entre ambos vemos Caelus, estendendo a cobertura do firmamento. No centro da couraça é retratado o Rei dos partos entregando a um representante das legiões romanas ou ao próprio deus Marte Ultor (vingador) as insígnias romanas, que haviam sido apoderadas após a derrota dos romanos na batalha de Carres, em 53 a .C.. Na parte lateral da couraça são representadas figuras femininas, as quais simbolizam os povos conquistados, possivelmente da Espanha e da Gália, cuja subserviência está demonstrada pela inexistência de espada na bainha de uma das figuras e pela posição de lamentação de ambas. Na parte de baixo aparece a imagem da deusa Tellus, mãe-terra com a aurea copia. . Ao redor de Tellus; aparecem o deus Apolo cavalgando um grifo (*) e a deusa Diana um cervo. Todas estas imagens
afirmam a liderança militar, a virtus, o meritum do Princeps,
reforçando a sua representação como vitorioso, defensor da providência
e da vontade divina e iniciador do
saeculum aureum.
Figura 4 - Fonte: Zanker, 1987: 150. Figura 4 - Estatua
de Augusto como um sacerdote togado, datada do ano 12 a .C.
A amplitude da toga imperial passa a ser a moda. Imagem humilde
de Augusto togado em atitude de oferecer um sacrifício. Uma alusão direta a
Augusto como um novo Numa, na medida em que era o responsável pela
realização da restauração da antiga religião.
Figura 5 - Fonte: Wheeler, 1991: 164. 42 |
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Hélade 2 (1), 2001: 39-49 Figura 5 - Paramento de mármore que circunda o Ara Pacis Augustae. Monumento construído pelo Senado entre 13-9 a.C., no Campo de Marte, para celebrar o feliz retorno da expedição de Augusto à Gália e Espanha. Decoração do paramento é bastante significativa para celebrar a paz, a vitória e afirmar a sua ligação com a tradição clássica e com a comunhão com os deuses, assim como, ratificar e a hierarquia das relações de poder. A parte da frente do Altar do lado norte é decorado com o alto-relevo de Marte, no lado sul outro painel representando a chegada de Enéias à Itália. Do lado oposto a decoração é composta de um painel dedicado à deusa Roma e outro a Vênus, Ceres e Tellus. Nas laterais do lado sul e norte são representados uma procissão sacrificial.
Figuras 6.1 e 6.2 - Início da procissão Augusto é representado realizando o sacrifício à Pax Romana cercado pelos sacerdotes. Ao empreender o culto, Augusto é colocado na posição de Sumo Pontífice. Otávio Augusto é afirmado como o mediador entre os deuses e os homens, assim como, o conceito de que a paz é o resultado da vitória militar a qual assegura o poder de Roma na terra e no mar. Augusto é seguido pelos flâmines, por Agripa com a cabeça coberta e por membros da família imperial.
Figura 7 - Fonte: Wheeler, 1991: 166. Figura 7 - No lado norte a procissão prossegue com os senadores, algo que reafirma a hierarquia das relações de poder (Princeps, sacerdotes, familiares imperiais, senadores) e a projeção ideal do Estado renovado sob a égide de Augusto, auctor perpetuo da paz.
Figura 8 - Fonte: Zanker, 1987: 209. Figura 8 - Painel da Ara Pacis que simboliza a Paz com as alegorias da fecundidade da natureza e dos seres humanos. Divindade maternal com uma vestimenta clássica está sentada sobre um rochedo, segurando crianças nos braços. Ao seu redor há frutas, espigas e gado. A divindade é uma polissemia iconográfica: a vestimenta é um atributo de Vênus, o véu e a coroa nos remetem a Ceres e o rochedo a Tellus. Ao lado desta divindade se vê duas aurae, personificação gêmeas dos ventos do mar (monstro marinho) e da terra (cisne). 43 |
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Hélade 2 (1), 2001: 39-49 Figura 9 - Fonte: Zanker, 1987: 217. Figura 9 - Painel complementar com motivos naturais baseados na vegetação.
Figura
10 - Fonte: Ramage, 1995: 101. Figura 10 - Painel
representando a chegada de Enéias à Itália O observador deveria
ler nestas imagens simultaneamente a vinculação existente entre a paz
obtida pelo fortalecimento da virtus do exército romano, a
qual possibilitava o otium cum dignitate (liberdade de espírito),
a tranqüilidade, a Normalização da Vida, Prosperidade e Estabilidade. Uma paz protegida e testemunhada pelos deuses e resultante de
uma ordem jurídica, religiosa e moral que devia ser mantida por todos e
assegurada por Augusto. Além disto, a estas imagens deve ser associada
a ideologia do imperium sine fine baseada no valor relativo das
fronteiras provinciais, as quais não formavam um limite real à
atividade dos magistrados. No interior de uma província ou de uma região
colocada sob a autoridade de Roma como reino amigo (rex socius et
amicus ) a autoridade de Roma continuava a ser exercida. Por outro
lado, também era fundamental a afirmação dos vetores fundamentais da
identidade romana frente o outro, conforme pode ser visualizado
pelas figuras abaixo. Figura 11 - Fonte: Ramage, 1995: 116. Figura 11 - Camafeu de Augusto Aproximadamente ano
10 d.C. Peça em ônix (19x23 cm) com dois filões: um azul escuro outro
branco. Artista esculpia as figuras no filão branco e removia o
restante para aparecer o fundo azul. Retrata a ligação
entre o mundo real e o mundo divino, através da representação de duas
cenas: Parte Inferior - Simbolismo do Triunfo - soldados romanos
erguendo um troféu sob o olhar de um inimigo vencido com as mãos
amarradas ao lado de uma mulher, cuja expressão denota sua resignação.
Direita inimigo ajoelhado e uma mulher sendo arrastada. Simboliza a
guerra, vitória, superioridade, força, domínio em relação ao bárbaro
(guerreiros fortes, porém humilhados) Parte Superior - Simbolização
do caráter providencial e divino de Augusto - Augusto é
representado como Júpiter, conforme indica a águia aos seus pés,
sendo admirado pela deusa Roma sentada a sua direita, cuja representação
lembra Lívia. Ao lado da deusa Roma está representado um jovem príncipe
com roupas militares que possivelmente é Germanicus Augusto segura o
bastão de comando e está sendo coroado pela deusa OIKOMENE (TELLUS
- Terra) - idéia de mundo civilizado, personificação de império
universal desde Alexandre. Do seu lado esquerdo está representado
Netuno e Itália (Terra Mãe) cujos atributos Cornucópia e Crianças
significam a prosperidade. Acima de Augusto vemos a imagem do globo
marcado com o seu signo astrológico (capricórnio). Augusto está
olhando para Tibério que desce de sua carruagem guiada pela deusa Vitória.
Representa a vitória de Tibério, já o indicando como sucessor de
Augusto. 44 |
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Hélade 2 (1), 2001: 39-49 Fonte:
Nicolet, 1994: 41. A
concepção de domínio universal também é expressamente veiculado por
este mapa elaborado possivelmente entre o ano 2 e 10 d. C. atribuído a
Agripa. Os dois espaços fundamentais que estruturavam o universo mental
dos romanos são a Urbs et orbis terrarum. A Urbs é o
centro do mundo, a cidade da vida social, do prazer, dos templos, da
riqueza, da cultura e do poder. O orbis terrarum é representado
gradualmente no momento da conquista por ocasião das cerimônias de
triunfo. Ao longo do desfile eram apresentados os mapas com a lista das
cidades, os nomes das montanhas e rios conquistados, projetando-se,
conforme o conhecimento cartográfico da época, a forma e a distância
das regiões submetidas. Após a cerimônia estes mapas eram pintados
nos muros dos templos de acordo com o ritmo das conquistas.
Evidentemente, por razões políticas e administrativas estes mapas
tinham como objetivo visualizar a posse do mundo. Com o estabelecimento
solene do Principado, em 27 a . C., consolidou-se a missão divina de
conquista, dominação, pacificação e organização de todo o mundo
pelos romanos sob o governo do Princeps. Tal concepção ecumênica
foi veiculada pela Res Gestae Divi Augusti, cujo caráter
figurativo pode ter sido o principal objetivo da elaboração de um mapa
universal do mundo romano. Estas afirmações
discursivas confirmam através do elemento figurativo o mesmo ethos encontrado
no discurso histórico, biográfico, filosófico, na poesia, nas moedas,
na epigrafia, cuja análise intertextual nos remete para um padrão de
domínio baseado no poder pessoal e numa ideologia patronal. Vejamos por
quê? No final do período
Republicano e com a criação do Imperium Romanum foi necessário
uma adaptação na imagem
de Roma como força ordenadora, cidade que por seus deuses, seus
ancestrais e experiência histórica concreta, se colocava como superior
a todas as outras. Em De
Legibus (ii,
5),
Cícero se apropria da idéia estóica de cosmopolis e se diz possuidor
de duas pátrias: a cidade em que nasceu (Arpinum) e Roma (cosmopolis)
. Portanto, todos teriam Roma como pátria. A construção de uma
nova representação de Roma teve de ser elaborada fora do âmbito da
construção republicana, porém em torno de práticas existentes nas
relações de poder, ou melhor, em trono da figura do Princeps. Através do Princeps
as elites romanas tencionavam reviver os ideais de res publica,
ou seja, a preservação da sua base material pela proteção da
propriedade privada, dos seus privilégios sociais e pela segurança
pessoal do indivíduo, afastando os abusos do tempo das guerras civis. O
Princeps congregava o sistema de valores e peculiaridades
culturais que significavam um padrão de perceber, crer, avaliar e agir,
tanto quanto um código de categorias destinado a orientar o
desenvolvimento das relações sociais.
No âmbito das relações interétnicas este código tende a se
exprimir como um sistema de oposições ou contrastes, uma identidade
contrastiva, cujo conjunto dos modos de identificação seriam da ordem
do discurso, particularmente, um discurso ideológico (3).
Tal discurso representa o projeto de identidade romana, o qual pode ser
entendido como a prática da Romanização. 45 |
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Hélade 2 (1), 2001: 39-49 Pela tradição
republicana o título de Princeps -(o mais eminente cidadão do
Estado) era dado a um cidadão que ocupasse uma posição de liderança
e destaque na cidade obtida pela consagração de sua popularidade, dignitas
e auctoritas. A formação de uma
numerosa clientela era privilégio dos membros da nobreza patrício-plebéia
e os mais importantes senadores de nível consular eram os patronos mais
poderosos: os principes civitatis. Dentre eles um poderia
ascender à condição de líder inquestionável se pertencesse a uma
das tradicionais famílias patrícias e tivesse o título de princips
senatus. A sociedade romana
republicana se caracterizava pelas relações verticais, a qual formava
uma complexa rede de relações pessoais, organizada hierarquicamente,
pois os clientes de um patrono poderoso podiam ser, eles próprios
patronos de clientelas consideráveis e organizadas competitivamente
para a luta pela obtenção de prestígio, honra e glória.
Este mesmo
comportamento fica evidente quando Otávio em 32 a .C., pelo juramento
de lealdade a Otávio, como um chefe de partido - (pro partibus suis)
- , da Itália e da províncias ocidentais (Res Gestae) Ressaltamos, ainda,
que a apropriação do título de imperator pelo princeps,
a partir de César e depois com Augusto foi praticamente automática e
conferia maior prestígio. Isto alia-se ao caráter sagrado que envolvia
a concepção de imperium. Trata-se de uma força transcendente,
simultaneamente criativa e reguladora, capaz de agir sobre o real e de o
submeter a uma vontade. Poder inerente a Júpiter que o transmite ao
magistrado escolhido pelo povo romano. Pela tradição no término da
batalha os soldados vitoriosos aclamavam o chefe conferindo-lhe o título
de imperator. Conclui-se
que tal título era fundamental para a ideologia da vitória, pois
somente a vitória numa batalha permitia esta aclamação, a qual ainda
deveria ser confirmada por uma decisão do Senado. A vitória era vista
como uma inspiração vinda diretamente dos deuses, e em primeiro lugar
Júpiter. Assim, através do título de imperator, também
utilizado por Júpiter, um mortal era identificado como imortal (Grimal, 1993: 9 ss Concordamos com o historiador R. Syme (1960: 386) no sentido de que a posição do imperador foi baseada em laços patronais com seus adeptos, pois sob Augusto a competição política foi esterilizada e regulada através de um amplo sistema de patronato, encabeçado pelo Imperator . Por patronato
entendemos um relacionamento de troca assimétrica de bens e serviços
entre homens de status
social desigual. Logo o relacionamento entre patrono e cliente é
essencialmente instrumental baseado na atuação e distinto das relações
de amizade, cuja base não é a utilidade e sim a virtude. As palavras básicas
que definem a prática do patronato são officium, beneficium,
meritum e gratia, cujos significados nos fornece uma idéia clara da
reciprocidade ética, a qual é a condição sine qua non das
sociedades patronais (Saller, 1982: 15) 46 |
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Hélade 2 (1), 2001: 39-49 Conforme vimos a
simbologia das imagens veiculadas pelas estátuas e pelo Altar da Paz
representa o ethos augustano, o qual se fundamentava na auctoritas
do Princeps. A idéia de auctoritas deve ser entendida
como um processo, ou seja, o desempenho de uma perpétua liderança
militar, uma ação contínua como o maior benfeitor da Res publica,
não somente pela demonstração das suas virtudes (prudência, justiça,
sabedoria, clemência, pietas, gravitas), pelas suas ações e
realizações (meritis), como também por ser o mais rico. Desta
forma, Augustus (adjetivo com amplo campo semântico: nobre,
venerável, sagrado, podendo ser associado a augere, aumentar,
engrandecer) (Zanker, 1987: 124)
é o auctor perpetuo, o fiador da paz, da estabilidade, da
segurança e da ordem . Todos estes atributos o fazem do Princeps
um modelo ideal, afastando-o da idéia de tirania e o possibilitou
encarnar a maiestas de Roma que na República pertencia ao povo
romano, tornando-se o Pai da Pátria e
Pater Orbis . Parece-nos que as
imagens analisadas afirmam e estigmatizam o Imperator Caesar Augustus
como o grande patrono do Senado, do povo romano e de todo genus
humanum. Os transcritos públicos analisado nos transmitem a
mensagem de que o Imperator e os súditos acreditavam que o
beneficium imperial criava um débito (officium), o qual devia
ser reparado pela gratidão (gratia) . A relação de troca entre
o imperador e seus súditos podia dificilmente ser em termos iguais,
dada a disparidade de recursos e poderes. Como Sêneca aponta os
imperadores “são colocados pela Fortuna numa posição na qual são
capazes de oferecer muitos favores mas receberam muito poucos e
inadequados presentes em troca ” (De Bem.5.4.2) Enfim, a partir de Otávio
Augusto já não se vê mais princeps civitatis com suas
respectivas factiones, mas um único Princeps do senado,
do povo e de todo o genus humanum. A posição retora
deste princeps na sociedade romana estava baseada nos antigos princípios
que regulavam as relações sociais republicanas. Seu poder era
ilimitado e não havia brechas para o desenvolvimento de uma ideologia
de poder alternativa. De posse da tribunicia potestas ,podia em
qualquer momento fazer uso da iniciativa legislativa ou em amparo do
povo romano adotar qualquer resolução que lhe agradasse. Este poder
foi complementado em 18 a. C. quando Augusto recebeu do Senado a atribuição
de velar pelos costumes e pela lei, a cura morum et legum , quer
dizer o poder de censor. Isto o possibilitou controlar os ingressos na
ordem senatorial e eqüestre, assim como, expulsar e banir aqueles
julgados inimigos do Estado Romano. O Imperador ascendia à posição de
supra leges (Wirszurbski,
1968). Como portador do título
de imperium proconsulare maius governava e exercia a liderança
militar sobre toda a extensão do mundo romano, seja através da sua
influência sobre o Senado, seja através de seus legatus. Na qualidade de pontifex
maximus, garantia a pax deorum, exercendo a posição de
mediador entre os homens e os deuses. Cabia-lhe a gerência
sobre o Fisco (tesouro nutrido pelos impostos das províncias
militares), sobre o Tesouro Militar (alimentado pelos impostos indiretos
e destinado ao pagamento do exército) e do Patrimonium (constituído
pelas propriedades da família imperial). Desta forma, controlava a
maior parte da riqueza do Estado, ficando fora de sua gerência apenas o
Tesouro de Saturno, o qual era freqüentemente socorrido pelo Imperador.
Assim, era o possuidor da maior fortuna do império e, consequentemente
podia atuar como o seu supremo benfeitor. Sem dúvida devemos
concordar com L. Harmand (1957) no sentido de que no Alto Império se
desenvolveu o patronato sobre as coletividades públicas, o qual
adquiriu um aspecto muito mais social e administrativo do que político. Entretanto, nem a supremacia absoluta do imperador conseguiu
anular a importância das relações pessoais privadas (4). O patronato se
desenvolve na sociedade romana como um instrumento de obtenção não
regular de recursos, sem o qual os clientes (como indivíduos ou o
conjunto da população urbana ou rural), não tinham outra forma de obtê-los
ou de se proteger contra as adversidades (5). 47 |
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Hélade 2 (1), 2001: 39-49 Esta ampla rede de relações
pessoais não pode ser reduzida, todavia, à simples dimensão de troca
de serviços e favores entre indivíduos. Agiu como um forte agente de
controle social e como um mecanismo regulador de teor
altamente promocional, o qual foi determinante para o equilíbrio social
e compensava, de certa forma, as insuficiências das estruturas
administrativas do centro. Através do Diagrama
abaixo se pretende visualizar que as relações de poder no Principado
foram caracterizadas por uma rede de reciprocidade diádica sempre
articulada verticalmente, sendo que a hierarquia
e a autoridade do patrono supremo (Imperador) representava o elo
de união social (Scott, 1990: 65, ss.
Fonte: Scott, 1990: 62. No caso do Principado, apesar da existência de clientelas privadas de status variados a posição única do imperador o colocava acima de todos como o grande elo de ligação. Portanto, as mensagens veiculadas pelos transcritos públicos analisados demonstram que a busca de unanimidade coletiva em torno da figura do supremo-patrono, o Imperator Caesar Augustus, foi um fator imprescindível para a consolidação do Império Romano numa entidade muito mais unificada do que um conjunto de províncias, através de uma política de Romanização realizada por dois instrumentos de poder: o exército e a cidade e para a coesão social durante o Principado.
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