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ISSN 1518-2541 Hélade 1 (1), 2000: 53-64 Submissão: Mar/2000; Aceitação: Abr/2000 Neyde Theml Professora Titular Doutora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - IFCS. Departamento de História - Setor de História Antiga - LHIA. Temênidas Herodotiano - Mito e rito de fundação da realeza dos macedônios: o passado presente (*) Nas Histórias, livro VIII, 137-138, Heródoto (1) relata a fundação da realeza dos macedônios. Ele apresenta três irmãos da linhagem de Héracles, que fugindo de Argos para o território dos ilírios, chegaram a Lébaia, na Macedônia Superior (Argos Orestikon) e ai serviram, ao rei (basileús), como pastores em troca de um misthós. Gauanés (mocho), Aeropos (abelheiro) e Pérdicas (perdiz) (2) filhos de Têmenos comandam a ação do relato. Gauanés, irmão mais velho cuidava dos cavalos, Aéropos dos bois e Pérdicas , o mais novo, dedicava-se ao pequeno gado (cabras e ovelhas). A mulher do rei observara que o pão destinado a Pérdicas, quando a ele chegava se duplicava. Como este fato se repetisse ela o viu como um prodígio e por esta razão relata o que vinha acontecendo ao marido. O rei (basileús) de Lébaia manda chamar os três irmãos pastores e lhes deu ordens para saírem de seus domínios. Os três solicitam os misthoí devidos. O rei ao ouvir falar dos misthoí e ao ver os raios do sol que entravam na casa naquele momento por um orifício, por onde saia a fumaça, respondeu transtornado por um deus, apontando para a luz do sol que refletia no chão. "O misthós merecido por vós é este que vos dou" (Heródoto.VIII. 137. 20-21). Os dois irmãos mais velhos permaneceram imóveis mas Pérdicas, que por acaso (tyché) trazia sua faca (máchaira) , aceitou a proposta e com a ponta da faca traçou um círculo em volta da mancha do sol no chão e fez por três vezes um gesto como se estivesse recolhendo os raios do sol e os levasse para seu bolso, formado por sua túnica e a seguir se retirou com seus irmãos. 53 |
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Após a partida dos três pastores, uma das pessoas presentes e próximo do rei chamou-lhe a atenção da gravidade do fato do pastor ter recebido o presente. O rei transtornado mandou alguns cavaleiros perseguirem e matarem os irmãos pastores. Existe, porém, naquele território um rio, o qual os descendentes destes pastores vindos de Argos e de Héracles, oferecem sacrifícios como salvador (sotéri) . Este rio, logo que os Temênidas passaram, se enchera de tal forma que impossibilitou os cavaleiros (hippeas), de Lébaia ,passarem. Os fugitivos chegaram a outra região da Macedônia e lá se instalaram perto dos jardins conhecidos por Jardins de Midas, onde crescem rosas com sessenta pétalas cada uma mais perfumadas que as outras. Nesses jardins, segundo contaram os macedônios para Heródoto, ai fora capturado Sileno. Acima dos jardins existe um montanha chamada de Bermion , onde um inverno perene a cobre de gelo e a torna inacessível. Os Temênidas conquistaram esta região e subjugaram o resto da Macedônia. Procuramos analisar este relato estabelecendo toda uma rede de representações culturais possíveis que o texto pudesse remeter. a fim de entendermos porque Heródoto escreve sobre a fundação da realeza dos macedônios Heródoto nos relata uma tradição mítica de fundação da realeza dos macedônios da casa dos Argeadae/Temenidae. No texto estão presentes as forças da natureza, os gestos rituais,e os valores culturais correspondentes a formação da realeza. Tentaremos uma explicação do sistema cultural que este mito evoca, pois consideramos que o aspecto religioso foi fundamental para garantir a autoridade dos reis dos macedônios e ao mesmo tempo possibilitava Heródoto a operar com os elementos de identidade helênica. O primeiro elemento do mito é o sol. A abóboda celeste e a terra foram objeto de atenção dos helenos e delas partiram as especulações e representações simbólicas. 54 |
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O signo solar (3) estabelece naturalmente uma rede simbólica no imaginário helênico. O sol remete a idéia de círculo e de universalidade. Através da presença do sol, um grande círculo, se dava o dia e a luz, a sua ausência correspondia a noite e o escuro. Pela posição do sol no céu e seu caminho imortal do leste para o oeste o homem determinava a sua própria posição na terra, estabelecendo a espacialidade e temporalidade humana.(alto/baixo - mortal/ imortal). O sol é como um grande olho que tudo vê e porque tudo vê é justiceiro, sábio e soberano. Os raios solares são resplandescentes, brilhantes, preciosos como o ouro. Assim o círculo solar remete a idéia de coroa e diadema real. A cor púrpura da aurora e do poente é majestosa, soberana, imortal pois controla o despertar e o descanso dos homens , dos animais e do ciclo das plantas. O sol é soberano, é a direita , é o masculino, é o pai e é celestial. Sendo assim a representação do círculo e da cruz gamada para direita, que aparece na cerâmica dos sítios de Vergina, é solar, soberana, real e conota movimento. O círculo associado ao sol representa: medida, ordem, harmonia, vigilância, justiça, soberania, fertilidade e fecundidade. O sol que entrava pela chaminé por onde saia a fumaça da casa nos indica a presença do fogo da casa (Héstia doméstica), lugar central, lugar de união dos membros da família, lugar sagrado. (dentro- fora) O rio está ligado, ao mesmo tempo, as representações da terra (baixo) e as águas (movimento, purificação) (4). Os dois elementos unidos reforçam a idéia de fertilidade, fecundidade, purificação, comunicação e limite. Devemos nos lembrar que os ritos de purificação eram realizados com água pura ou fogo puro. Os jardins remetem imediatamente aos perfumes. O perfume representa a sublimação da matéria, a presença concreta do invisível, do inacessível e a expansão das coisas infinitas (5). 55 |
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Os odores suaves permitem pressentir uma terra benaventurada, de eterna primavera e ao mesmo tempo se relaciona com os deuses e seus alimentos divinos o néctar e a ambrosia perfumadas. O perfume das rosas, associado a Sileno, companheiro de Dionisos, evoca o vinho e os odores embriagantes, Entendia-se que os odores das flores, dos frutos e do vinho penetravam nos sentidos, incitavam a imaginação, liberavam a alma e a tornava leve como os pássaros (6). Heródoto faz uma associação entre os nomes dos pastores com duplo de aves: mocho, abelheiro e perdiz. Os perfumes ainda propiciam por sua sedução a embriagues, a distinção e o reconhecimento do eu e do outro. Os perfumes purificam, embelezam, desperta os sentidos e seduz. Os jardins com rosas reafirmam e ratificam a mensagem dos odores e ao mesmo tempo, as rosas remetem a idéia de círculo, e as pétalas a de raios solares. O sol e as rosas associados tornam os perfumes mais fortes e reforçam o caráter solar da soberania real de um reino forte, fértil sobre a orientação de Apolo e Dionisos. Heródoto poderia somente relacionar os Jardins de Midas com o rapto de Sileno que já nos induziria as relações de perfume, alteridade e presença do invisível. Mas o historiador reforçou a imagem dos odores através das rosas extraordinariamente grandes e as mais perfumadas. Com isso ele entrelaça os elementos do mito: sol, círculo, perfume e anuncia o invisível, o outro, o que está por se criar : o reino e a realeza dos macedônios. Continuando a análise relacional do mito dos Temênidas Herodotiano, que pretende mostrar que cada elemento evoca o outro, formando um relato cuja mensagem era imediatamente compreendida, por seus contemporaneos. Vimos que Pérdicas por acaso trazia a sua faca e com ela fez um círculo no chão e por três vezes levou os raios solares para seu bolso. Com este gesto ele subtraia a soberania do rei de Lébaia. Um companheiro do rei compreendeu a linguagem gestual e advertiu ao rei. Pérdicas, o irmão mais moço, se apossava dos atributos solares ritualmente e se investia religiosamente de autoridade e soberania. Para garantir estes poderes ao irmão mais moço, o rio o protegeu enchendo-se e impedindo a passagem dos companheiros do rei de Lébaia, marcando para o Temênida a primeira fronteira do novo reino que fora anteriormente anunciado. 56 |
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Os nomes dos três pastores significavam aves e unidos aos animais domésticos, responsáveis pela riqueza, poder e nutrição qualificavam a atividade pastoril. mocho/cavalo; abelheiro/boi e perdiz/ovelha-cabra. Este conjunto nos remete ao céu e a terra, a cultura e a natureza, o doméstico e o selvagem. As aves, na cultura helênica, eram associadas ao céu. As asas eram símbolos de pureza, verticalização, comunicação (sagrada e profana), transcendência e de conhecimento de acontecimentos distantes. O vôo dos pássaros era um indicativo das estações do ano, constantes, simétricas, reversíveis e circulares. As asas e a verticalização reforçam as imagens do céu, do sol, do falo e do princípio masculino. A montanha perenemente gelada marcava o segundo limite natural do reino: um obstáculo, uma fronteira intransponível (7). A montanha ainda conota dois tipos de idéias, de um lado: abrigo e refúgio e de outro: selvagem, estrangeiro e fora da ordem cultural. Como o relato trata de três pastores a montanha passa também a ser entendida como lugar de encontro. Devemos lembrar que as tribos de pastores macedônicos eram transumantes, vivendo durante o verão nas montanhas e no inverno dispersos nas planíceis. (X- VIII séc..a.C.). A transumância pastoril levava os pastores a protegerem seu gado durante o verão nas montanhas propiciando o encontro e a reunião dos diversos grupos .. Neste aspecto a cabra foi o animal de escolha sacrificial a medida que une a montanha e a planície. A cabra é o único animal que vive tanto nas altas colinas quanto na planície. A cabra no relato está ligada à Pérdicas, portanto o pastor que faz a união. Mas aquela montanha perenemente gelada era uma fronteira. Até então o relato jogou com as relações entre o homem e a natureza: céu, sol (alto), rio, terra (baixo), na mesma divisão espacial: aves e gado. Heródoto, porém, incluiu elementos culturais tais como : os números, a faca e o pão. As rosas possuíam sessenta pétalas, vimos acima as ligações das flores com os perfumes, as rosas e as pétalas com o círculo, com o sol e com o diadema real. Todos estes símbolos ligam a soberania do rei à soberania celeste, masculina , capaz de promover a fertilidade e fecundidade eterna. (Na verdade as regiões entre os rios Áxios e Haliacmon são ricas). 57 |
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A especificação das sessenta pétalas coincidem com o conhecimento que se tem hoje, de que na Macedônia as rosas são grandes e que possuem trinta pétalas (8) . Sendo assim Heródoto usou o número com um valor qualitativo. Conhecendo a matemática e a geometria pitagórica quis passar a mensagem de valor e não de quantidade. Para os pitagóricos (9) o número estabelece a percepção das relações entre as coisas e as idéias. Através dos números o homem obtém a noção de relação, proporção, harmonia, ritmo e forma. Os números eram princípios eternos, agentes de liberação, iniciação, beleza e justiça. Através dos números se constrõe formas tais como: o círculo, o triângulo, o quadrado e se produz sons e ritmos. A música como os perfumes seduz, embriaga, libera o homem das sanções e interditos. Dos quatro raios do círculo se obtém a cruz gamada para direita, símbolo da realeza dos macedônios. Este símbolo era um referencial espacial,-temporal solar, indicando as quatro direções e as quatro estações do ano (10). Os pastores transumantes macedônicos possuíam um calendário bem marcado, na lua nova em outubro, no outono os pastores migravam para as planícies, na primavera eles saiam dispersos na planície e retomavam o caminho das montanhas e aí passavam o verão. Os números que encontramos nos relatos nos levaram a outras relações de equivalência. Com a triangulação do círculo se obtém os polígonos e o hexágono é a forma dos cristais (11), da neve na montanha perenemente gelada..Com os números se obtém os ritmos e os acordes musicais que encanta e eleva o homem. A música e a sonoridade estão ligadas a palavra, a fala a cultura e a comunicação. Apolo é o deus da música, da palavra harmônica, da palavra oracular e deus solar (12). Apolo e Dionisos se completam na mentalidade helênica e fazem parte da cultura dos macedônios (13). Pelos atributos dos números e sua vertente solar apolínea poderemos entender as variantes do mito de fundação da realeza dos macedônios , através dos relatos de Hygino, Diodoro da Sicilia e Justino, onde Apolo oracular e o animal guia, a cabra, estão explícitos nestes textos. 58 |
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O outro elemento do mito ligado ao espaço da cultura está a faca. A faca é uma criação cultural, faz parte da esfera social. Ela é a arma de defesa do jovem que se prepara para o rito de passagem da juventude, livre das regras e dos interditos para idade adulta. da obediência e das obrigações. A faca por sua vez é um instrumento de sacrifícios, que permite criar um espaço sagrado que possibilita o homem comunicar-se com o divino. A faca é um utensílio de cozinha (cru e cozido) e propicia as refeições comuns que por sua vez indica solidariedade, hospitalidade, interação e comunicação. O ato ritual de Pérdicas, o irmão mais novo, é considerado pela historiografia como sendo aquele que possui funções religiosas enquanto que o irmão mais velho teria funções guerreiras (14). Pois bem, Heródoto descreve o rito de Pérdicas que anunciava a fundação de Aigai. Ao recortar com a faca três vezes em círculos, os raios de sol e deles se apossar, Pérdicas realizava gestos, comunicando por mímica, que estava praticando um ato religiosos inaugural e transmitia que havia uma idéia anterior, a saber, a manifestação e nomeação do reino que iria fundar. Isto significa que antes de criar e nomear o reino, Pérdicas o concebeu com o favor dos deuses, o mostrou simbolicamente através de gestos reconhecíveis por seus contemporâneos e concedeu aos seus gestos a autoridade necessária a fundação do reino e ao exercício do poder real. Em outros documentos textuais observamos que mais tarde o protocolo ritual dos reis dos macedônios era fundamental para manutenção da autoridade do rei e da casa real dos Argeadae/Temenidae (15). Finalmente o pão que se duplica nas mãos de Pérdicas. O pão nutre o homem, graças a abundância de Demeter. O pão estabelece e mantém os laços de solidariedade social através das refeições que se fazem em comum na família ou entre amigos e hóspedes nos simpósios. O pão está na ordem da cultura, ele foi criado pelo homem, com a ajuda dos deuses, assim como a domesticação das plantas, dos animais, da tecelagem, do fogo, da cerâmica e da fabricação dos metais. A dieta do pão, do vinho, do azeite e do cozimento dos alimentos indicava a identidade cultural com os helenos. Por esta razão Heródoto em outra passagem é categórico em afirmar que Alexandre I é heleno assim como os macedônios. A duplicação do pão nas mãos de Pérdicas, nos induz que o rei da macedônia unia suas atribuições jurídico-religiosas à atribuições políticas. Ele além de por tudo em ordem, por tudo ver, ele propicia a união e a solidariedade social, a fertilidade e a fecundidade do reino. 59 |
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O relato de Heródoto concedia ao rei dos macedônios poder e autoridade para gerenciar os conflitos que advém da passagem de uma sociedade de chefias para uma sociedade onde se processa a emergência de uma elite aristocrática guerreira tradicional que se organiza politicamente em forma de realeza. (16). Estes conflitos aparecem pelas oposições: marginalização-integração: autonomia- unificação; parentesco-comunidade, igualdade-desiguldade e autoridade-subordinação, sagrado- profano (17). O mito foi narrado a Heródoto, na Macedônia, durante o reinado de Perdicas II, filho mais velho de Alexandre I. Nesta ocasião Perdicas II precisava reforçar os laços de solidariedade social e manter unidos a casa real dos Argeadae-Temenidae e o próprio reino. Heródoto resgata a tradição macedônica do mito dos três irmãos pastores (18), reforçando a autoridade dos reis dos macedônios entorno de uma casa real , de descendência heróica-guerreira e civilizadora. Compreendemos o relato de Heródoto como uma explicação mítica do fenômeno de passagem de uma sociedade simples organizada em chefia para a emergência de uma sociedade complexa em forma de realeza. A sociedade do tipo tradicional simples, as relações sociais se processam por níveis de associações no interior da sociedade global com centros políticos móveis. Sendo assim podemos interpretar que os três irmãos pastores estariam se relacionando através de alianças que se efetuaram por ter os três irmãos conhecimento das técnicas pastoris. O rei de Lébaia entregava a sua riqueza (gado) e da comunidade à homens reconhecidos como capazes de preservá-la e ampliá-la. Os três Temênidas possuíam uma situação de estrangeiro /aliados/ servidores/ pastores do rei até que o rei não cumpre sua obrigação pagando os misthoí, com isso, leva Pérdicas a subtrair os raios de sol atingindo a soberania real e transformando os três pastores em estrangeiros / inimigos (19). 60 |
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Devemos nos lembrar que a economia agro-pastoril, nas sociedades tradicionais simples ou complexas, se desenvolve paralelamente atividades técnicas relacionadas a produção e a defesa. Ao lado da criação se estabelece técnicas ligadas a reprodução dos animais, de tosqueamento, de cruzamento, de castração, de tecelagem, de construção de currais, de estábulos, de atrelagem, de drenagem de pântanos, de irrigação, de fabricação de queijos e iogurtes. Paralelamente ao crescimento dos meios de produção cresce a atividade guerreira , preparando a sociedade para defesa do animal nutridor, contra roubo, contra animais ferozes, contra ocupação dos pastos. Logo os pastores guerreiros, armados, chefes de grupos ou tribos pastoreiam seu gado e protegem as comunidades agrárias das planíceis. A atividade guerreira passa a servir e proteger a atividade produtora. Sendo assim os três irmão pastores não seriam três pessoas, mas três chefes de tribos que se deslocavam com seu rebanho e o aumentavam através de prestação de serviços à criadores/agricultores. A hipótese de três tribos para os três pastores tem como argumento a indicação de Heródoto da organização dos dórios (três phylaí) e no texto que analisamos fica implícito o rito da cripitia. A mesma conclusão encontramos nos historiadores Sergent e Borza (20). A afirmação de que o relato trata da emergência de uma elite heróica guerreira que promove a formação da realeza dos macedônios advém da descendência dos Temênidas. Héracles evoca a época em que a criação de gado passava da transumância a sedentarização. O processo de sedentarização pressupõe o conhecimento das técnicas que citamos acima aliadas as de adubar, irrigar, emprego de animal de tiro, preparação de farinhas, construção de casas ou seja implica na especialização e diversificação social do trabalho. A complexidade social por seu lado gera a necessidade da escolha de um centro político e de uma nova forma de organização do poder político. 61 |
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Pérdicas sendo descendente de Héracles , herói civilizador, reativa o mito dos estábulos de Augias, mas dando um novo significado ao exercício do poder. No mito Héracles pastorea o rebanho do rei em troca de uma recompensa, segundo Apolodoro (21) este misthós se traduzia no dízimo do rebanho ou numa parte do território. Héracles recebe do rei a recusa do pagamento e responde com o recurso da guerra. Pérdicas diferentemente de seu ancestral e por conhecer a tradição submete a atividade guerreira ao poder simbólico/religioso. Quando Pérdicas aceita recolher os raios de sol do rei de Lébaia, ele optou fazer a síntese do poderes militar/político/religioso. Sendo os Temênidas descendentes de Héracles podemos ainda, encontrar aspectos interessantes de representação cultural. Héracles é um herói solitário, caçador, guerreiro, vencedor de monstros, vencedor de animais selvagens, civilizador que combate com a força de seus músculos, na maioria de seus trabalhos. Sua panóplia denota uma cultura anterior a da utilização dos metais. Héracles tem como virtudes a coragem, a força e seus trabalhos, em sua maioria estavam vinculados à implementação do pastoreio e da agricultura.. Numa de suas viagens a Rodes, Héracles destaca as relações de equivalência entre - Homem/ cultura/ sacrifício.(22) Graças a Héracles os homens reconhecem, pelos ritos de sacrifício do boi, que são produtores de alimentos: cereais e carne de animal doméstico. Ao aprender a sacrificar o animais aos deuses, o homem se destaca da vida selvagem e do nomadismo. Os ritos de sacrifício dos animais transformam a carne em alimento. O homem diante da fome produz e não pilha. Para se alimentar cozinha e não devora. Héracles ao submeter, a morte do animal doméstico que trabalha no campo ao lado do homem, às regras rituais, fez com que o homem reconhecesse ser um produtor de alimentos, um ser cultural e comunitário. 62 |
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Os Temênidas, Herodotiano, descendentes de Héracles conotam uma ação civilizadora entre populações que habitavam as regiões entre os rio Áxios e Haliacmon, isto é os macedônios pastores iniciaram um processo de dominação/subordinação entre pastores e agricultores, centralizando a autoridade de chefes locais em torno da Casa real dos Argeadae /Temenidae, de descendências ancestral, heróica e civilizadora. Transformaram Aigai num centro político fixo e a cabra no animal de sacrifício comum. Observamos através da análise do relato de Heródoto relativo a fundação da realeza dos macedônios, que os elementos remetem a uma rede interligada de conexões culturais helênicas que eram capazes de serem compreendidas por aqueles que tiveram acesso ao relato por terem ouvido ou lido. Por estas razões ficou claro para nós que a História da fundação da realeza dos macedônios foi compreendida pelos helenos como sendo a sua história passada. A realeza do tempo dos ancestrais, heróica, guerreira e sagrada nada mais era que o passado presente, na Macedônia, dos Helenos.(23)
NOTAS * Este artigo foi, também, publicado em HVMANITAS - Vol. XLVII (1995).
1 Hérodote. Histoires. Belles Lettres, 1973.
2 Chantraine, Pierre. Dictionnaire Étymologique de la langue Grec. Histoire des mots. Paris: Éditions Klincksieck, 1983, pp 212,224,885.
3 Hesíodo. T.D. v.383,395,575,585; Heraclite. Frag. 67,94,100,101,103,120; Parmenides. Frag. 1.X-X ; Homère. Iliade. XXI,80-81
4 Hesíodo. T.D. v. 755-760
5 Anacreonte. IX, XXXIX;; Platão. Fedro. 230b.; Platão. Timeu 66-67;Heráclito Frag. 98; Xenofanes de Colofon. 1 D; Aristófanes. As Aves. (Ed. Garnier. p.311-312)
6 Alcman Frag. 6 (92 d); Apolodoro. Biblioteca I. 9.11, Hesiode. TD. v. 564;/575; 675/680; 800/805
7 Platão. Timeu 59 d; Aristófanes. Arcanianos (Garnier p.11)
8 Hammond, N.G.L. The Macedonian State: The origins, Institutions and History. Oxford: Claredon Press Oxford. 1989. pp 4-8
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9 Fabre-DOlivet, Antoine. Les Vers dorés de Pythagore. Paris: Henri Veyrier, 1991, pp 24-29; Platão. Timeu. 57 d/58, 62d/63d; Aristóteles. Sur la Nature. 3. 194b.16;9 - 199b. 34.20
10 Andronicos, Manolis. Vergina. The royal tombs. Athens: Ekdotike Athenon S.A. 1984.pp.195/195
11 Ghyka, Matila C. Le nombre dor. Paris: Gallimard, 1959, pp. 34/ 37
12 Dumézil, Georges. Apollon Sonore et autres essais: Esquisses de Mythologie. Paris: Gallimard, 1982. pp.23-41
13 Hammond, N.G.L. The miracle that was Macedonia. New York: St. Martins Press, 1991, p 95
14 Ivanov, V.V. Lasymétrie des oppositions sémiotiques universelles. In : Travaux sur les systèmes de signes. Bruxelles: Éditions Complexes. 1976, pp 52-53
15 Ginzburg, Carlo. Apontar e Citar: A verdade da Históira. Revista de História. Campinas, IFCH, nº 2/3, 1991, pp 91-106
16 Renfrew, C. LÉnigme indo-eropéenne: Archéologie et langage. Paris: Flamarion, 1990, passim
17 Cassin, Barbara et.al. Gregos, Bárbaros, Estrangeiros: A cidade e seus outros. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993, passim
18 Bader, Françoise. De la préhistoire à lidéologie tripartie: le travaux dHerakllès. In: DHeraklès à Poséidon Mythologie et Protohistoire. Paris: Librairie Champion, 1985, pp 9-124
19 Ibidem
20 Sergent, B. As primeiras civilizações. Os Indo-Europeus e os Semitas.. Lisboa: Edições 70, 1990 ; Borza, E.N. In the Shadow of Olympus. The emergence of Macedon. Princeton: Princeton University Press, 1990, p.84
21 Apolodoro. Biblioteca Livro II. 5 .5
22 Durand, Jean-Louis. Sacrifice et Labour en Grèce ancienne: essai dAnthropologie religieuse. Paris: La découverte, 1986,pp 156-159
23 Theml, Neyde. A realeza dos macedônios (VIIIº - VIIº sec.a.C.): Uma História do outro. Niterói: UFF, 1993.
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