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ISSN 1518-2541 Hélade 1 (1), 2000: 02-16 Submissão: Mar/2000; Aceitação: Abr/2000 Ana Teresa Marques Gonçalves Professora de História Antiga e Medieval da Universidade Federal de Goiás. Mestre em História Social pela USP. Doutoranda em História Econômica pela USP.
Plebe urbana de Roma e Grupos Provinciais no Período Severiano: o testemunho de Herodiano
A Plebe Urbana de Roma é um grupo extremamente heterogêneo, como demonstram Zvi Yavetz (Yavetz,1984), em sua obra La Plèbe et le Prince, e P.A. Brunt (Brunt,1981,87-117), em seu texto La Plebe Romana. E as fontes textuais, que chegaram até nós, tratam pouco deste sujeito. Quando ele aparece citado, normalmente é apresentado como insolente, inconstante, entre outros adjetivos desabonadores. Herodiano não foge a esta regra. Não há em seu texto a "transcrição" de nenhum discurso, feito pelos imperadores, que tenha sido proferido diretamente para o povo romano, pois para ele:
Numa passagem muito interessante, Herodiano narra um discurso feito por Maximino para os seus soldados. Nele, Maximino expressa a seguinte opinião sobre a plebe de Roma, que estaria apoiando a sua deposição, ou seja, estaria lhe fazendo oposição, já visando a ascensão de Gordiano:
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Este comentário de Herodiano, citado como dito por Maximino, demonstra que a plebe ainda era um ator político, leviano e versátil, com o qual os imperadores se preocupavam. Porém, facilmente influenciável (1), principalmente quando a força do exército estava envolvida na questão. Autores como P.A. Brunt preferem ver este exército como a plebe rural em armas, que por interesses diferentes acabava por divergir da plebe urbana de Roma (Brunt,1981: 11). Enquanto grupo heterogêneo, a plebe urbana terminava agindo, segundo Herodiano, de forma desorganizada. Bastaria ter astúcia para enganar a plebe e fazê-la mudar de opinião e de lado num conflito (Herod. VIII,10,7). Realmente em alguns momentos, a plebe e algumas legiões ficaram de lados opostos, como na parte final do governo de Maximino, quando a plebe de Roma enfrentou, com apoio senatorial e armas caseiras, os soldados de Maximino acampados na capital do Império (Herod. VII,11,6-8). Todavia, perceba-se como Herodiano faz questão de enfatizar que ela agiu em consonância com os interesses senatoriais e a partir de um estímulo dado exatamente pelos senadores. Yavetz comenta que estas posições de Herodiano são típicos clichês do ideário senatorial (Yavetz,1986: 143). Por ser invejosa, propensa à mudança, inconstante e facilmente persuadida, a plebe não precisava ser estimulada à ação mediante longos discursos, como os que eram feitos para os soldados e os senadores. Uma leitura superficial dos autores antigos pode levar a pensar que, no Império Romano, a plebe deixou de ser um ator político (Yavetz,1984: 28). No entanto, pela própria releitura atenta da obra de Herodiano vemos que ela reagia às ações imperiais, apoiando ou se opondo aos imperadores, que buscavam conquistá-la através da distribuição de bens e de dinheiro e do oferecimento de jogos. Assim, o imperador assumia a função de patrono, trocando benesses econômicas por apoio político. No período severiano, a plebe nunca chegou a agir para derrubar um imperador, mas a preocupação que todos os imperadores deste período tiveram em deixá-la satisfeita indica que ela ainda tinha algum poder político (2). Herodiano deixa claro que Macrino, por exemplo, ao sentir o desagrado das legiões que anteriormente o apoiavam, tenta ir para Roma, pois esperava o apoio da plebe (Herod. V,4,12). A mesma plebe que anteriormente havia ficado muito assustada com o assassinato de Geta (Herod. IV,4,4), e que posteriormente acompanhará Heliogábalo nas suas procissões, tentando se aproximar do imperador, que jogava para ela, a multidão, objetos de ouro e prata, tecidos e animais (Herod. V,6,8-9). 03 |
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Dizer que a plebe urbana de Roma não consegue agir para fazer ou desfazer soberanos (3), não quer dizer que ela não se agite e demonstre os seus pontos de vista, quase sempre agindo coletivamente, como bem demonstra Ramsay Macmullen (Macmullen,1992: 163-191). E os imperadores têm que lidar com ela através de instrumentos "visíveis": distribuições (4) e jogos, e "invisíveis": propaganda (Macmullen,1992: 163) (5). Os senadores preferiam realmente ver a plebe como algo amorfo, pois temiam revoluções populares (Herod. I,13,7). Às vezes ocorria dela ter simpatia por imperadores que fugiam ao controle senatorial, como foi o caso de Cômodo (Herod. I,15,7) (6). Mas, às vezes, agia de acordo com os interesses senatoriais, como ocorreu na aclamação de Pertinax. Segundo Yavetz, nos períodos de Pertinax e de Dídio Juliano temos as maiores manifestações populares do final do II século, no que se refere à escolha de novos imperadores (Yavetz,1984:28). Analisemos as informações resgatadas do texto de Herodiano.Para este, a plebe foi ao Pretório para garantir a aclamação de Pertinax, fazendo com que os Pretorianos aceitassem o novo imperador, escolhido pelo Senado:
A seguir a plebe proclama Pertinax Augusto e Pai da Pátria. Contudo, após sua proclamação, Pertinax faz um discurso para os soldados e não para a plebe, pois esta já o apoiava (Herod. II,2,9-10). Mesmo assim, a plebe o acompanha até o Palácio imperial, continuando a protegê-lo dos Pretorianos (Herod. II,3,1). Neste momento da narrativa de Herodiano, a plebe aparece como uma heroína política, como defensora dos princípios imperiais e como uma atriz política importante. Todas as vezes em que ela age de acordo com os interesses senatoriais, Herodiano a descreve desta forma, chegando mesmo a contradizer as posições anteriormente por nós relatadas. Ela aparece como insolente e inconstante quando está apoiando imperadores defendidos pelos senadores; quando faz oposição aos imperadores também odiados pelos segmentos senatoriais, ela é descrita com cores menos fortes (7).04 |
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Em troca deste apoio, Pertinax deu ordens aos soldados para que pusessem fim à repressão contra o povo e proibiu que levassem pedaços de madeira e que golpeassem os transeuntes (Herod. II,4,1) (8). Por perder um bom patrono, o povo fica tão turbulento após seu assassinato (Herod. II,6,1).A plebe aparece mais uma vez como um elemento decisivo na deposição de Dídio Juliano. Este recorre a uma Guarda dupla por temer a hostilidade popular, que se materializaria em pedradas vindas das casas durante os passeios do imperador (Herod. II,6,13). Sua insatisfação se manifesta num dos locais propícios para isto: no circo (9). Herodiano narra o momento no qual Juliano é insultado pela plebe, a qual demonstra o seu apoio a Nigro (10), que por sua vez acreditava que o Império lhe estava assegurado, pois contava com a vontade do povo romano e com o entusiasmo de suas legiões (Herod. II,8,7):(11) A plebe acaba por acusar Juliano de covardia, Nigro de negligência e de temer a vinda de Septímio Severo (Herod.II,12,2). Ao tomar uma posição condizente com a do Senado, Herodiano chega mesmo a elogiar esta plebe ao relembrar:
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Povo este que acompanhou Severo Alexandre na sua saída de Roma para lutar contra os persas, pois este havia governado com moderação (Herod. VI,4,2). No entanto, sabemos que só moderação não bastava a um bom patrono. Os imperadores buscaram evitar a oposição da plebe mediante atitudes bem pragmáticas, como já comentamos anteriormente. Septímio Severo distribui dinheiro e promove espetáculos para a plebe assim que chega a Roma (Herod. II,14,5-6). Na crise com Albino, mais uma vez reparte dinheiro para a plebe (Herod. II,8,5 e III,8,7) e oferece espetáculos, os chamados Jogos Triunfais (Herod. II,8,7-10). O próprio Herodiano ressalta que estas atitudes visavam ganhar o apoio do povo para o seu governo (Herod. III,8,10). Repete estes expedientes ainda uma vez mais ao finalizar a campanha do Oriente, após ser recebido em triunfo (Herod. III,10,2). Caracala só se preocupou em agradar o exército e acabou sofrendo a oposição da plebe (Herod. IV,6,5), da mesma maneira que Macrino. Já Heliogábalo assim que chegou a Roma entregou ao povo as gratificações habituais nas sucessões imperiais (congiaria) e ofereceu espetáculos, tentando, segundo as palavras de Herodiano, agradar o povo com espetáculos e festas (Herod. V,5,6-8). E foi pela escassez de distribuições que Severo Alexandre perdeu a popularidade (Herod. VI,9,5). Deste modo, acreditamos que a plebe urbana de Roma ainda era um ator político no período severiano, e que, apesar de não interferirem diretamente na escolha e na deposição dos imperadores, seus componentes também participavam das forças de oposição aos governantes que não eram bons patronos, ou seja, que não exerciam bem a sua Liberalitas, a sua generosidade (12). Para a plebe o bom imperador, isto é, aquele ao qual ela não se oporia, deveria ser um grande distribuidor de benesses com equidade. Ela se opõe e demonstra o seu descontentamento através de tumultos, como os feitos no circo. Esta plebe urbana só se reúne quando seus interesses mais prementes estão comprometidos: a sua sobrevivência, que era facilitada pelas distribuições imperiais e pela manutenção do abastecimento, principalmente de trigo. Porém , é importante ressaltar que ela tem o poder de se mobilizar e de se unir quando os seus interesses estão sendo prejudicados de alguma forma. Como coloca Yavetz, o soberano devia satisfazer as necessidades fundamentais do povo, para responder à imagem que esta plebe fazia do soberano ideal (Yavetz,1984: 187). Ainda não atingimos o momento histórico no qual a plebe se mobiliza por causa de rivalidades religiosas ou devido às facções do circo (Yavetz,1986: 49).As facções circenses marcaram principalmente o quarto século, e quanto às querelas cristãs, os autores consultados são unânimes em afirmar que existiram apenas perseguições isoladas e locais (África e Egito, mais precisamente) nos governos de Septímio Severo e Caracala, e tal fato não suscitou nenhuma grande comoção popular. Já os governos de Macrino, Heliogábalo e Severo Alexandre são encarados como períodos até mesmo favoráveis aos cristãos, pois são momentos históricos nos quais os costumes orientais estiveram mais em voga no Império Romano (Santos Yanguas,1982: 149-171; Leppelley,1969: 41-46; Sordi,1974: 341-356) (13). 06 |
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É a falta de um bom patrono que a leva a se movimentar no cenário político do período severiano. Mantê-la feliz era uma forma de evitar mais um elemento integrador das forças de oposição aos imperadores (14). Em vários momentos da narrativa de Herodiano, encontramos referências a grupos provinciais que se movimentaram para apoiar ou se opor aos candidatos a imperador ou aos governantes já aclamados. Desde Cômodo já vemos a presença de provinciais na Corte, no Senado ou atuando politicamente a partir de suas próprias províncias (15). Neste artigo, entretanto, nos limitaremos à participação sócio-política dos grupos que ainda permanecem nas províncias, e de lá demonstram as suas convicções políticas.Como afirma Mason Hammond, muitos imperadores buscaram o apoio das províncias para ascenderem ao poder supremo, tornando-se em alguns casos a voz destas províncias (Hammond,1956: 126). Elas já haviam sofrido até o período severiano um profundo e marcante processo de romanização (16), como bem destacam Sandra Gozzoli (Gozzoli,1987: 81-108) e Fergus Millar (Millar,1983: 76-96). Este último enfatiza a relação de patronagem que sempre marcou a relação de alguns imperadores com algumas cidades provinciais, na qual algumas benesses econômicas deveriam ser retribuídas na forma de um devotamento político e militar. Lembremo-nos também de que a Liberalitas imperial poderia ser dirigida a particulares ou a comunidades (Manning,1985: 78 ), de acordo com as necessidades vigentes.Para Millar, três fatores marcaram a relação de Roma com as cidades provinciais: o exército, já que muitos legionários eram de origem provincial; a patronagem, que vinculava as cidades ao imperador; e as leis romanas, que integravam as cidades sob uma mesma tutela de caráter jurídico (Millar,1983: 77). Sandra Gozzoli, por sua vez, acrescenta elementos a esta análise. Para esta autora, não se pode esquecer o apoio que Roma, desde o período republicano, dava às aristocracias provinciais, esperando delas fidelidade (Gozzoli,1987: 82). Além disso, a própria presença de legiões nestas províncias poderia servir para a manutenção da estabilidade social e da ordem romana em seu interior (Gozzoli,1987: 91). 07 |
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De acordo com G.W. Bowersock, a principal forma de oposição assumida pelas províncias no Principado foram as sedições locais, ou seja, tumultos promovidos por algumas cidades provinciais como forma de protesto por medidas econômicas, políticas ou sociais tomadas pelos imperadores. Portanto, as cidades provinciais se manifestariam através de movimentos de subversão da ordem constituída pelos romanos (Bowersock,1987: 291-293). Ao relermos criticamente a obra de Herodiano, encontramos outras formas destas cidades provinciais se inserirem no cenário político imperial, principalmente nos momentos de sucessão de governantes. Nigro, ao buscar apoio para a sua ascensão ao comando imperial, pede o apoio dos soldados e dos habitantes das províncias do Oriente (Herod. II,7,7). Consegue o respaldo de uma cidade muito importante econômica e estrategicamente falando: Antioquia (17), que fôra atraída para o lado de Nigro por promessas de compartilhar os benefícios após um resultado favorável para o seu candidato ao Imperium (Herod. II,8,4). Sabemos por Herodiano que várias outras cidades provinciais orientais também apoiaram Nigro, esperando exatamente estas mesmas benesses prometidas a Antioquia (Herod. II,8,8 e II,8,10). Unindo-se a Nigro, se opõem a Severo, que por sua vez consegue o apoio das cidades provinciais ocidentais para a sua causa (Herod. II,9,1-3), mediante o envio de mensagens escritas para as províncias da Ilíria e da Panônia e para os governadores dos povos do norte (Herod. II,9,12 e II,10,1).Os grupos provinciais aproveitavam, assim, a disputa pelo poder para escolher um dos contendores, e desta forma garantirem a concessão de benefícios por parte daqueles que foram apoiados por eles. É sem dúvida uma espécie de patronagem, pois trocas são feitas entre membros de esferas desiguais. Severo preocupa-se inclusive em ir proferindo discursos de cidade em cidade até chegar a Roma (Herod. II,11,6), e quando enfim se lança contra Nigro e seu grupo de apoio, recruta tropas em todas as cidades da Itália, Ilíria e Trácia (Herod. II,14,6). Nigro, por seu lado, envia mensagens para os governadores das províncias que o apoiavam, pedindo para que estes vigiassem as estradas e os portos, para evitar o movimento das legiões fiéis a Septímio (18) (Herod. III,1,2).08 |
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Não obstante, estes grupos provinciais nem sempre lucravam com estas escaramuças entre os pretendentes ao poder supremo. Sabemos que várias cidades optavam por um lado e se opunham ao outro devido a inimizades antigas que contrapunham cidades de uma mesma região, principalmente no que concerne à parte oriental do Império. Se uma cidade se colocasse a favor de um candidato, a sua cidade inimiga se colocava imediatamente contra ele e apoiava o outro pretendente. Este é o caso por exemplo das cidades de Nicomédia e Niceia na Bitínia (Herod. III,2,7-10 ) ; de Laodicéia e Antioquia na Síria (Herod. III,3,3); e de Tiro e Berito na Fenícia (Herod. III,3,5). Estas apoiavam os seus escolhidos com o fornecimento de víveres, dinheiro e de homens para integrarem as legiões competidoras (Herod. III,2,10). O problema para estas cidades se dava quando os seus candidatos eram derrotados no conflito armado. Nigro, por exemplo, quando começa a perder para Severo, manda lanceiros mauritanos (19) e arqueiros para matarem a população e incendiar e pilhar as cidades que começaram a mudar de lado no meio da batalha, ou seja, que o atraiçoaram, ou ainda como coloca Herodiano, que haviam feito uma insolente rebelião (Herod. III,3,3-5). Ao vencer, Septímio manda destruir Bizâncio e Antioquia, cidades provinciais cujos grupos sociais lhe haviam feito oposição. Suas populações são submetidas a cidades aliadas. Contudo, Septímio, ao mesmo tempo em que as destrói, manda reconstruir as cidades que haviam sido destruídas por Nigro (Herod. III,6,9).Esta situação entre os grupos provinciais e os imperadores se repete no conflito surgido entre Clódio Albino e Septímio Severo. Albino vai para a Gália e escreve a governadores das províncias vizinhas, ordenando o envio de dinheiro e de provisões para o seu exército. Sabemos que algumas províncias obedeceram, outras não, preferindo continuar a apoiar Severo (Herod. III,7,1). Vemos, então, que a cooptação dos provinciais pelos candidatos ao cargo imperial começava sempre pelo governador da província. Uma outra situação se vislumbra na relação imperador/grupos provinciais quando a sucessão já se encontra definida. Tentando se mostrar como bons patronos, eles buscam dar atenção aos problemas provinciais. Após a campanha do Oriente, Septímio atendeu assuntos das províncias e visitou as legiões estacionadas na Mésia e na Panônia (Herod. III,10,1). Quando este morre e promove-se a sua apoteose, descrita com detalhes por Herodiano, todas as cidades provinciais lhe enviam presentes póstumos (Herod. IV,2,9), como que agradecendo a atenção que lhes foi dispensada quando o imperador ainda vivia. Seu filho Caracala manteve esta preocupação com as províncias e vai à região do Danúbio e a Trácia, procurando atender a diversos assuntos das cidades na medida do possível (Herod. IV,8,3). Ele sai de Roma para ocupar-se da administração militar e para inspecionar as províncias (Herod. IV,7,2). Ao assumir o poder havia eliminado, além de senadores de alta linhagem e fortuna, governadores e procuradores nas províncias vinculados a Geta (Herod. IV,6,5). 09 |
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Entretanto, uma das passagens mais interessantes da obra de Herodiano sobre o relacionamento mantido entre os imperadores e os grupos provinciais, que misturava respeito, ódio e subversão, é a transcrição da visita de Caracala a Alexandria. Ele é recebido pela população com uma chuva de flores e tochas de fogo para alumiarem o seu caminho (Herod. IV,8,7-8). Todavia, apesar de toda esta recepção, o objetivo de Caracala era acabar com os alexandrinos. Segundo Herodiano, este ódio de Caracala pelos alexandrinos se devia ao fato destes fazerem piadas, colocando em evidência os erros do imperador (Herod. IV,9,4). Acreditamos que este ódio era mais profundo e se relacione com o fato dos alexandrinos num passado não muito distante terem feito oposição a Caracala. Lembremo-nos de que, de acordo com o próprio relato de Herodiano, quando Geta ainda vivia, os dois irmãos pensaram em dividir o Império entre si. Caracala ficaria com a Europa e Geta com a Ásia. A capital da parte imperial de Caracala seria Roma, onde ficariam para auxiliá-lo os senadores europeus, e ele teria direito também de organizar um acampamento de legiões fiéis a si em Bizâncio. Já Geta montaria um acampamento militar para suas tropas na Calcedônia da Bitínia, seria auxiliado pelos senadores originários da Ásia, e firmaria a capital da sua parte imperial na cidade da Antioquia ou, exatamente e não por acaso, em Alexandria (Herod. IV,3,5-9) (20).Portanto, Caracala deveria enfrentar uma oposição fomentada por grupos alexandrinos, que outrora foram favoráveis a seu irmão. Ao atacar a cidade de Alexandria, ele teria procurado eliminar parte da oposição que se organizava contra ele. Ele ordenou que os jovens da cidade se apresentassem para formarem uma falange. Quando estes se reuniram na praça principal da cidade, ele se retirou com sua guarda pessoal e mandou que algumas legiões que o acompanhavam atacassem os jovens. De acordo com Herodiano, o rio Nilo ficou vermelho de sangue com o massacre (Herod. IV, 9,4-8). Heliogábalo, por sua vez, conseguiu descontentar algumas províncias quando nomeou escravos e libertos para governarem algumas delas (Herod. V,7,7). Outrossim, Severo Alexandre tentou manter o quanto pôde um bom relacionamento com os grupos provinciais. Tanto que os governadores da Síria e da Mesopotâmia se apressam em lhe escrever, avisando sobre o perigo persa que se aproximava (Herod. VI,2,1). Mais tarde serão os governadores da Ilíria que o informarão a respeito do ataque germânico promovido nas regiões do Reno e do Danúbio, colocando a própria Itália em perigo, pois a Ilíria forma um corredor que liga a Germânia com a Itália (Herod. VI,7,4). Estes governadores pediam a presença de seu patrono protetor, o imperador e de seu exército, para ajudá-los a conterem os ataques estrangeiros (21), pois era obrigação do governo central a defesa do território.10 |
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Enfim, é no governo de Maximino que teremos reais levantes provinciais contra as ações imperiais e à figura do imperador. Levantes estes que lembram os descritos por Bowersock, ocorridos na primeira dinastia do Principado, e que seriam formas de subversão provinciais. Este imperador enfrenta um levante na Líbia, quando a sua aristocracia reclama dos altos impostos (Herod. VII,4,1-6), e tantos outros espalhados por várias províncias e incitados pelo próprio Senado, que pede o apoio dos grupos provinciais para minar o poder de Maximino (Herod. VII,7,5). Deste modo, no período severiano vemos alguns grupos provinciais fazendo oposição aos imperadores, isto é, integrando forças sociais oposicionistas, mas não capitaneando ou direcionando estas forças. Eles são incitados ou convidados a participarem destas forças em troca do oferecimento de benesses de diversas ordens. O mais comum neste período foi estes grupos provinciais se posicionarem durante os conflitos sucessórios ao lado de algum candidato e, portanto, em oposição a outros. Estes grupos foram bastante contidos não só por forças coercitivas, pois várias legiões estavam estacionadas em seus territórios, mas também por meios de propaganda, como a expansão do culto imperial, por exemplo. Porém, este é um assunto a ser tratado em um próximo artigo.
DOCUMENTAÇÃO
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Hélade 1 (1), 2000: 02-16 5 O conceito de invisibilidade usado por Macmullen indica apenas que os imperadores vão utilizar símbolos e idéias para se aproximarem da plebe e conseguirem exercer um certo controle sobre ela, como veremos no próximo capítulo. 6 Em seu governo aconteceu o maior levante popular citado por Herodiano: a revolta no circo contra o Prefeito do Pretório Cleandro, que acaba opondo a Guarda Pretoriana às coortes urbanas (Herod. I,13,1). 7 Na obra de Herodiano toda vez em que há uma referência à opinião publica, esta se refere à opinião veiculada pelos senadores. Eles aparecem como os formadores de opinião ao controlarem boa parte dos meios de comunicação da época. É muito comum a repetição da velha máxima dos Senatus Consulta: Senatus Popolusque Romanus, ou seja, o Senado e o Povo Romano, como se a plebe sempre compartilhasse das opiniões senatoriais. 8 Pertinax se preocupou também em conseguir o apoio da plebe rústica, ao distribuir terras para os camponeses (Herod. II,4,6-8). 9 É no circo também que a plebe demonstra a sua insatisfação durante o governo de Caracala (Herod. IV,6,5). 10 Não nos esqueçamos de que Herodiano apresenta Nigro como um imitador de Pertinax, amável e justo (Herod. II,7,5). Qualidades estas que deveriam agradar os senadores e a plebe. 11 Vide também: Herod. II,7,6. 12 Sobre a virtude da Liberalitas, sua reabilitação no período imperial e sua conotação francamente política, vide: Manning, 1985: 73-83.
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Hélade 1 (1), 2000: 02-1613 Sobre a relação mantida entre pagãos e cristãos no período severiano, vide também: Homo, 1931; Krill, 1974: 27-44; Macmullen, 1984; Momigliano, 1987: 103-129. 14 Vide sobre esse assunto: Yavetz, 1986: 181. 15 Sábios vêm das províncias para educar Cômodo (Herod. I,2,1). 16 Segundo Sandra Gozzoli, é exatamente na passagem do II para o III século que se opera a completa romanização das províncias (Gozzoli, 1987: 108). Opinião esta compartilhada por Sherwin-White, que acrescenta que é no período dos Severos que se realiza a fusão e a equalização entre o leste e o oeste imperiais, incrementadas pelas várias adlectiones de orientais promovidas por estes governantes (Sherwin-White, 1939: 216 ). Acreditamos que um sintoma deste processo seja exatamente a promulgação do Edito de Caracala em 212, mesmo que este autor defenda que os motivos de Caracala para levar adiante este Edito tenham sido inteiramente fiscais ( Sherwin-White, 1939: 277). 17 Para Herodiano este apoio da Antioquia é fruto de um impulso e não de uma reflexão (Herod. III,1,3). 18 Nigro chega mesmo a enviar cartas para os reis da Pártia, da Armênia e de Hatra, em busca de alianças (Herod. III,1,2), visando expandir a sua força política de apoio. 19 Sobre a relação desenvolvida entre a Mauritânia e seus famosos lanceiros e arqueiros com os imperadores severianos, vide: Speidel ,1972: 850-860; Arnheim, 1972: 33. Mauritânia era uma província governada por membros da ordem equestre escolhidos pelos imperadores. 20 Segundo Herodiano este projeto de divisão do Império foi rechaçado por Júlia Domna (Herod. IV,3,9). 21 Governadores estes que nos governos de Cômodo e de Septímio Severo tiveram os seus filhos detidos, como forma dos imperadores garantirem o seu apoio ao governo vigente. Segundo Herodiano, os que mais sofreram com esta prática foram os governadores do Oriente (Herod. III,2,5). Quando Nigro toma Bizâncio e Severo se apossa de Cízico, Emiliano, governador da Ásia, apóia Nigro. Imediatamente, Severo manda aprisionar os filhos de Emiliano em Roma, para que ele reconsidere a sua posição ( Herod. III,2,2 ).
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