ISSN 1518-2541

Hélade 2 (1), 2001: 31-38 

Sumissão:  Mar/2001; Aceitação: Abr/2001

Julio Gralha

Professor Mestre em História Antiga pela UFF, Pesquisador do CEIA-UFF.

e-mail: jgralha@attglobal.net 

O Templo Egípcio a Mansão Dos Milhões de Anos

 

        

   Provavelmente a maior concentração de iconografia e textos está nos templos, que também são elementos de legitimidade, poder e culto para o monarca e para o deus.  A Capela Vermelha de Hatshepsut, os templos de Akhenaton em Karnak e os templos de Luxor e Abu Simbel,  no tempo de Ramsés II, são alguns exemplos do Reino Novo (1550-1070 a.C.)

   Os egiptólogos costumam dividir os templos egípcios em vários tipos, entretanto duas categorias são mais importantes: a primeira relacionada àqueles que são dedicados ao culto dos deuses e a segunda,  aos ritos funerários (SHAFER, 1999: 2). Esta divisão  não pode ser tomada como regra geral, sobretudo no Reino Novo, período em que  a relação entre o deus e o monarca  é tal, que o templo mortuário se torna o lugar para o culto de ambos (SHAFER, 1999: 3). É o caso por exemplo do templo de Ramsés II em Abu Simbel (fig 04).

   Costuma-se pensar no templo como local exclusivamente sagrado, mas no Egito ele possuía uma função social.  Além de representar  o  céu e o mundo inferior,  possuía certa vinculação com o mundo natural, como elemento que estava inserido na esfera política, econômica e social,  tornando-se  elemento de grande importância para a organização do Estado (SHAFER, 1999: 3). O templo era o cosmo no microcosmo, representava o corpo do deus no Período Raméssida, era local de troca, redistribuição e mercado na economia egípcia. Ele também empregava um grande número de pessoas, sacerdotes, funcionários estatais, escribas, artistas, escultores, padeiros, carpinteiros, etc. (SHAFER, 1999: 8). Talvez a característica  de maior  interesse aqui seja a de configurar o lugar onde a dualidade representada pelos deuses (ou pelo deus primordial) e pelo o monarca divinizado pudesse manter a ordem universal,  afastando, pois, o Caos.

  O templo mortuário ou funerário, termos adotados pelos egiptólogos do século XIX (HAENY, 1999),  foi construído para sustentar a vida daqueles que tinham passado para o além-túmulo. Em períodos remotos, os egípcios acreditavam que havia a necessidade de suprir de água e alimento  o ka do falecido.  Esta prática continuou no Reino Novo, mas segundo pesquisas recentes (HAENY, 1999: 87), de uma forma simbólica. Pensava-se que os egípcios acreditavam que o ka seria alimentado através da essência das oferendas. Por exemplo: ao ofertar flores que representavam a regeneração, o  atributo “regeneração” era o que seria recebido pelo  ka ( o espírito)  do rei em vida ou na morte. 

   Recentemente passou-se a usar o  termo “Memorial Temple” (HAENY, 1999: 123)  que poderíamos traduzir como  templo dedicado à memória do monarca, uma vez que “alimentá-lo” não seria a única ação. Ao que parece, havia uma ritualística para manter viva a memória do rei, haja vista que o monarca era um deus. Assim, o templo além de possuir ritos funerários e ritualística em memória do monarca era também, o local de culto  aos deuses. No entanto, o templo já funcionava durante a vida do faraó construtor.  Acreditamos que este templo tinha mais uma função, não era somente o local de culto à memória do rei, mas também o local em que o monarca era cultuado como deus em vida e  após a sua morte, perpetuando assim, a sua memória. Observa-se que a melhor forma de designar  esta categoria de templo múltiplo foi a proposta por Gerhard Haeny, ou seja, tratá-lo como “A Morada dos Milhões de Anos”, termo encontrado nas inscrições egípcias que representaria o templo, não importando muito sua estrutura física, ligada ao reino do mítico-religioso e onde  a imagem do rei, poderia encontrar o deus, ou deuses,  “por milhões de anos” (HAENY, 1999: 90).

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   O templo podia ter um tempo sagrado e tornar-se um espaço santo quando unido aos rituais e festivais. Seria o lugar e o momento onde os homens e os deuses poderiam estar unidos, aparecer de forma transparente num processo de comunicação, no qual seria afirmada diariamente a presença da divindade e a renovação dos compromissos entre divindade e homens e vice-versa. Desta forma, o monarca tornaria-se representante e mediador da humanidade, reafirmando a vitória da existência sobre a não-existência (caos) e afastando tal inexistência para além das fronteiras do Egito. Por conseguinte, o espaço sagrado do templo poderia ser  justificado através dos  mitos cosmogônicos.

   Mediante o exposto, o templo poderia refletir a visão egípcia do Cosmo e a forma pela qual a natureza dual do monarca deveria ser exercida. Assim, a imagem do faraó na parede externa do templo seria colossal (Ver Wilkinson, 1994: 36), podendo ser representada como um guerreiro divino (fig. 01) subjugando os inimigos, que, apesar de serem desenhados como  humanos, podiam  representar as forças caóticas  a serem derrotadas ou como em Abu Simbel Ramses II rivalizava com os deuses.   

 

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Figura 1 - Monarca na parede externa do templo abatendo inimigo.

Referência:  Foto de Julio Gralha, 1995 (Nesta cena do templo ptolomaico da ilha de Filae, o rei abate inimigos, que podem ser representações míticas  do caos a ser combatido pelo faraó).

   Ramsés II  aparece esculpido  na parte externa do templo,  em  quatro estátuas colossais (fig. 02). Para o pensamento egípcio o número quatro (Ver Wilkinson, 1994:133) poderia representar a totalidade  no universo ou a complementariedade.  Ramsés II poderia ser entendido  como divindade complementar dos três deuses, Ra, Amon-Ra e Ptah. As quatro estátuas poderiam simbolizar  os quatro pontos cardeais e representar o pilone, o horizonte do templo, pelo qual o Sol viajava (Neste caso, a estátua de Ra-Harakhty ao centro). Desta forma, acreditamos que Ramsés II seria o horizonte pelo qual Ra-Harakhty passaria em sua jornada diária, o que poderia estabelecer uma associação com o deus Ra. Tal construção, deve ter sido vista  a longa distância, como um marco de poder  que devia ser respeitado, temido e  deve ter gerado um impacto significativo nas populações egípcias e estrangeiras da fronteira sul. 

   Não era comum o deus ser descrito em proporções menores que o monarca. Entretanto, como as estátuas de Ramsés II representavam o horizonte (os pilones) e a luta contra o Caos, pensamos que isto poderia explicar, em parte, tal situação. (1) A assimilação divina de Ramsés II também pode ser exemplificada pela relação do seu nome com o nome de Ra-Harakhty  nesta fachada (fig. 03). Ramsés II aparece de ambos os lados da imagem de Ra-Harakhty oferecendo-lhe a deusa Maat, ratificando o compromisso com o princípio de Justiça e Verdade. Além disso, a disposição da deusa Maat e do deus Ra-Harakhty descrevem o nome de coroação de Ramsés II: User-Maat-Ra.  De uma forma iconográfica, ele estabeleceu  a assimilação divina.

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   No santuário central (fig. 04), na parte mais profunda do templo, o monarca aparece como um deus, e o que é mais importante, representado no mesmo nível hierárquico, na mesma forma, na mesma proporção, tendo o mesmo tipo de material, as mesmas ações e gestos (2) dos três grandes deuses. No santuário, as divindades são em número de quatro, acreditamos que fazendo também  alusão ao simbolismo  do número quatro que estabelecia entre o monarca divinizado e os deuses uma relação de totalidade e complementariedade, o que pode ser entendido como uma forma de assimilação divina. Parece que nenhum outro monarca  realizou tão bem a tarefa de ser aceito como deus vivo.  Mesmo Akhenaton com sua religião, não chegou a tal ponto de aceitação pelos segmentos da sociedade egípcia como no caso de Ramsés II.

 

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Figura 02 - Fachada do Templo de Ramsés II em Abu Simbel

   Referência:  Foto de Julio Gralha, 1995  (Nota-se entre  as quatro estátuas de Ramsés II acima da entrada a representação de Ra-Harakhty.  Acreditamos que os colossos representavam os pilones, o horizonte por onde o Sol trafegava. Ramsés II  seria o horizonte de Ra-Harakhty).

 

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Figura 03 - Ramsés II e Ra-Harakhty na fachada

Referência:  Foto de Julio Gralha, 1995  ( Apesar de não visível aqui, atrás deste colosso existe um baixo relevo  que  relaciona Ramsés II e Ra-Harakhty).  

 

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Figura 04 - Santuário dos quatro deuses em Abu Simbel

Referência:   Foto de Julio Gralha, 1995  (No interior do santuário podemos ver da direita para esquerda Ra-Harakhty, Ramsés II, Amon-Ra e Ptah. Nota-se que Ramsés II é um igual entre eles e, que nesta ordem, é  o segundo deus a receber a luz do Sol, mostrando  sua importância  e que esta à frente de Amon-Ra e Ptah).

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   A idéia primordial era representar a vitória sobre o caos que deve ser   afastado. Além  disso, a  visão de um pilone egípcio a que se associavam  estátuas colossais,  ricamente decorado com a representação do monarca, pode ter propiciado, através da imagem, uma forma de legitimidade do rei como representante maior  na teocracia faraônica para as populações  - o que Ramsés II parece ter feito muito bem.   Contudo, nas áreas internas do templo, onde  o acesso era restrito a alguns segmentos sacerdotais, o monarca era representado em proporções menores, sendo entendido como um elemento da humanidade que cuida e atende às necessidades dos deuses,  especialmente o pai divino, deus dinástico, que irá abençoá-lo, prometer  apoio, fortificá-lo e garantir o poder necessário a  manutenção do mundo dos homens e do mundo natural, afastando, portanto, todo o caos.

   É importante notar que, mesmo em dimensões reduzidas, normalmente o monarca tem a mesma proporção dos deuses. A hierarquia do deus é dada por outros elementos como, por exemplo, estar acima ou sobre uma plataforma mantendo a cabeça no mesmo nível, o que chamamos de isocefalia (Wilkinson, 1994: 46).

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    Figura 05: Templo Ptolomaico da Ilha de Filae

   Referência:   Foto de Julio Gralha, 1995  ( No templo da ilha de Filae, na Núbia,  próximo à cidade de Assuã, podemos ver os pilones com uma abertura por onde miticamente o Sol passaria).

O templo, como representação do Cosmo egípcio (fig. 05), possuía  elementos do mundo natural. Assim, o telhado representava o céu e era decorado com estrelas e protegido por divindades aladas. A deusa Nekhabit, na forma de um abutre, pode ser encontrada no teto de vários portais. Nos templos dedicados ao deus Aton de Akhenaton não existia teto, assim  Aton podia, pois, estar realmente lá, com seus raios e iluminar as oferendas. À  noite, a céu aberto a presença das estrelas era um sinal do repouso do criador  no horizonte.

   O solo podia representar a lama primordial que surgiu do Nun, o oceano primordial, de acordo com o mito cosmogônico e as divindade(s) às quais o templo estava relacionado.  Os salões e as grandes áreas internas eram decorados com colunas, representando papiros, lótus e palmas que também  simbolizavam   os hieróglifos. A medida que se passava de uma sala a outra, as dimensões  iam sendo reduzidas  até  o santuário, que podia representar a colina primordial que emergiu das águas do oceano primordial.

   O muro que circunda o templo podia ser construído na forma do hieróglifo da água, representando  as  águas primordiais,  as quais estão para além do templo que agora está em terra firme, no primeiro solo sagrado. O muro poderia simbolizar, portanto, a fronteira entre a existência e  a não-existência. Os pilones, a entrada do templo,  representariam  as duas montanhas do horizonte entre as quais o sol nasceria todos os dias. Na arquitetura  dos templos de Akhenaton, dedicada ao deus Aton, podemos perceber aberturas nos pilones como  forma de eliminar sombras.

 

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   Figura 06: Representação de Akhenaton no Templo de Aton em Karnak

    Referência: Foto de Julio Gralha, 1995, Museu do Cairo (Akhenaton e Nefertiti aparecem no pilone do templo. Nefertiti além de estar atrás do rei, é desenhada em proporção menor evidenciando a importância do monarca. Entretanto, a cena reforça a idéia de uma tríade de Aton. Nota-se que a cornija não é contínua, assim como a parte superior da entrada impedindo a geração de sombras).

 

   Neste breve artigo extraído da dissertação de mestrado apresentada a UFF em Agosto/2000 com o título de “A LEGITIMIDADE NA TEOCRACIA FARAÔNICA: A imagem do deus dinástico  e do monarca no Reino Novo 1550 –1070 a.C.” procuramos mostrar a função dos templos e como certos monarcas se utilizaram dos mitos e da religião como forma de legitimidade no poder. Para um estudo mais profundo consulte a bibliografia em anexo e a dissertação.

 

 

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NOTAS

1 - Entendemos que nas paredes  externas, Ramsés II é o deus que afasta o caos do Egito, porém serve  a seu “Pai” Ra-Harakhty.

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2 - C.f. os tipos de Wilkinson no capítulo III.

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