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ISSN 1518-2541 Hélade 1 (1), 2000: 38-52 Submissão: Abr/2000; Aceitação: Mai/2000 Maria Manuela Ramos de Souza e Silva Profª. Dra. Adjunta de Metodologia da História do Departamento de História da UFRJ.
A HISTORIOGRAFIA DESCOBRE A "FESTA" Logo de início
gostaríamos de esclarecer um ponto. Não é nosso propósito efetuar uma análise
exaustiva das diferentes produções que, pelo menos, desde o começo deste século
têm vindo a público enfocando as manifestações da cultura popular. Seria uma tarefa
insana, quase impossível, na medida em que, por um lado, tem constituído um
objeto de pesquisa partilhado pelos mais diversos campos de saber, que vão
desde a Lingüística à Antropologia e Sociologia (só mais tardiamente a História),
passando pela Psicanálise, História da literatura e Teoria literária; por
outro, porque tal tarefa seria totalmente inviável neste tipo de trabalho a que
nos propomos. Assim, vamos
privilegiar neste breve artigo tão somente dois aspectos que nos parecem mais
significativos, pois podem interessar
diretamente a todos aqueles que venham a debruçar-se sobre tais estudos, na
medida em que fornece uma espécie de itinerário bibliográfico essencial aos
primeiros passos. O primeiro aborda
algumas questões historiográficas, enquanto que o segundo refere-se, ainda que
de forma tangencial a problemas metodológicos. No campo da
historiografia daremos especial atenção às principais matrizes que tem vindo
a servir de modelo para as pesquisas levadas a
cabo tanto no exterior quanto no Brasil desde os anos 60/70.
Articulada a esta questão tentaremos, sempre que possível, avaliar os
percursos metodológicos que necessariamente se encontram embutidos nessas
propostas. Se tentarmos
elaborar uma breve genealogia do objeto "festa" como nova expressão
cultural que começa a estar na ordem do dia dos pesquisadores, certamente que
teremos de localizá-la nas grandes transformações ocorridas nos anos
70, momento que corresponde a uma significativa mudança na sociedade de massas,
geradora de uma nova indústria cultural que produz o mundo efêmero e
descentralizado da tecnologia e do consumismo.
Mundo também sustentado pela escolarização universal e pela expansão
e domínio da mídia, manifestações que surgem às margens dos antigos modelos
eruditos e letrados dominantes nas sociedades tradicionais. 38 |
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São, portanto,
tempos em que se impõe um estilo de cultura que obscurece as fronteiras outrora
bem demarcadas entre a
"cultura letrada" e a "cultura popular”, da mesma forma que se
apagam as diferenças entre a arte e a experiência cotidiana. É precisamente
neste contexto que a "festa" vai, então, converter-se num objeto
amplamente glosado pelos diferentes saberes.
Contudo, estas transformações devem ser adequadamente entendidas no
interior das próprias vivências e experiências da sociedade contemporânea,
pois elas acompanham a culturalização da vida, insuflada pelos movimentos
alternativos que despontam no interior da sociedade - minorias étnicas,
religiosas, sexuais e de gênero. A nosso ver duas
questões foram fundamentais para provocar estas mudanças de percepção: 1) a
descoberta da cultura popular como um lugar de “subversão”, de transgressão
à normatização disciplinadora do poder; 2) a percepção que as manifestações
populares dão-nos agora direto acesso às experiências cotidianas de segmentos
da população por longo tempo silenciados. Daí o verdadeiro fascínio pela
festa tradicional, um mundo de riso desbragado, de emoções simples e ingênuas
redescobertas, tão comuns aos segmentos populares das sociedades tradicionais,
que o capitalismo tende a fazer desaparecer, imprimindo-lhe uma nova orientação.
Porém, este novo
posicionamento acerca da questão expressa, de certa forma, uma situação
paradoxal. De fato, uma sociedade que "derruba um bom número de certezas,
contaminou purezas protegidas com desvelo e transgrediu normas opressoras"
no dizer de A Giddens, é a mesma que esboça um gesto politicamente nostálgico,
conservador, de volta ao passado, a um mundo que perdemos, para parafrasear o título
da obra de P. Laslett, aparecida na Inglaterra em 1965. Isto que acabamos
de afirmar não é de modo algum contraditório, pois a festa é o lugar por
excelência da diferença. Mas é
simultaneamente um tempo vivido sem constrangimentos, sem coações, questões
que encontram ampla ressonância nos atuais "culturalistas" para os
quais o poder deve ser sempre desmascarado e denunciado como opressor.
É neste contexto que parece justificar-se o interesse demonstrado por
cientistas sociais norte-americanos pela cultura, os quais alimentam um
verdadeiro fascínio pelas relações entre a política, poder e
propaganda. 39 |
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Além disso a
"festa" provoca um novo e inusitado interesse na medida em que aponta
para um "desvio" à norma, questão que passa a ser dominante no
pensamento francês e norte-americano, principalmente a partir dos trabalhos
pioneiros de M. Foucault. Efetivamente,
numa boa parte das pesquisas desenvolvidas nestas duas últimas décadas, o
"desvio" passa a ser um tipo de explicação que se sobrepõe às
antigas considerações que tinham por objeto as diferenças sócio-econômicas A segunda questão
deve ser pensada através de um outro viés - o político.
A falência do universalismo humanista, da razão iluminista e de todos
os sistemas que impliquem em entender o mundo e a sociedade como uma totalidade
coerente. Como bem observa ainda A
Giddens " (...) o descredito
teórico da idéia de totalidade não surpreende numa época de derrota da política
para a esquerda. Muito de seu
ceticismo, afinal de contas, provém de intelectuais que não contam com
qualquer razão especialmente forte para situar sua existência pessoal dentro
de uma estrutura política mais ampla". (A GIDDENS,1998:19). É neste contexto
particular que a obra fundamental de M. Bakhtin, ainda escrita nos anos 40
"Rabelais e a cultura popular na
Idade média e no Renascimento", é descoberta.
De fato, a primeira tradução para o inglês aparece em 1965, sendo daí
em diante submetida às mais diversas leituras.
Ela constitui uma espécie de marco inaugurador, a partir do qual se vão
articular posições pró e contra, ou até mesmo híbridas, construídas pelos
saberes sociais e humanos nas sucessivas crises epistemológicas que marcam os
diversos saberes desde os anos pós-guerras.
Na Antropologia
as discussões são desencadeadas por V.Turner,
principalmente na obra The Ritual Process:
Structure and anti-structure, publicado em 1968, na qual defende, à semelhança de
Bakhtin, que os ritos e jogos de inversão estão presentes em todas as
sociedades, das tradicionais às mais desenvolvidas.
Contudo, Turner posiciona-se de forma contrária à tese do pensador
russo no que se refere à dinâmica e ao papel que esses mesmos processos
desempenham nas sociedades. Partindo do princípio
que o carnaval, enquanto manifestação da cultura popular, serve para afrouxar
os rigores de uma sociedade estruturada e, consequentemente, infundir no
sistema, ainda que temporariamente, os valores inerentes a uma comunidade
igualitária, discorda quanto à idéia bakhtiniana que ele seja uma forma de
liberação, de destruição, de emancipação e renovação de um
mundo que se transforma em utopia. Quando
muito esses rituais de transgressão podem ser entendidos como uma válvula de
escape para as tensões e conflitos existentes em todas as sociedades, o que não
significa exatamente que eles funcionem como fórmulas de subversão social. 40 |
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Esta mesma
compreensão é partilhada pelo antropólogo francês A Callois que em sua obra Os
Jogos e os Homens defende que os ritos bem como algumas festividades,
semelhantes àquelas que se realizavam na Idade Média, como por exemplo a Festa
dos Bobos, constituem procedimentos visando dar coerência às sociedades
tradicionais. Chama a atenção do leitor para o fato de que a desordem é tão
somente aparente, pois ela tende a realimentar o princípio da ordem em
sociedades onde as relações contratuais inexistem. Outro que
discorda da tese de M. Bakhtin é U. Eco. Critica naquele o ter utilizado as
formas de carnavalização como desempenhando um papel subversivo, um momento de
suspensão da ordem e da cultura oficial. Argumenta
que essa suspensão que existe de fato, é desde sempre autorizada e admitida
pelos poderes e pela cultura dominante. Aqui
pode-se registrar uma aproximação de Eco à teoria de Turner, quando enfatiza
que o carnaval e a comédia não atuam como momentos reais de transgressão,
antes parecem fornecer exemplos claros de reforço da lei e da regra. Se as discussões
acontecem em torno da via aberta por M. Bakhtin, não é menos certo que algumas
posições podem ser diagnosticadas a partir de dois lugares de fala que apontam
também para duas posturas políticas diametralmente opostas. Em termos mais
metodológicos poder-se-ia dizer que de um lado da trincheira encontravam-se
os funcionalistas e de outro os não funcionalistas, enquanto que
politicamente a questão se jogava entre aqueles que apostavam numa visão
social conservadora ou democrática pluralista, eminentemente reformista, e os
demais que acreditavam na possibilidade de uma revolução que subvertesse as
estruturas. Esta parece ser a
realidade até aos finais dos anos 80, tanto nos Estados Unidos quanto nos países
europeus e, no Brasil com ecos mais tardios que só se vão tornar presentes já
em plena década de 90. Tentemos, a
seguir efetuar um mapeamento, embora bastante esquemático, de algumas obras
mais significativas da historiografia contemporânea, cujos modelos serviram de
bússola para as pesquisas desenvolvidas no interior de nossa academia. Comecemos pela
matriz annalista francesa que tradicionalmente tem tido impacto sobre a pesquisa
brasileira. Desde os anos 60 que as
manifestações de ordem cultural passam a ser alvo de atenção por parte dos
historiadores protagonistas de um novo diálogo com a etnografia e a etnologia
que irá desembocar naquilo que convencionalmente se tem denominado de etno-história.
É neste contexto que se dará início à construção de uma dupla
imagem sobre a "cultura popular" que marcará a maior parte dos
trabalhos aparecidos entre 1960/1980. 41 |
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Num primeiro
momento, a "cultura popular" é entendida como um sistema de crenças,
de ritos de manifestações religiosas, características das camadas da população
que habitam o espaço rural - os camponeses - e que se opõe ao código
religioso oficial, divulgado pelos clérigos, código esse que expressava a
cultura erudita ou letrada. Ora,
esta cultura popular fora identificada, graças à descoberta de um corpus
documental riquíssimo reconhecido como a Biblioteca Azul (livros de capa azul)
ou literatura de colportage , espelho
de práticas culturais amplamente difundidas na França a partir, pelo menos, do
séc. XVII. É precisamente nesta direção que apontam as obras pioneiras de R.
Mandrou (MANDROU,R.,1964) e de G.
Bollème (BOLLÈME,G. ,1971). Embora a obra de Bakhtin já circulasse na França desde 1970, publicada pela Biblioteca Gallimard, tanto a abordagem de Mandrou quanto a de Bollème se entrincheiram, a despeito das posturas políticas radicalmente opostas, numa tradição dicotômica, oriunda do Iluminismo, e que opunha as manifestações da cultura erudita às da cultura dita popular. Assim, para
Mandrou a cultura popular não era nada mais de que uma cultura de receptáculo,
uma espécie de produto adulterado, construído pela cultura erudita a fim de
adequar-se à ingenuidade e ignorância das camadas mais baixas da população
francesa. Concluí que a Biblioteca
de colportage era, portanto, uma obra
endereçada às massas populares expressando o triunfo de uma aculturação
vitoriosa por parte da cultura dominante e letrada. Diferentemente de
seu orientador de tese, G. Bollème vê nesse corpus documental uma expressão
das manifestações de uma cultura popular extremamente rica, criativa e espontânea
que usufrui de uma certa autonomia em relação à cultura das classes
dominantes. De fato,
se por um lado Bollème aceita a idéia de que a literatura de elite do
Antigo Regime, elaborada por letrados especializados, havia-se degradado numa
"cultura popular", por outro defende a idéia que aquela só se impôs
pelo desejo e pelo gosto de saber, tão caro ao povo.
Sete anos após a
publicação do livro da autora aparece a obra de R. Muchembled (MUCHEMBLED, R.
, 1978) que contesta tanta a interpretação desta quanto a de Mandrou.
Defende a tese de que a Biblioteca dos Livros azuis, longe de expressar
valores populares, constituía uma forma de propaganda, sendo sua difusão uma
operação de aculturação, dado tratar-se de uma clara imposição às camadas
populares dos valores e ideais da classe dominante, com vista a um efetivo
controle social. 42 |
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Não vamos aqui
determo-nos sobre os impasses metodológicos a que estas posições levaram.
Carlo Ginzburg já o fez de modo exemplar no prefácio a sua obra O
Queijo e os Vermes, aparecida pela primeira vez na Itália em 1976.
Mais tarde seria a vez de R.Chartier desferir suas críticas contra o
modo da historiografia francesa entender as relações entre as duas culturas.
Para ele, circunscrever o popular é uma operação, no mínimo, arriscada.
E isto porque não podemos aferir com um certo grau de segurança (verosimilhança)
quem eram precisamente esses leitores, tampouco o grau de alfabetização deles.
Tratava-se de uma camada de letrados? De clérigos? De artesãos? De pequenos
proprietários rurais?. Eram
habitantes das aldeias ou dos burgos que mantinham contatos culturais mais
amplos e diversificados? Mas Chartier não
parecia ficar satisfeito com estas perguntas. Outras, de fundamental importância
deveriam igualmente ser formuladas, a exemplo de como esses conteúdos eram
apreendidos e recepcionados pelos leitores e por que meios eram os mesmos
divulgados. Tratar-se-ia de
leituras individuais e solitárias ou antes de leituras orais partilhadas por
grupos sociais não necessariamente alfabetizados?. Por outro lado, não
fazia muito sentido em seu entender "tentar identificar cultura popular por
alguma distribuição supostamente específica de objetos culturais"
Sugere, então, uma nova via para os historiadores da cultura - a de em
vez de pesquisarem conjuntos culturais específicos, estudarem modos específicos,
pelos quais esses conjuntos culturais são apropriados. Este conjunto de
críticas, claro, que só se pode entender a partir de novos estudos que estavam
sendo feitos em outras áreas de conhecimento, dentre as quais se destacavam
a Teoria da Literatura, a Crítica Literária e a Antropologia simbólica
tão em voga no início dos anos 80. Vale a pena lembrar que este novo interesse
não pode ser dissociado do impacto causado na academia francesa pelas obras
instigantes de J.Goody e J.Jauss, além, claro, das discussões sobre a
abordagem hermenêutica proposta por H. Gadamer e R. Koselleck que viriam a ser
aprofundadas na França por P. Ricoeur. É precisamente
neste contexto que podemos e devemos entender a proposta de M. de Certeau,
quando num artigo célebre, escrito a seis mãos (os outros colaboradores foram
respectivamente D. Julia e J. Revel), partia do reconhecimento que no início da
cultura popular existia a beleza do
morto. De fato, foi preciso
censurar as manifestações populares, vistas como perigosas, para as converter
em objeto de interesse e posterior fonte de estudo, primeiro entre os
folcloristas, mais tarde entre antropólogos e historiadores. 43 |
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Mas é no campo
da História da literatura que melhor são percebidas as relações entre as
duas culturas, fugindo-se ao esquema pelo qual se haviam pautado as obras
anteriores. É esta a problemática desenvolvida por M.. Soriano em seu estudo
percursor sobre Os Contos de Perrault
(SORIANO,M., 1968), onde as tradições populares de caráter majoritariamente
oral são a todo o momento cotejadas com a escrita que as congelou num dado
momento. Para ele, contrariamente à posição de G. Bollème, é a literatura
popular, enraizada numa tradição muito antiga, que alimenta as obras clássicas
e não estas que vão dar lugar a uma vulgarização estimulante dos anseios e
gostos populares. Este exemplo é seguido de muito perto H. J. Martin
(MARTIN,H.J., 1969) em ensaio sobre o entrelaçamento dinâmico entre a cultura
escrita e oral. Como já tivemos
oportunidade de assinalar anteriormente, as festas constituem um objeto
amplamente explorada pelos historiadores annalistas, sem dúvida em função da
freqüência e importância das mesmas no interior da sociedade de Antigo
Regime. Contudo, este novo objeto levou a um problema de ordem metodológico, na
medida em que os estudiosos se deparavam com a impossibilidade de construir uma
tipologia de fontes que pudesse acessar adequadamente essa problemática. De fato, o Antigo
Regime era pródigo em festas que nem sempre tinham a mesma dinâmica nem os
mesmos objetos e, portanto, não podiam ser abordadas da mesma forma e através
dos mesmos instrumentos analíticos. A
par de festas dinásticas e corporativas, os historiadores deparavam-se com a
existência de um número quase incontável de festas religiosas de caráter popular ou não, aspecto que tinha
tudo a ver com uma cultura de tradição católica romana. Mas a situação não era muito diferente na igreja
protestante que , apesar de sua crítica contundente ao culto dos santos, mesmo
assim não impedia a existência de um calendário dedicado a várias tipos de
festividades. Interessante
notar que na documentação elaborada pelas instituições políticas oficiais e
emitidas, portanto, pelas elites, a festa era naturalmente apercebida com
desconfiança e inquietação. Ela
surgia como um momento propício à devassidão, à malandragem, enfim, à prática
de excessos que podiam reverter muitas vezes em movimentos de agitação social,
podendo ser pretexto para a explosão de tensões e de sentimentos
reprimidos que tenderiam a subverter a ordem. Mas podia também
redundar numa possível quebra de hierarquias (e isso tendia a acontecer com uma
certa freqüência), alterando, ainda que provisoriamente, os lugares sociais
que eram devidos a cada ordem ou indivíduo, conforme bem observa N. Elias.
Dentre os excessos mais apontados sobressaiam a bebida, a comilança, o sexo
(atos libidinosos como os
documentos se referem), a
libertinagem e a vadiagem. Ora,
estes perigos, paradoxalmente, vão ser reforçados pelo Iluminismo e pelo próprio
Capitalismo. Quanto ao primeiro, o
perigo da festa estava na dissolução moral que ela poderia fomentar, pondo
assim em risco os bons costumes. Esta
é a perspectiva adotada por Montesquieu quando critica as manifestações
populares por serem não só indecentes e grosseiras, mas também por
favorecerem a prática de abusos e excessos que infringiam as normas de boa
conduta social. Interessante
assinalar que esse tipo de censura diferia um pouco daquela que a igreja
formulara. Há neste momento um
deslocamento de sentido pois se, por um lado, a festa quase sempre desencadeia
rixas, confusões, promiscuidade, numa palavra, um ambiente propício aos
excessos da "canalha", por outro põe em risco não só os bons
costumes (entenda-se civilizados) mas sobretudo a autoridade do Estado.
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Já o Capitalismo
via nas festas de cunho popular uma quebra da disciplina no trabalho, um convite
ao ócio e à vadiagem, questões que se
encontravam sempre ligadas ao
processo produtivo. Consequentemente, a existência de um calendário anual
repleto de festividades religiosas constituía uma preocupação , pois estas
redundavam numa quebra no processo produtivo além de facilitarem a bebida e a
libertinagem, aspectos que enfraqueceriam os corpos e as mentes dos
trabalhadores, desqualificando-os para as rotinas do trabalho. Ao adentrar a
modernidade a festa se dá a ler cada vez mais como um lugar ambíguo.
Se, por um lado pairam sobre ela constantes suspeitas e temores por parte
do poder e das elites, por outro, ela seduz, pois é a própria expressão viva
do congraçamento, da comunhão e harmonia sociais.
Mesmo os adeptos
da nova racionalidade econômica, a exemplo do Marquês de Mirabeau, não
ocultavam seu interesse pelas festas, pois em sua opinião eram estas que
articulavam o tempo, dando à vida cotidiana sua configuração própria,
contribuindo para consolidar as solidariedades sociais.
Numa época profundamente hedonista que valorizava os prazeres da vida,
as festas para além de constituírem-se como momentos de felicidade e de
confraternização, representavam um verdadeiro domínio sobre o tempo, pois as
horas não mais eram marcadas pelo relógio, como o próprio Rousseau
reconhecia. Neste particular,
o imaginário da cultura ocidental remete-nos invariavelmente para uma festa
originária, primitiva, um ato inaugurável cujo modelo se perde na espessura do
tempo. Mas será precisamente a
Revolução francesa, acontecimento fundador da modernidade que
melhor expressará este sentido de um início radical que passa a
constituir um fértil campo de estudo para os historiadores franceses e
ingleses, seduzidos pelas inusitadas relações que se passam a estabelecer
entre a propaganda política e a ideologia, o poder coercitivo do Estado e as múltiplas
formas de resistência popular. Dentro desta
orientação desenvolve-se na França um conjunto de trabalhos pioneiros dentre
os quais se destacam os de Y-M Bercé (Fête
et Révolte),os de M. Ozouf (La Fête
Révolutionnaire.1789-1799) ambos aparecidos em 1976, e de
M. Vovelle (Pieté Baroque et Déchristianisation en Provence au XVIIIe. Siècle),
cuja edição aparece dois anos mais tarde. 45 |
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Para Ozouf a
festa ocupa um lugar de destaque pois é através dela que os homens são
convertidos em cidadãos. Ela torna
assim manifesto o eterno e o inatingível, na medida em que propõe um novo
lugar social. Segundo suas próprias
palavras "A elaboração da festa, é precisamente o lugar onde se alimenta
o desejo e o saber, onde a educação das massas se entrega às maiores fruições,
unindo a política à psicologia, a estética à moral e a propaganda à religião"
(OZOUF,1976: 21). O mesmo
poder-se-ia afirmar da obra de M. Vovelle, para o qual a festa revolucionária
constitui um momento especial a partir do qual se pode captar, ao vivo, as paixões,
as experiências e as expectativas inscritas nas práticas sociais cotidianas.
Mas a festa é igualmente um tempo de confraternização, de comunhão,
em que os homens aspiram e vivem num sentimento partilhado de utópica
igualdade. A festa passa,
então, a despertar um interesse inusitado entre os historiadores. Sintoma da
valorização deste novo objeto de pesquisa pode ser visto na realização de um
Colóquio Nacional que acontece na universidade de Clermond entre os dias 24 e
27 de junho de 1974, inteiramente dedicado ao tema. Este encontro
entre estudiosos da "festa" proporcionará a discussão e intercâmbio
de pesquisas, mais tarde reunidas num número especial da revista Annales
Historiques de la Révolution Française. O interesse pelas
manifestações populares não vai declinar na década seguinte. De fato, nos
anos oitenta, precisamente em 1981, vem a lume a obra de J.Le Goff e J-C Schmitt
que reúne pesquisas realizadas no espaço cultural francês sobre os ruidosos e
tumultuados charivaris que, desde os anos 40, já haviam sido estudados pelos
folcloristas, cuja figura mais destacada foi
Van Gennep. Outro objeto
amplamente pesquisado pelos historiadores foi o carnaval.
Neste particular, a obra Carnaval
de Romans de Em. Roy-Ladurie (ROY-LADURIE,Em.,1979) continua a ser
fundamental e a provocar instigantes pesquisas na França e no exterior, devido,
talvez em parte à grande acolhida na mídia e ao prestígio alcançado entre o
público leitor pela obra anterior Montaillou
que havia conhecido recordes de tiragens.
O carnaval é visto aqui como um pretexto para o desencadear de motins
sociais que expressam as tensões e conflitos a que estava submetida a população
da vila de Romans, situada às margens do rio Isère. 46 |
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Mas a atenção
dos historiadores não se limita ao campo dos fenômenos carnavalescos. Os
itinerários traçados pela historiografia annalista a partir de um conjunto de
influências várias, levaram-na a considerar a cultura popular como um fenômeno
mais complexo, fugindo às posições dicotômicas tradicionais.
E neste sentido, como vimos atrás a marca de Bakhtin está presente,
ainda que nem sempre reconhecida de forma explícita. Deste se incorpora a idéia
básica de que sendo a cultura popular, eminentemente ágrafa, ela constitui uma
fonte inesgotável de realimentação que, opondo-se à cultura oficial
dominante, nem por isso deixa de manter com a cultura letrada um interminável
diálogo. De fato, a partir
da obra de M. Bakhtin ficava cada vez mais difícil sustentar a cultura popular
como algo estanque, capturada numa definição congelada.
Em detrimento desta visão, a historiografia hoje tende a privilegiar
duas vias. Uma que valoriza as tensões
e os conflitos; outra que enfatiza os processos complexos de "negociação". Dentro da
primeira abordagem destacaríamos os trabalhos pioneiros de G.Rudé que de certa
maneira iriam inaugurar na historiografia social inglesa um modelo que seria
depois seguido por historiadores tais como E.P.Thompson,, C.Hill, E.Hobsbawm,
Terence Rage, K.Thomas, P. Burke, R. Muchembled, A. MacFarlane, N.Zemon Davies e
L.Hunt, para apenas retermos os nomes mais significativos e cujos obras alcançam
grande prestígio e popularidade no meio editorial brasileiro. Em relação a E.
Hobsbawm talvez valha a pena destacar que, muito embora no conjunto de sua obra
predominem os estudos sobre a dinâmica dos movimentos sociais,
enfatizando-se os aspectos referentes às lutas reivindicatórias, nem por isso
as manifestações da cultura popular deixam de estar presentes em suas preocupações,
como atestam os trabalhos Rebeldes
Primitivos e Bandidos,
publicadas respectivamente em 1959 e 1969. Já uma segunda
abordagem inclui os trabalhos de historiadores antropólogos, como R.Darnton,
profundamente influenciado pela obra do antropólogo norte-americano C.Geertz ou
ainda aqueles desenvolvidos por alguns integrantes do movimento conhecido por
"New Historicism", dentre os quais se destacam, entre os
historiadores, D. La Capra e S.Greenblatt. 47 |
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No primeiro grupo
a influência da antropologia também se mostra decisiva. Como o próprio
Thompson observa "Para nós, o impulso antropológico é percebido,
sobretudo, não na criação de modelos, mas na demarcação de novos problemas,
no modo de ver, com novos olhos, os velhos problemas, numa ênfase em normas e
sistemas de valor e rituais, na atenção às funções expressivas das formas
de tumultos e distúrbios e nas expressões simbólicas de autoridade, controle
e hegemonia". De fato, esta
afirmação pode ser plenamente confirmada nos estudos do próprio Thompson,
sobre as manifestações populares no séc. XVIII na Inglaterra (vejam-se os
trabalhos sobre a economia moral da multidão, tumultos sociais e rough music (1));
nos de K. Thomas sobre o carnaval visto, um pouco à semelhança de V. Turner
como uma válvula de escape pré-política, experimentada pelos integrantes de
sociedades rigidamente estruturadas e hierárquicas que dada a sua
espontaneidade e ritmo irregulares expressam e reforçam uma noção de tempo pré-industrial;
nos de N. Z. Davies quando analisa as várias manifestações populares
no séc. XVI na França moderna, tais como as "Sociedades Alegres", as
"Abadias do Desgoverno", os Charivaris (2),
"Grupos de Jovens" ou a "Festa dos Bobos". Contrariamente à
opinião do antropólogo V. Turner , N. Z. Davies não vê nas manifestações
populares carnavalescas ou nos "charivaris" uma simples válvula de
escape, sequer uma diversão primitiva ou pré-política como em K. Thomas.
Antes parece inclinar- se, neste particular, para Bakhtin, uma vez que as
considera como inerentes a todas as culturas. Contudo opõe-se a este último no
que diz respeito ao entendimento de que o carnaval instituí uma forma de
subversão social. Endossando uma posição de equilíbrio, visando contemplar
as especificidades históricas, a autora reconhece que a subversão inerente às
manifestações carnavalescas pode tanto servir para reforçar as normas, quanto
para sugerir alternativas possíveis à ordem estabelecida. Ao contrário do
que acontece com este último grupo de estudiosos, cujas pesquisas se encontram
interceptadas a todo o momento pelo saber antropológico, os denominados de New
Historicists vão antes buscar inspiração nos campos da Teoria literária, da
História da Literatura e da História de Arte. Uma vez efetuado
este breve mapeamento, talvez já seja possível inventariar as conseqüências
do impacto destas matrizes sobre a reflexão historiográfica brasileira que, a
partir dos finais dos anos 70, passa a descobrir a festa. Basicamente,
podemos localizar dois tipos de influência: a) a historiografia annalista,
através do novo enfoque sobre a cultura popular à qual se vêm incorporar as
reflexões de M. Foucault e de M de Certeau acerca da importância dos fenômenos
de normatização e dos conseqüentes "desvios"; b) a micro-história
italiana que havia, por sua vez, assimilado as sugestivas formulações de
Bakhtin. 48 |
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A seguir,
tentaremos elaborar um breve e sucinto mapeamento das principais tendências que
marcaram a historiografia brasileira, trabalho que só se tornou possível graças
à pesquisa bibliográfica inserida na dissertação de Mestrado de Daniela
Costa Saraiva intitulada A Festa Devota
Negra no Século XVIII (1701-1759) e cujos dados passamos a cotejar. De uma forma
geral, o tema em questão tem sido abordada no interior do processo escravista
com o objetivo de reconstituir o universo das práticas culturais desenvolvidas
pelos negros na tensa e difícil relação com o branco e sua cultura dominante.
Dentre essas práticas, os autores tem dado especial ênfase aos aspectos
religiosos e devocionais que se encontram sempre presentes em festas realizadas
em honra dos santos e dos patronos das Irmandades negras. A partir deste
eixo temos a obra de J.Scarano que em 1976 publica Devoção e Escravidão na qual o objeto de estudo são as
Irmandades negras, dando-se especial atenção às festas de cunho religioso.
Através delas a autora procura entender como esse espaço de
sociabilidades possibilitava ao escravo, totalmente alijado de direitos, a vivência
de uma condição diferente daquela a que estava submetido. As fontes utilizadas
eram unânimes em apontar para o fato de que o negro, através de sua efetiva
participação nas festas, acabava por usufruir de uma condição humana que lhe era
sistematicamente negada no cotidiano. Entre os
historiadores que se dedicam preferencialmente à análise das práticas
religiosas populares, destaca-se uma outra tendência que tende a privilegiar a
festa enquanto um locus de subversão e resistência sociais.
Dentro desta orientação destacamos a obra de Emanuel
Araújo Teatro dos Vícios; transgressão na sociedade colonial, aparecida
em 1993, que enfoca as festas como um momento particularmente propício aos mais
variados tipos de transgressão das normas sociais. Se a festa é um pretexto para a realização de folguedos, folias, comilanças, danças e músicas que naturalmente propicia todo o tipo de excessos do corpo e da alma, ela também constitui um lugar que enseja a prática de crimes. Por outro lado, o autor enfatiza que é através da festa popular que o pesquisador pode capturar um específico modo de viver da colônia, base fundamental para a manutenção da coesão social. 49 |
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Outro autor,
ainda que de formação antropológica é João José dos Reis (3). Em trabalho aparecido em 1990 A
Morte É uma Festa, parece antecipar, em parte, a abordagem efetuada por
Emanuel Araújo. Como este último
destaca é tradição muito peculiar da colônia
uma dada religiosidade popular que integra as manifestações festivas, a devoção
e a sexualidade, sendo a maioria delas patrocinadas pelas Irmandades religiosas
(negras ou não). Sublinha ainda,
que o catolicismo praticado na colônia estava impregnado de paganismo e
sexualidade não sendo tão somente partilhado pelas camadas mais baixas da
população. Elas eram igualmente
vividas por outros segmentos da população, inclusive as elites. Na mesma direção
se encaminham as pesquisas de José F. Carrato.
Elas vêm confirmar a existência na colônia de múltiplas manifestações
transgressórias que ocorriam ao longo das festas religiosas de caráter
popular. Idêntica orientação é
seguida por Martha de Abreu que em tese de doutorado defendida em 1996
intitulada O Império do Divino: festas
religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro.1830-1900, dá especial atenção
às manifestações populares. A
festa é então vista como um lugar privilegiado para se entender a existência
e os múltiplos significados que dela se desprendem, bem como suas peculiares
formas de prática religiosa. A autora chama a
atenção para dois aspectos que sempre se encontram presentes nas manifestações
populares por ela analisadas. O
primeiro aponta para o caráter de transgressão que se expressa nas folias, nos
cantos, nas danças, nas comilanças, atividades festivas que convivem, sem
ruptura, com os rituais próprios da religião
católica e que são partilhadas por amplos setores da sociedade carioca do século
XIX. O segundo aspecto põe em
relevo a contaminação entre o sagrado e o profano, pois se constata no corpus
documental a existência de barracas de comes e bebes, de pantomínias e outras
manifestações cômicas, tais como o teatro de bonecos, de cantorias/duetos,
magias e acrobacias no espaço contíguo ao religioso, algo que vem reforçar a
análise bakhtiniana da praça pública. Certos, de que
nosso balanço apenas deu conta de
uma parte ínfima da realidade, acreditamos que através deste breve peregrinar
tenhamos despertado o interesse pelo tema que nos ajuda a melhor compreender o
outro na complexa, multifacetada e instigante aventura construída pela cultura
popular. 50 |
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Hélade 1 (1), 2000: 38-52 BIBLIOGRAFIA ABREU, M. O Império do Divino: Festas Religiosas e Cultura Popular no Rio de Janeiro: 1830-1900. Niterói: UFF, Tese de Doutorado, 1995. ARAUJO, E. O Teatro dos Vícios: Transgressão e Transigência na Sociedade Urbana Colonial. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993. BAKHTIN, M. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o Contexto de François Rabelais. Brasília-São Paulo. Hucitec-Edunb, 1993. BERCE, Y.-M. Fête et Révolte. Paris, 1976. BOLLEME, G. La Bibliothèque Bleue. Paris, 1971. CARRATO, J.F. Igreja, Iluminismo e Escolas Mineiras Coloniais. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1968. CERTEAU, M. JULIA, D e REVEL, J. A Beleza do Morto: o Conceito de 'Cultura Popular'; in: REVEL, J. A Invenção da Sociedade. Lisboa-Rio de Janeiro: Difel-Bertrand Brasil, 1989. CHARTIER, R. A História Cultural: entre Práticas e Representações. Lisboa-Rio de Janeiro: Difel-Bertrand Brasil, 1990. DA MATTA, R. Carnavais, Malandros e Heróis: para uma Sociologia do Dilema Brasileiro. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1990. DAVIES, N.Z. Culturas do Povo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. __________ Fiction in Archives. London: Polity Press, 1987. ECO, U. Los Marcos de la 'Libertad' Cómica; in: ECO, U. IVANOV, V.V.y RECTOR, M. Carnaval! México: Fondo de Cultura Económica, 1989. GINZBURG, C. O Queijo e os Vermes: o Cotidiano e as Idéias de um Moleiro Perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. HILL, C. O Mundo de Ponta-Cabeça. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. HOBSBAWM, E. Rebeldes Primitivos. Rio de janeiro: Zahar, 1978. __________. Bandidos. Rio de Janeiro: Forense, 1976. HOBSBAWM, E. e RANGER, T. A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984. JAUSS, J. Pour une Esthétique de la Réception. Paris: Gallimard, 1978. LASLETT, P. The World We have Lost. London, 1965. 51 |