|
ISSN 1518-2541 Hélade 2 (1), 2001: 50-52. Fábio Faversani Professor de História Antiga e-mail: faversan@feop.com.br
Grécia e Roma FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Grécia e
Roma. São Paulo: Contexto, 2001. (Repensando a história). 143 pp.
Surge um novo livro de divulgação escrito pelo Prof. Pedro Paulo Abreu
Funari. Uma diferença com relação aos anteriores é que, desta feita, o autor
não centrou mais claramente a análise em torno de um tema. Foi isso que fez
em seu Cultura Popular na Antigüidade
Clássica e em Império e Família em Roma.
Ambos estavam focados em um período histórico, o Alto Império Romano, e em
temas mais circunscritos. Também diversamente do que fez quando escreveu Antigüidade Clássica, o autor ficou
mais preso à cronologia tradicional. Na obra que publicou pela Editora da
Unicamp, em 1995, predominava a organização em torno de temas a serem
analisados a partir dos documentos. Nesse caso, predomina uma apresentação
panorâmica com o estudo de alguns problemas a par dessa apresentação. Quando trata da Grécia, é priorizado
o estudo dos diferentes momentos da vida de um grego (inserindo-se aí uma
discussão sobre a utilidade do conceito de classe social e vida privada para
o estudo da Antigüidade Clássica), além de se analisar também a sexualidade,
a religião, o pensamento racional e a arte gregos. Quando trata de Roma, os temas
priorizados são parecidos: os momentos da vida de um romano, a sexualidade, a
vida cotidiana, a religião (com destaque para o papel do Cristianismo para o
fim da civilização romana clássica), a cidade e a cultura (enfatizando a
pluralidade existente no Império). Ao final da obra são apresentadas
sugestões de leitura, constando da bibliografia autores antigos e modernos, e
uma linha do tempo. O livro é mais uma contribuição do
Prof. Pedro Paulo Abreu Funari para a difusão da Cultura Clássica no Brasil.
Oferece aos interessados um amplo panorama da civilização greco-romana,
levando o leitor a percorrer algumas dezenas de séculos, diversos milhares de
quilômetros e uma miríade de aspectos da vida clássica que ainda influenciam
nosso dia-a-dia e instituições. O autor faz um esforço para
mostrar que a Antigüidade Clássica não está tão distante de nós. Mostra que
algumas expressões e adjetivos que usamos ainda hoje são originários daquele
momento histórico (e.g. calcanhar
de Aquiles, cavalo de Tróia, presente de grego, espartano, draconiano,
ostracionismo, pão e circo, a última flor do Lácio). Do mesmo modo, tenta-se
mostrar que gregos e romanos legaram algumas contribuições que são
indispensáveis à nossa existência histórica tal qual ela se apresenta
contemporaneamente (e.g. cidadania,
pensamento racional, concepções artísticas e religiosas, o direito). Como diz
o autor na introdução "procurei apresentar alguns dos principais temas
recorrentes em nosso dia-a-dia" (p. 12). O livro talvez possa ser
caracterizado, assim, como uma apresentação do legado clássico para a
história ocidental. Tentar caracterizar a existência
de um legado como fragmentos que se preservaram desde a Antigüidade Clássica
até nossos dias não é tarefa simples. Afinal, como afirma o autor "somos
nós que imaginamos as outras épocas" (p. 12) e há diversas maneiras de
fazê-lo a cada tempo e ao longo dos tempos que se sucederam desde lá até
hoje. A opção de Funari nessa obra foi dar ênfase "a ditados, frases,
acontecimentos, conceitos, e textos antigos que, de uma forma ou de outra,
fazem parte da chamada ‘tradição ocidental’" (p.12). 50 |
|
Hélade 2 (1), 2001: 50-52.
Na introdução é dito que "foram introduzidas, no decorrer do volume,
diversas discussões recentes sobre o mundo antigo, apresentando não apenas
um, mas vários pontos de vista, a fim de que os leitores possam ter uma noção
mais precisa das várias maneiras de pensar essas sociedades" (p. 11).
Essa proposta parece interessante, em especial quando o eixo do livro se
dedica a algo tão polêmico – e que se mostrou dinâmico ao longo da história –
quanto a apresentação de um legado clássico para a "tradição
ocidental". O autor mostra um pouco desse dinamismo ao, em algumas
passagens, destacar que a afirmação de um certo legado clássico levou à
sustentação de regimes autoritários nazifascistas e acabou sendo repensada no
que se refere ao seu conteúdo por conta dos efeitos nocivos que gerou. Mas é isso que predomina na obra?
Pela minha leitura, pessoal e refutável por definição, não. A polêmica
prometida quase não aparece. Ela se restringe fundamentalmente a dois momentos,
onde se discute se poderíamos utilizar os conceitos de classe social e de
vida privada para estudar o mundo antigo. Quanto ao conceito de classe
social, são apresentadas três posições: 1 pode-se pensar que ele é útil, sim,
por ser um instrumento de análise que nos auxilia na compreensão da dinâmica
social; 2. Contudo a quem alegue que, por os antigos não entenderem classe
como nós, seria anacrônico o uso desse conceito e, por fim, 3. há aqueles que
argumentam que ver a sociedade como sendo formada por classes antagônicas
levaria a análises que destacariam demais o conflito social, subvalorizando
os mecanismos existentes de cooptação e colaboração entre indivíduos de
diversos grupos sociais. O autor opta pela primeira opção. No caso da
polêmica sobre a vida privada, há mais uma argumentação contrária aos que se
opõem ao descarte dessa noção para a análise das sociedades antigas do que a
apresentação mesma do debate. Enquanto, no primeiro caso, mostram-se formas
diferentes e apresentadas como válidas de se interpretar as sociedades
clássicas, no segundo caso parece que está se combatendo um erro analítico,
já que o autor afirma que "na Grécia Antiga, havia sim uma distinção
clara e particular entre a vida pública e a vida privada" (p. 49). O que predomina, contudo, é algo
que o autor combate na introdução, quando afirma que "sempre desconfiei
dos relatos da História que afirmavam que ‘as coisas foram assim e
ponto’" (p. 11). O autor apresenta o legado clássico para a
"tradição ocidental" muito mais do que uma interpretação da
História que sustenta existir um certo legado para o que se afirma ser a
"tradição ocidental". Essa confiança supera a
desconfiança. Por exemplo, afirma-se que "em Atenas, eram considerados
cidadãos apenas os homens adultos (com mais de 18 anos de idade) nascidos de
pai e mãe atenienses" (p. 36). O autor generaliza uma situação que se
fez excepcional, na prática, em uso corrente. Adiante, afirmará que
"cerca de trinta mil escravos [atenienses] trabalhavam nas minas de
prata, das quais se extraía metais para armamentos, ferramentas e
moedas" (p. 39). Talvez tenha se expressado mal. Contudo, para quem lê,
fica a impressão que os atenienses usavam armas de prata e aravam seus campo
com instrumentos feitos desse metal... Além de problemas de formulação,
há outros que atribuo à falta de revisão. Por exemplo, na página 82, o fim do
Império Romano é datado de 395 d.C. Na página 133, "o Império Romano
continuou a existir até o século VI no Ocidente e até o século XIV no
Oriente, com o Império Bizantino". Já na página 143, na "linha do
tempo" apresentada ao final do texto, lemos "último imperador
romano no Ocidente (476)". Mas o que realmente nos
surpreendeu são algumas passagens da obra em que revisão e problemas de
formulação não tiram a clareza de análises que expressam perspectivas que têm
sofrido muitas críticas ao longo dos últimos anos de tal sorte que perderam a
hegemonia que tiveram muitos anos atrás. Nada tenho contra, é claro, que se
recupere interpretações tradicionais. Pelo contrário, acho mesmo que muitas
foram abandonadas indevidamente em função da pressão existente para que se
cite apenas o que é mais recente. Mas é preciso, ao recuperá-las, colocá-las
a par das novas interpretações e procurar sustentar porque sua retomada se
mostra relevante. Mas não é isso que é feito pelo autor. Vamos a exemplos. Na página 98 lemos que: "Uma outra transformação importante na sociedade
romana em conseqüência do sucesso das conquistas e da utilização do trabalho
escravo em larga escala foi o aumento significativo do contingente de plebeus
desocupados. A estes juntaram-se as levas de pequenos agricultores arruinados
que faziam crescer os números do êxodo rural e inchar as cidades, sobretudo a
capital. Para amenizar o problema social das massas de desocupados que
habitavam Roma, o Estado resolveu dar-lhes subsídios. Pode-se dizer que Roma contava então com dois grupos
sociais bem distintos: uma minoria muito rica, que constituía o grupo
político dirigente no exército e nas instituições, e uma grande massa de
pobres, que vivia ‘do pão e circo’, ou seja, recebia alimentos a preços
baixos e espetáculos públicos gratuitos para sua diversão. 51 |
|
Hélade 2 (1), 2001: 50-52.
A mesma idéia é desenvolvida na página 114: "O fato
novo que caracterizou então a vida da plebe que vivia na cidade de Roma no
tempo do Império foi a sua neutralização política (aquietação das
insatisfações sociais, reivindicações e revoltas) dos pobres, por meio de
subsídios alimentares e de diversões públicas. Os ricos, por sua vez, estavam
privados das lutas políticas que haviam ocupado boa parte de seu tempo na
época da República. No século II d.C., o estado fornecia trigo gratuitamente,
todos os dias, a quase duzentas mil pessoas. Essa política ficou conhecida,
como já vimos, como a do ‘pão e circo’". Afirmar que a plebe vivia do pão e
circo fornecidos pelo Estado ou pelo grupo dirigente e que, além disso, as
lutas políticas se encerram com o advento do Principado contradiz estudos
produzidos (inclusive no Brasil) e que são bem conhecidos pelo autor. Não
acho que ele devesse adotar a perspectiva desses pesquisadores, mas apenas
que mencionasse os argumentos e documentação lembrados por estes contra a
interpretação que defende, como se propôs na introdução. Outro tópico importante da
história romana, o escravismo, também é apresentado como relato, não como uma
interpretação pela qual o autor opta frente a outras interpretações
construídas por outros autores, inclusive brasileiros. Vejamos. Na página 88
lemos que: Na página 130 temos que: "A partir do século III, o Império Romano ingressou
num período dramático de crise interna, com guerras civis duradouras, entre
230 e 260 d.C. A era das conquistas chegara ao fim e houve mesmo uma
diminuição do território dominado. Assim, o abastecimento de escravos ficou
comprometido, desorganizando a economia com dramáticas conseqüências sociais
e políticas." Uma vez mais, em que pese termos
interpretações diversas e atualmente hegemônicas contra a percepção de que o
escravismo seria fruto de capturas em massa, sendo os escravos formadores de
grandes plantéis explorados em latifúndios até a cessação das contínuas
conquistas romanas, o autor não as refere. Em síntese, parece-nos que o livro
é uma contribuição expressiva para a difusão da cultura clássica e para o
debate de temas importantes da Antigüidade. As críticas feitas aqui talvez se
devam mais a um gosto exacerbado pelo debate por parte do resenhista, que
chega a ser quase implicante com as obras que lê. Minha apreciação do livro seja
talvez excessivamente crítica. Não se trata de um desejo, contudo, de
encontrar defeitos na obra, mas tão somente a sincera intenção de contribuir
para a construção de um debate em nosso país sobre os Estudos Clássicos. Sabemos
que em alguns ambientes acadêmicos a crítica é tomada como ofensa pessoal,
que o debate é visto como disputa de grupos. Sinto-me muito feliz por isso
não acontecer em nossa área de atuação e ser possível escrever uma resenha
efetivamente crítica. Sendo assim, espero que essa resenha cumpra as finalidades que almejei quando a escrevi: divulgar uma obra e estimular o debate no âmbito da comunidade acadêmica de historiadores da Antigüidade Clássica. 52 |