Diálogo com a Arqueologia da Macedônia

Hoje, o historiador da Antiguidade não pode desenvolver suas pesquisas sem que tenha uma aproximação efetiva com a Arqueologia.  Isto se faz necessário visto que documentação arqueológica é a que cresce a cada ano, enquanto que a documentação textual (não a epigráfica) permanece mais ou menos a mesma.  Outrossim, o documento arqueológico nos dá um outro tipo de informação que nos possibilita ter uma visão mais circunstanciada do objeto em pesquisa.

Não poderíamos apresentar esta tese sem ter recorrido a este tipo de documento e sem ter a assessoria de arqueólogos, no caso, a Profa. Haiganuch Sarian da Universidade de São Paulo e do Prof. Jean-Claude Gardin do CNRS (Paris).

É bem verdade que o nosso objeto de pesquisa nos compelia a este diálogo, visto que por um lado não possuíamos documentos textuais macedônicos e por outro a documentação arqueológica da região da Macedônia, que dispúnhamos, é ainda muito pequena. Tínhamos um problema técnico do ponto de vista arqueológico e ao mesmo tempo uma vontade muito grande de não abolir este capítulo, pois considerávamos que uma tese de História Antiga, às vésperas do século XXI, não poderia deixar de lado nem a documentação arqueológica, nem as práticas e conhecimento dos arqueólogos, ainda que as informações que deles obtivemos sejam provisórias, visto que as escavações referentes ao VIIIº e VIIº séculos a.C. na Piéria ainda nos fornecem um número de dados relativamente substanciais para que se possa estabelecer explicações mais contundentes.

Sendo assim, procuramos estabelecer um caminho que se adaptasse à nossa situação. Primeiro fizemos um levantamento do Bulletin de Correspondance Hellénique (BCH) dos anos de 1959 a 1992, observando exclusivamente as indicações acerca da Macedônia no VIIIº e VIIº séc. a.C. e organizando os dados que se referissem aos sítios situados na região da Piéria.  A seguir, escolhemos alguns arqueólogos que estudaram outras regiões fora da Macedônia, mas no mesmo período, para tentarmos seguir o modelo da Escola de Jean Pierre Vernant, de análise comparativa.

Dentre os pesquisadores que citamos na bibliografia, escolhemos trabalhar, neste capítulo, com N. Hammond, J.-N. Corvisier, M. Sakellariou, M. Andronicos, Marija Gimbutas, E. Borza, Claude Bérard, Bruno d'Agostino, Anthony Snodgrass, Patrizia Gastaldi, Gianni Bailo Modesti e Colin Renfrew (1)

Claude Bérard (2) analisa as descobertas arqueológicas em Erétria, na Eubéia, principalmente o complexo funerário de Lefkandi.  Compara-o com o de outras regiões helênicas, no VIIIº séc. a.C. e conclui que a tumba monumental do " príncipe" micênico (hérôon) ou tumba real foi recuperada socialmente no VIIIº séc. a.C. por um processo político de heroificação que denota a emergência da organização políade e o processo de colonização (fundação de apoikías).  Anthony Snodgrass (3) confirma esta tese, distinguindo as práticas ligadas ao culto da tumba de herói (hérôon) àquelas relacionadas ao culto dos mortos.  Este pesquisador apresenta a heroificação como um dos elementos inovadores do VIIIº séc. a.C. capaz de produzir uma solidariedade intergrupos e provocar com isso a consciência de identidade cultural, fortalecendo a rede político-social das póleis que se formavam.   Segundo ele, o hérôon era um espaço coletivo de consagração religiosa e de proteção social, símbolo da tradição cultural da comunidade.

O arqueólogo sinaliza que o hérôon, a malha urbana, a agorá, o templo, a héstia comunal, as muralhas, as necrópoles fora dos muros, os altares e os fortes nas fronteiras caracterizam, de forma espacial e material a emergência da pólis.

Materialmente, a tumba do príncipe (hérôon) apresenta-se com uma arquitetura complexa e monumental, contendo uma variedade de objetos funerários, muitas vezes artefatos de luxo, fabricados no local ou importados, denotando a presença de uma divisão social do trabalho e de um espaço urbano já desenvolvido.

Paralelamente à "tumba real", transformada num lugar de culto e de proteção pública (herôon), encontra-se em outras regiões da península Balcânica (Macedônia) e na Itália, no VIIIº e VIIº séculos a.C. um outro tipo de tumba, chamada de "tumba do guerreiro".  Encontramos o modelo deste tipo de tumba nas pesquisas desenvolvidas por Bruno d'Agostino que analisa a necrópole do sítio de Pontecagnano, na Campânia, e por Gianni Bailo Modesti e Patrizia Gastaldi (4) que estudam um grupo de sepulturas no sítio de Oliveto-Cairano e no vale do Sarno, ambos igualmente na Campânia (VIIIº século a.C.).

Os três pesquisadores concluem que a presença da "sepultura do guerreiro" indica a emergência de um grupo político hegemônico, uma elite que promove um outro tipo de organização política da comunidade.  A “tumba do guerreiro” se qualifica pela presença de artefatos funerários que procuram destacar exclusivamente esta função militar na sepultura masculina enquanto que os bens de prestígio são depositados na tumba feminina.

Observamos que a presença, no VIIIº /VIIº séculos a.C, destas "tumbas reais" heroificadas e a das "tumbas de guerreiros", marcavam dois espaços sociais com tempos históricos diferentes.  Um centro helênico onde se processa a formação das póleis e uma periferia onde as comunidades organizam-se politicamente através de uma elite guerreira em forma de chefias ou realezas tradicionais.

Os achados arqueológicos dos sítios macedônicos entre os rios Áxios e Haliacmon que encontramos através da pesquisa no Bulletin de Correspondance Hellénique nos indicaram que as comunidades que aí habitavam apresentavam um grau de complexidade social diferente que as do sul da península Balcânica.  As sepulturas, do VIIIº/VIIº séc.a.C., da necrópole de Vergina, pesquisadas por M. Andronicos (5) se aproximam do modelo do tipo de "tumba do guerreiro" de d'Agostino, Bailo Modesti e Patrizia Gastaldi; desta forma, podemos, portanto, inferir que se processou, nesta região da Macedônia a emergência política hegemônica de uma “elite guerreira” entre os éthne que aí se fixaram, pelo menos desde o segundo milênio a.C..

O complexo funerário da necrópole de Vergina, estudado pela equipe de M.Andronikos e as tumbas referentes ao VIIIº e VIIº séculos a.C. foram publicados no Bulletin de Correspondance Hellénique de 1959, 1960 e 1961 e o próprio Andronicos publicou um livro, Vergina the Royal Tombs (ver nota 1).  Estas publicações tratam, inicialmente, das sepulturas da Idade do Ferro (1000 a 700/650 a.C.).

A necrópole de Vergina apresentou um grande número de sepulturas de períodos diversos, indicando que a região havia sido ocupada continuamente de 1000 a.C. até o período helenístico com uma crescente complexidade em relação aos ritos funerários, demonstrando que Vergina/Aigai fora um centro político e sagrado.

Organizamos algumas pranchas (nº 1/19 – ver na tese), com o material que encontramos no Bulletin (BCH), referentes as tumbas do VIIIº e VIIº séculos a.C. em Vergina, para que pudéssemos observar atentamente o material selecionado, analisa-lo, compará-lo, estabelecer as homologias com os estudos de Lefkandi e da Campânia, e, a seguir, tentar uma generalização para o processo de formação da realeza dos macedônios.

Em relação às tumbas masculinas, observamos a simplicidade do mobiliário funerário. O homem era enterrado com dois vasos de cerâmica, sem decoração ou imagem, e com as armas de guerra (espada, pequenas facas, lanças e pontas de seta...).  Em contrapartida, as tumbas femininas possuem uma variedade de artefatos, provavelmente da vida quotidiana da mulher do Chefe Guerreiro.  Trata-se de objetos votivos e jóias adornando o corpo.  O morto ostentava sua função guerreira e a mulher, o seu papel na família, na casa e na comunidade através da ostentação dos bens de prestígio do grupo. A guerra, a riqueza e a fecundidade eram reproduzidas nas tumbas como valores a serem preservados. Além do mais, Andronicos encontra entre os tumuli um grande número de sepulturas formando uma rede apertada, que segundo ele seria a indicação de que o cemitério pertenceria a uma comunidade bem organizada em famílias ou grupos domésticos já começando a estabelecer uma hierarquia social complexa (6). 

Comparando a documentação proveniente de Lenfkandi com a da Piéria, fica claro que, quanto à forma e ao mobiliário funerário, a Macedônia é uma região periférica em relação às regiões de formação políade.  A documentação nos leva a aproximar o caso dos macedônios ao das teses sobre a emergência do poder político de uma elite guerreira.  Mas como toda cultura tem suas especificidades, observamos que, se por um lado os pastores da Piéria iniciam um processo de organização política definindo a pertença do território, por outro lado este processo de emergência de uma elite guerreira não corresponde a formação de Chefias, mas a de realeza.  Os Chefes, dos diversos éthne, promovem uma organização política em forma de realeza proclamando a necessidade de conservação das tradições comuns.

Em relação a este aspecto de preservação da cultura ancestral, Hammond (7) nos diz que, por volta do VIIIº século a.C., os macedônios pastores/guerreiros transumantes, passaram a ser ao mesmo tempo pastores e agricultores.  Neste processo conservaram inicialmente a organização tribal e as suas Chefias que conheciam, e só aos poucos foram se adaptando ao princípio de residência e vizinhança.  A emergência da realeza, entre os macedônios, fez da família dos Argeadae/Temenidae a família real.

Acreditamos que os Argeadae/Teminidae possuíam a função de depositários da tradição ancestral da comunidade dos pastores e que este fator foi que lhes garantiu uma posição de liderança quando a comunidade se tornou sedentária e não mais poderia consentir a partilha do território com os povos.  Desta foram, conhecer o passado garantia a autoridade da família real e manter este conhecimento significava conservar o poder, a unidade e a defesa de todos.

Inferimos este conceito de preservação da tradição da persistência, através das sepulturas nas quais os objetos funerários correspondiam aos símbolos de identidade cultural das comunidades que habitavam a Piéria, a saber: fíbulas em forma de oito, machado triplo (ritual), a espada de guerra e o diadema da morte.  São, estes, objetos que marcam uma distinção cultural (comunidades ligadas ao complexo cultural do norte) e funções sociais eleitas como prioritárias: espada/guerra; machado triplo/sacrifício; fíbula/adorno; diadema/alteridade - vida/morte.

É interessante observar que estas conclusões são respaldadas pela concepção de Bruno d'Agostino e Alain Schnapp (8) que consideram as sepulturas e os ritos funerários como sendo o resultado de atos intencionais, de condutas determinadas no sentido de possuírem uma significação socio-ideológica, criando, portanto, na comunidade representações sociais que devem ser reproduzidas e valores que devem ser preservados.

Compreendemos o caso da comunidade de Aigai, como centro político da realeza, através da dinâmica da oposição centro/periferia aliada a variável: mudança/resistência.  Para estes dois processos encontramos duas explicações que nos pareceram apresentar pontos comparativos pertinentes ao caso da Macedônia.   Lotte Hedeager (9) ao estudar as relações dos germanos (periferia) com os romanos (centro), demonstra que a circulação da cultura dos romanos fez com que, em relação aos germanos, se processasse uma hierarquia social encabeçada pela atividade guerreira, a formação de confederações tribais e a utilização da cultura material romana como bens de prestígio.  A circulação da cultura provocou mudanças de ordem política, mas as tradições locais foram mantidas.

A professora Haiganuch Sarian (10), quando analisa a questão da civilização micênica - continuidade e rupturas-, apresenta a tese de que as comunidades periféricas à sociedade micênica e a revolução políade apresentam um processo de continuidade cultural mais acentuado.

Estes fenômenos - comunidade periférica, resistência a mudança e conservação da tradição - aparecem indubitavelmente na história dos macedônios.  Podemos, portanto, afirmar que no VIIIº século as comunidades de pastores transumantes da Piéria iniciam um processo de sedentarização e emergência do poder político de uma elite guerreira que se organiza em forma de realeza através da liderança da família dos Argeadae/Temenidae.  As tumbas do tipo do "guerreiro" demonstram a formação de uma hierarquia social e o mobiliário funerário indica a preservação da tradição e da cultura como elemento de identidade social.

As sepulturas da necrópole de Vergina/Aigai e de outros sítios da Macedônia, correspondentes ao VIIIº/VIIº séculos a.C. apresentam objetos típicos da cultura do norte, como o machado triplo, os discos em omphalós, o diadema mortuário e principalmente a decoração da cerâmica com motivos geométricos, destacando-se os círculos e semicírculos concêntricos, decoração favorita das tumbas mais ricas.

Para demonstrar que existia entre as comunidades da Macedônia uma larga tradição de manutenção dos padrões culturais, observamos um dos traços culturais, aquele que se refere à decoração da cerâmica com motivos geométricos desde o Neolítico até a Idade do Ferro (VIIIº/VIIº séculos a.C.) e constatamos a permanência deste tipo de decoração.  A região, entre os rios Áxios e Haliacmon, conheceu na representação gráfica nenhuma outra forma que não fosse a geométrica até 700/650 a.C.

A Macedônia, entre os rios Áxios e Haliacmon, foi povoada desde o Neolítico até a Idade do Ferro por diversas comunidades com culturas diferentes, mas formaram um complexo cultural comum o qual passou a ser compreendido como bem coletivo e indicador de pertença/identidade.

Inicialmente a cultura neolítica se generalizou, com padrões culturais específicos.  Mas, durante a cultura do Bronze e do Ferro conviveram simultaneamente padrões culturais diversos.  As mudanças seguiram um ritmo diferente não só nas regiões da Macedônia que tendem para uma unidade cultural, mas também em relação às regiões mais ao sul da península Balcânica que vão formando a cultura Micênica.  A partir da Idade do Bronze já poderíamos dizer que o norte organizado em Chefias e o sul em Realeza palaciana Micênica marcavam a distinção centro/periferia.

Como dissemos acima, existe entre as comunidades macedônicas, uma coerência social e problemas comuns.  Os grupos conviviam com a diversidade cultural e étnica, mas se reconheciam como os mesmos em relação aos povos do sul.

Faremos uma pequena síntese do povoamento da Macedônia para que fique clara a formação da identidade cultural.

Hammond (11) apresenta, para a cultura neolítica, uma periodização que vai de 6200 a.C. a 2800 a.C. Durante este período, as comunidades neolíticas das regiões do norte da Macedônia entram em contato com a cultura neolítica chamada de Starcevo, da região da antiga Iugoslávia, com a cultura Karanovo/Vinca,(Trácia) da região atual da Bulgária, com a Cultura Cris, da atual Romênia e com a cultura Koros, da atual Hungria.  Os sítios de Vrsnik e Anza, a nordeste do rio Áxios, já apresentam artefatos de cerâmica que reproduzem as características da Cultura de Starcevo, Karanovo e Vinca.

Marija Gimbutas (12) estuda o sítio de Anza, de 7000 a.C. a 5000 a.C. Observa que Anza era uma aldeia organizada e a seqüência estratigráfica apresenta uma ocupação contínua, sendo o sítio abandonado em 5000 a.C.  Os artefatos, a técnica, a decoração, o estilo da cerâmica demonstram uma intercomunicação deste assentamento com a Cultura de Starcevo e Karanovo.  A autora apresenta um quadro no qual a cerâmica pintada de vermelho, marrom e branco da Cultura de Starcevo aparece em Anza por volta de 7080 a.C.  Os desenhos florais geometrizados de Starcevo  aparecem em 6900 a.C, os motivos geométricos em 6700 a.C e os motivos geométricos com linhas quebradas da cultura Karanovo em 5300/5000 a.C.  Além da cerâmica pintada, o sítio de Anza continha sepulturas em pithoi (6300/6000 a.C.), com berloques, contas e flautas, (6000 a.C.); figuras femininas estereotipadas (5800/5500 a.C.), ossos de animal canelado (5300 a.C.).  Tais aspectos, segundo a autora, ligavam-se já à cultura Karanovo/Vinca, como também um pithos em forma de pássaro pintado em vermelho (5300 a.C.).  Para a arqueóloga, o rio Áxios (Vardar) foi a via de penetração da Cultura de Starcevo e Karanovo da Pelagônia até Vergina/Aigai (no sudeste do Haliacmon), no norte da Piéria.

Hammond (13) verifica que ainda no Neolítico, o sul da Macedônia entrava em contato com a cultura neolítica de Sesklo (Tessália - 6000 a.C.).  Nos sítios de Sérvia, Malik, Porodin, Vergina, por exemplo, ele encontrou cerâmica com incisões, sepultura em tumulus, casas mais ou menos quadradas, algumas apresentando sinais de três divisões internas, artefatos em cerâmica em forma de casa, modelos em cerâmica de altares, falos em cerâmica e figuras femininas de argila.

Borza apresenta uma periodização para o Neolítico macedônico.  O Neolítico Antigo iria de 6200 a 5300 a.C. Toma como exemplo o sítio de Nea-Nicomédia, onde encontra vestígios de casas, cemitérios e objetos que estariam ligados a cultura proto-Sesklo. O Neolítico Médio se estenderia de 5000 a 4000 a.C. O sítio analisado é, neste caso, o de Sérvia onde a cultura material encontrada já seria típica da cultura de Sesklo e Karanovo, enquanto o sítio de Porodin, na Pelagônia apresentaria traços da cultura de Starcevo.  O Neolítico recente caracterizaria a fase de 4000 a 2800 a.C., quando ele observa um certo movimento cultural que atribui à movimentação de povos na área do rio Áxios.

Corvisier (14) nos oferece um levantamento do total de sítios estudados na Macedônia.  Segundo ele são: 100, correspondendo ao Neolítico, 70 ao Bronze Antigo, 60 ao Bronze Médio, 80 ao Bronze recente, 110 para a Idade do Ferro A e 130 para o período Clássico.  Segundo os seus cálculos, os sítios do Neolítico possuem uma densidade demográfica de 0,1 a 0,5 habitantes por km2, enquanto os da Idade do Ferro A teriam uma densidade de 4 habitantes por km2.  Este dado já nos indica um crescimento populacional durante a Idade do Ferro e se aproxima dos modelos de vaga avançada e de supremacia de uma elite, sugeridos por Renfrew, que estudaremos mais adiante.  Os dois modelos, de uma certa forma, são confirmados pelo aparecimento da "tumba do guerreiro" como indicativo da hierarquização social.  Para Corvisier existem nuances regionais, mas a tendência é ao aumento demográfico.

Encontramos uma referência diferente no livro coordenado por Treuil, onde aparece, para o Neolítico Médio uma densidade demográfica já de 4 a 5 habitantes por km2.  Tal obra sugere ter havido uma queda e, posteriormente, uma nova elevação demográfica (15).

Colin Renfrew (16), ao discutir a questão da língua dos indo-europeus, propõe dois modelos gerais para se opor às explicações migracionista/invasão e difusionistas da passagem de sociedades simples a sociedades complexas.  Ele apresenta o modelo de Vaga avançada e o modelo de Supremacia de uma elite - modelos estes que reforçam as teses de Claude Berard, Bruno d' Agostino, Gianni Modesti e Patrizia Gastadi.

O modelo de Vaga avançada parte dos elementos seguintes: 1º - existe um movimento demográfico de curta distância, por gerações; 2º - a adoção da agricultura num território de caçadores/coletores ou de pastores provoca um crescimento demográfico; 3º - a introdução de técnicas agrícolas faz crescer a população de 1 hab.por km2 para 5 hab. por km2 ; 4º - quando a população atinge uma densidade maior que a capacidade da inovação técnica aparece no modelo um ponto de saturação.  Sendo assim, é possível que cada nova geração forme uma Vaga avançada e se desloque aleatoriamente de um determinado ponto; 5º - a progressão da Vaga avançada foi exemplificada da seguinte forma: Se a densidade demográfica de cultivadores/pastores se elevar a 5 hab. por km2 e a população dobrar em 18 anos, o primeiro movimento da Vaga avançada será fixado num movimento aleatório de 18 km para cada geração (25 anos), neste caso a Vaga avançada se desloca 1 km por ano; 6º - a nova economia agrícola foi a que permitiu que a população ultrapassasse a densidade de 0,1 hab.por km2 e chegasse a 5 ou 10 hab por km2.  Sendo assim, o deslocamento da vaga de cada geração dos locais das "fazendas" distava de 20 a 30 km.  Portanto, as crianças que começavam a nascer já estariam distantes de seus ancestrais e da cultura de seus pais; 7º - a Vaga avançada, de acordo com a região que vai ocupando, ajusta seu conhecimento aos recursos naturais, introduzindo e adaptando os vegetais e animais que com ela vieram e explorando tudo aquilo que fosse novo.  Experimentam novas técnicas, novas plantas e animais.  Novas aldeias são construídas e o processo se inicia para formação de uma nova Vaga avançada; 8º - A interação social, entre as comunidades, se faz através de uma rede de trocas entre iguais.

Renfrew não descarta, ao tratar da Vaga avançada, as variáveis ligadas ao desejo de aventura, à vontade de conhecer lugares longínquos, à expulsão de um membro da comunidade e outros casos particulares.  E não abandonamos a variável de invasão: ela pode aparecer, dependendo das circunstâncias relativas ao equilíbrio e segurança das fronteiras.  Para ele, o resultado global da Vaga avançada será sempre o mesmo, ou seja, a agricultura se propaga para o exterior da zona cultivada numa proporção relativamente estável.

Este modelo pode ser aplicado para qualquer comunidade que venha incorporar uma nova técnica para exploração econômica, suscetível de produzir o aumento da população, a densidade demográfica e um ponto de saturação no interior do sistema social. 

Renfrew alia o modelo de Vaga avançada ao de Supremacia de uma elite.  O modelo de Supremacia de uma elite pressupõe: 1º - que a sociedade seja organizada e que já apresente uma hierarquia ou estratificação social, diferenciada das relações de parentesco, 2º - que o comando seja assegurado por um chefe, sustentado por guerreiros e por uma administração central, 3º - a Vaga avançada é composta de um grupo imigrante socialmente organizado, com eficácia guerreira que permite submeter à população anteriormente existente.

O autor considera que, numa sociedade de chefia, embora haja uma certa centralização, não existe burocracia administrativa associada ao Estado.  A sociedade não se divide em classes sociais, mas funciona por um sistema hierarquizado através das relações de parentesco, ou por relações de proximidade com o chefe, ou ainda por atividades diferenciadas como guerreiros, sacerdotes e artesãos especializados.  Muitas vezes, neste tipo de sociedade aqueles que dominam as técnicas eqüestres se sobrepõem aos demais politicamente.

Arqueologicamente, d'Agostino e Bailo Modesti explicaram, através da análise do mobiliário funerário, a emergência política de uma elite guerreira em sociedades do tipo tradicional.  Os dois arqueólogos observaram a existência de uma sociedade de chefia guerreira, através das diferenças do habitat e pelas sepulturas individuais com a presença de objetos funcionais (armas) e bens de prestígio depositados cuidadosamente em tumbas masculinas e femininas.  Estes dados indicariam a presença de um chefe e de uma estratificação social, marcando a formação de uma elite guerreira.

Tratemos agora de introduzir nestes modelos dois outros componentes.  Em primeiro lugar, o fator renovação, que pressupõe que as inovações numa sociedade circulam de acordo com o controle que certos grupos possuam dos veículos de informação de que dispõe a sociedade.  Assim, determinados grupos sociais se diferenciam dos outros, seja, pela capacidade de absorver o novo, seja por se manter ligados às práticas antigas.  Este jogo de mudança e permanência vai delinear os níveis ideológicos dos estratos sociais.  O fator renovação nos induz a afirmar que o homem em sociedade é criador de significados e os transmite às novas gerações, criando práticas sociais que se tornam hábitos norteadores das referências existenciais e identitárias.  Portanto, a renovação pressupõe a quebra desses hábitos, exigindo do homem, dos grupos sociais uma tomada de decisão, uma habilidade em perceber as oportunidades e manter-se continuamente informados.

Segunda variável: a fricção-étnica ou interétnica, provocada pelo encontro entre duas culturas, produzindo a valorização dos costumes ancestrais como forma de defesa e de manutenção da identidade social.

Os modelos de vaga avançada e emergência política de uma elite guerreira podem ser aplicados ao caso da formação da realeza dos macedônios. As sepulturas de Vergina/Aigai apresentam as mesmas distinções funcionais das da Campânia; e a persistência da decoração com motivos geométricos nos indica a manutenção da tradição, assegurando à elite guerreira e à família do chefe/rei o exercício do poder político.

A análise do sítio de Anza nos indicou que as comunidades neolíticas reagiram às inovações técnicas produzidas pela divulgação do trabalho com o bronze e posteriormente com o do ferro e até mesmo à fundação da realeza, mas uma identidade cultural foi se consolidando no interior do éthnos dos macedônios, que se apresentaram como preservadores da tradição ancestral/sagradas.  Este processo de preservação da cultura pode ser explicado pelas condições da Macedônia, um lugar de passagem de povos e de economia predominantemente pastoril.

Para se compreender a formação da identidade étnica dos macedônios e sua prática de resistência às mudanças, faremos um breve histórico da ocupação, conquista e fixação dos macedônios.

Os indo-europeus (bronzeiros) chegam à Macedônia, segundo Hammond, por volta do ano 2600 a.C., quando já se percebe sua presença nas margens do rio Áxios.  O mesmo historiador afirma que teria havido uma outra vaga aproximadamente no ano de 1350 a.C., com a qual ele já considera iniciar-se a Cultura do Ferro na Macedônia.

Corvisier, Sakellariou, Borza e Gimbutas apresentam uma situação um pouco mais complexa.  A Idade do Bronze estaria associada, na Macedônia, a três culturas: 1º- a cultura Kurgan (2400/2300 a.C.); 2º-  a cultura dos brígios ou a de cerâmica de Lausitz (1140/1080 a.C.) e 3º- a cultura trácia, que estaria presente na Macedônia desde a Idade do Bronze Antigo até 1400/1200 a.C.

Hammond, Corvisier, e Gimbutas acreditam que a cultura do tipo Kurgan é indo-européia.  A cultura Kurgan seria um complexo cultural que provocou modificações na Europa a partir de 3500 a.C.  Ela se espalha pela Macedônia, Épiro e Tessália.

Hammond apresenta o estudo de sítios arqueológicos do tipo Kurgan na Sérvia e em Vergina/Aigai, na Piéria, mas considera que tal cultura teria se espalhado da Pelagônia a Histiaeotis, no monte Olimpo.  Esta cultura ocupou o vale do Haliacmon e seria formada por vários grupos com diferentes dialetos indo-europeus, dentre eles o Dorikon Makednon éthnos, citado por Heródoto, que mais adiante iremos analisar.  Seriam pastores transumantes que já haviam domesticado o cavalo e o cachorro.  Este éthnos, como os demais indo-europeus, não era exclusivamente formado de pastores, mas os pastores/guerreiros é que constituíam a elite que exercia o poder político.

Sakellariou e Borza consideram que a cultura Kurgan corresponderia uma mistura de etnias, entre as quais estariam os indo-europeus, que se deslocaram da Ucrânia ou das estepes euro-asiáticas e daí desceram para a Macedônia.  Esta cultura se caracteriza por traços com o machado de combate, armas (pontas de lança, clavas de pedra e espada), sepulturas em tumuli individuais/intramuros, cerâmica cordada, carro de guerra, casas de madeira com plano retangular e absidal parcialmente enterradas, mós, pilões de moer e o uso do motivo de círculos concêntricos na decoração da cerâmica.

Sakellariou apresenta a cultura Kurgan na Macedônia desde o Bronze Antigo ou Heládico Antigo III, compreendendo vários éthne entre eles os dos macedônios, dos magnetas (Tessália) e os molossos (Épiro).  Na sua interpretação, o monte Lakmos, na cadeia do Pindo, teria sido povoado pelo éthnos dos Makednoi.  Os sítios de Cultura Kurgan são, para ele, aqueles nos quais se encontram: 1º - Tumuli funerários – com tumbas em fosso, em cista e tumbas em pithoi.  Os tumuli são montículos artificiais de terra onde abrigam sepulturas individuais,(talvez necrópoles da elite guerreira); 2º - nas sepulturas aparecem: ocre, pele de animais, cerâmica cordada, armas (lanças, facas e espadas), machado de combate em pedra, alfinetes de bronze, 3º- casas em forma abobadada (absidal).

Borza afirma que, entre 2600 e 1900 a 1600 a.C., a seqüência estratigráfica dos sítios de Sérvia e Vergina demonstram que estas localidades foram povoadas por povos de língua protogrega.

A cultura trácia estaria presente na Macedônia desde o Heládico Antigo III até 1400/1200 a.C. Tal cultura corresponde uma mestiçagem de etnias e segundo Hoddinott (17) foi responsável pela cultura de Karanovo, durante o Neolítico.  Na Idade do Bronze, esta cultura atravessa o rio Áxios e se expande até a Tessália.  Os sítios considerados típicos da cultura trácia apresentam sepulturas em cista, onde se encontram machados, armas, furadores, cerâmica com desenhos geométricos simbolizando o sol, cornos de animais em forma de lua crescente, espirais, círculo solar com uma cruz atravessada, linhas quebradas, recipientes antropomorfos e figuras femininas.  Hoddinott informa-nos que essa cultura era formada essencialmente de pastores que procuravam planícies férteis.

Durante a pesquisa, verificamos que a cultura trácia marcou de tal maneira a região da Macedônia que nos documentos textuais, os trácios aparecem como ocupantes de algumas regiões da própria Macedônia.

Mais ou menos contemporâneos aos brígios chegaram os peônios entre 1150/1080 a.C. Os sítios indicam sua presença, pois aparece um tipo de cerâmica em forma de âncora, cerâmica desenhada com símbolos circulares em linha cheia ou pontilhada, círculos e quadrados cruzados.  Este símbolo cruzado permanecerá em outros suportes.  Bem mais tarde o encontramos, por exemplo, no anverso das primeiras moedas dos peônios e dos próprios macedônios. 

A cultura dos brígios foi responsável pela cerâmica de Lausitz.  Na Macedônia, ela é datada de 1140/1080 a.C. até 800 a.C. Eles foram ocupando regiões onde estavam os grupos chamados de cultura peônia e chegaram até Vergina/Aigai, convivendo ou deslocando os éthne de cultura Kurgan, entre eles os macedônios.  Corvisier acredita que os brígios dividiram o território do Bermion com os macedônios.  Na região do Monte Bermion teriam como centro de povoamento a localidade de Edessa.  Talvez por esta razão a historiografia do início do século XX tenha considerado Aigai como Edessa.

Hammond explica que os brígios se moveram do norte do Áxios, entrando pela Pelagônia. Expulsaram os peônios do vale norte do Áxios.  Um grupo seguiu em direção a Ilíria, o Épiro, a oeste; e outro grupo se dirigiu para o sul até Vergina. Neste movimento, empurraram os molossos, para o Épiro (Dodona), os Argeadae Makedones do Bermion para Piéria e os Orestae para Orestida.  Estes últimos teriam estabelecido pequenas aldeias (kómai) sem muros em Boufari (que, segundo Corvisier, seria a região de Lebaia citada por Heródoto).

Em relação à incineração na Idade do Bronze Recente e os sítios em campos de urnas, que estariam ligados aos brígios, encontramos entre os pesquisadores uma tendência a mostrar que esta forma de sepultamento foi temporária. A inumação tendeu a predominar em túmulos em forma de cista individuais ou, no interior, em túmulos coletivos em forma de tholoi (construção circular). Uma outra observação, em relação aos campos de urnas, é que foram encontrados sítios com esta forma de sepultamento - urnas com cinzas do morto - desde o Bronze Antigo I, o que nos leva a crer que não corresponde a um traço cultural exclusivo dos brígios.

Um outro dado referente à incineração e à inumação é que estas práticas não indicariam a presença de novos povos, mas sim, concepções que projetavam numa ideologia funerária a divisão social de classes de idades e de sexos.

Parece que todas essas culturas que se desenvolveram durante a Idade do Bronze utilizaram-se da prática de inumação, o que nos levaria a inferir uma unidade religiosa pelo menos no referente à morte, seus ritos e sua estética.

Os brígios movimentaram-se para a Frigia por volta de 800/700/650 a.C. Segundo a explicação mais freqüente que encontramos, isto seria resultado de um movimento geral, em que os cimérios pressionam os trácios, os peônios e os ilírios.

Ainda no Bronze recente foram encontrados sítios datados de 1350/1150 a.C., no sul e no centro da Macedônia, onde aparecem vasos pintados no estilo micênico.  A forma, mais difundida, nestes sítios, é o skyphos.

Podemos verificar que a Idade do Bronze na Macedônia foi formada por uma rede de povos que produziram uma cultura material calcada principalmente na inumação, na fabricação de armas (a espada de ferro encontrada nos tumuli) e na fabricação de objetos de adorno pessoal feminino como - fíbulas, anéis e braceletes.  A cerâmica era decorada com formas geométricas: círculos, círculos concêntricos, círculos cortados em cruz, espirais, linhas quebradas, linhas pontilhadas, linha reta, ziguezagues, triângulos e quadrados.  Motivos estes que permaneceram nos vasos das sepulturas da Idade do Ferro.  Os motivos geométricos parecem ser uma marca destes povos.  Eles estão presentes do Neolítico à Idade do Ferro, sem nenhum desvio, pelo menos, até agora encontrado.

O repertório de formas predominantes dos vasos, durante o VIIIº ao VIIº séculos a.C., são as tigelas com as bordas decoradas com incisões, os cântaros com alças em forma de cornos de cabra, os cântaros com bico, as crateras e o skyphos (importado do sul).

Quanto à situação do povoamento dos sítios encontra-se grande variedade.  Ora nos sítios aparecem sinais de incêndio, ora de abandono, ora de continuidade do povoamento.  Com isto não nos é possível decidir se as rupturas da ocupação tenham resultado de uma grande invasão, de infiltrações ou de Vaga avançada.  O certo é que a cultura circulou e se mestiçou entre as diversas etnias, formando um complexo cultural padronizado facilmente reconhecível, e que a região da Piéria, Vergina/Aigai foi, com certeza, um assentamento permanente do ano 1000 a.C. ao I séc.a.C.

A Piéria e a Emathia tiveram contatos estreitos com o norte da Península Balcânica e, esporadicamente, com o leste do Egeu e com o sul micênico. As regiões centrais e do noroeste voltaram-se predominantemente para o norte da Europa.  De qualquer forma, a Macedônia ficou muito mais ligada ao conjunto cultural do norte/oeste/leste balcânico (periferia) do que com o sul micênico (centro – palaciano/micênico e depois políade).

Uma outra observação que fizemos através dos pesquisadores que lemos é que, para a Idade do Bronze na Macedônia, não foram encontradas construções do tipo palaciano, como as de Pilos ou de Micenas.  Por exemplo, em Vergina, Edessa e Boufari o que havia eram assentamentos aldeãos, sem muralhas, onde as culturas Kurgan, trácia e brígia predominavam, permanecendo até o VIIIº/ VIIº séculos a.C.

As indicações da cultura material encontrada entre os rios Áxios e Haliacmon, até o monte Olimpo, mostram que os macedônios, os trácios e os brígios eram culturas guerreiras; e que os objetos micênicos estavam presentes através de contatos de trocas esporádicas: é o caso, por exemplo, em Amydon, no Áxios.

Confirma-se a nossa hipótese de que há uma preservação da tradição na Macedônia, entre os diversos éthne, quando observamos que na Idade do Ferro a presença dos ilírios (800/700 a 650 a.C) e dos helenos do sul (730 a.C- Metone, Mende) coincide com a emergência política de uma elite guerreira, já organizada e capaz de fazer de Aigai o centro político da realeza, fato demonstrado pela necrópole de Vergina com o sepultamento do tipo "tumba do guerreiro" (18).

Heurtley considerou para a Macedônia, a Idade do Ferro como se estendendo de 1100 a.C. a 650 a.C; Andronicos de 1000 a.C a 700 a.C. e Hammond de 1050 a.C a 550 a.C. Isto significa que as comunidades aldeãs agrícolas e tribos de pastores/guerreiros predominavam, e a malha urbana era rara, aparecendo no litoral através da colonização helênica do VIII ao VII séculos a.C.

Hammond considera que os macedônios do oeste em 1150/1100 a.C., ao se movimentarem sob a pressão dos brígios, teriam se desmembrado em três éthne: os makednos que se instalam na Piéria, os magnetos que se dirigiram para Tessália e os dórios que passaram pela Tessália e se deslocaram para o sul. Observa que Edessa e Vergina entre 1400 a 800 a.C. são sítios de colonização dos brígios e dos macedônios, e que por volta de 1100 a.C. os brígios e macedônios Argeadae/Teminidae teriam formado uma primeira forma de unidade política, sinoikía.

Para ele somente as seqüências estratigráficas das escavações de Vergina datadas de 725/700 a.C., onde aparece a "tumba do guerreiro", indicaria a liderança dos macedônios promovida pela família Argeadae/Teminidae.  A necrópole de Vergina será posteriormente sede da Tumba Real (da mesma família).

Se brígios e macedônios dominaram esta região durante a Idade do Bronze e do Ferro, (cultura Kurgan/brígios) em 900 a.C. e se o sinal da emergência do poder político (elite guerreira/ realeza guerreira sagrada) aparece através da tumba do guerreiro, antes da chegada dos ilírios (800 a.C. até 650 a.C.), podemos inferir que o período de 900 a 650 a.C. foi o tempo de formação, consolidação da realeza dos macedônios e que o rei era da família Argeadae/Temenidae, citada na documentação textual.

Confirmando esta premissa, Sakellariou nos diz que em Vergina, entre o Heládico Médio/Recente e a Idade do Ferro, de 100 tumuli estudados pelos arqueólogos, 350 sepulturas são em poço ou cista, o que indica a presença da cultura Kurgan.  O mesmo fato aparece na Pelagônia e na Lincestida.

Corvisier também nos fornece dados que confirmam o período de 900/650 a.C. para a fundação da realeza.  Ao estudar o povoamento da Macedônia, no livro já citado, nos indica que existem, nos sítios explorados na Macedônia, dois tipos de cerâmica durante a Idade do Bronze e a Idade do Ferro.  Assim, segundo sua classificação, teríamos uma cerâmica local que é fortemente marcada pela continuidade (Kurgan), e uma cerâmica importada.  A diferença entre estes dois tipos de cerâmica aparece por volta de 1350 a.C., quando a decoração com ornamentos retilíneos desaparece em favor de ornamentos largos, redondos, espiralados, combinados com triângulos e ziguezagues e a cerâmica de Lausitz (canelada), embora esta última cerâmica tenha sua data de aparecimento discutida.

Corvisier considera que de 1080 a 800 a.C. é certa a presença do éthnos dos macedônios na Piéria.  Acha que a cerâmica da Idade do Ferro é resultado de uma mistura entre elementos locais e importados.  Andronicos confirma esta opinião quando afirma que a maior parte da cerâmica advinda da necrópole de Vergina é feita à mão e testemunha a continuação das técnicas de tradição local.

Este diálogo com a Arqueologia nos permitiu comprovar, através da cultura material, algumas hipóteses.

A Macedônia foi povoada por diversos éthne com culturas diversas, estando entre eles os macedônios, que eram indo-europeus, pastores, guerreiros, bronzeiros/ferreiros e agricultores (chamados de cultura Kurgan).  Tal região foi um corredor de movimentação de povos e culturas, mas viu surgir do Neolítico à Idade do Ferro um padrão cultural que unia as comunidades e possibilitava a formação de uma identidade sócio-cultural.

Passou de chefias locais para realezas locais entre 900 a 650 a.C., entre elas a dos Argeadae/Temenidae. As sepulturas desta época demonstraram que o mobiliário funerário marcava a emergência política de uma elite guerreira.  As tumbas valorizavam a função social e faziam da elite guerreira alvo da atenção socio-política.

Durante o VIIIº e VIIº séculos a.C. a Macedônia corresponde espacialmente à periferia das regiões em que se processava a emergência políade.  Frente a expansão das póleis, estas sociedades reagem às mudanças que provinham das regiões políades voltando-se para o passado e reativando um processo de valorização da tradição ancestral.  A elite guerreira de pastores recupera a autoridade da família que guarda as tradições sagradas e promove a emergência do poder político unindo as populações da Piéria num centro fixo – Aigai - e desenvolvendo um processo de revificação de identidade cultural (norte/periferia/realeza-éthnos).

 

  NOTAS

1. HAMMOND, A History of Macedonia. op. cit. p. 220; CORVISIER op. cit. passim.; Sakellariou op. cit.  passim; ANDRONICOS.  Vergina: The Royal Tombs. Athène, Ekdotike Athenon, 1984, pp 27/30; GIMBUTAS, M. Excavation at Anza, Macedonia.  Archaeology, vol.25, n.2, 1972, pp. 113/123; RENFREW. op.cit. p.84 ; BÉRARD,CLAUDE,D' AGOSTINO, BRUNO; SNODGRASS,A.; GASTALDI,PATRIZIA; MODESTI G.B. In: La mort,les morts dans les sociétes Anciennes,op.cit. passim.

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2. BÉRAD,CL.  Récupérer la mort du prince: héroïsation et formation de la cité. ídem pp.89/106.

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3. SNODGRASS,A.   Les origines du culte des héros dans la Gréce antique. ídem.pp 107/120.

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4. MODESTI,G.B.  Oliveto-Cairano: L' emergence di un potere politico. ídem. pp 241/256; GASTALDI, P.   Le necropoli protostoriche della Valle del Sarno: il passagio dalla qualità alla quantità, ídem. pp.223/240; D' AGOSTINO, B.  l' ideologia funeraria nell' età dek ferrio in Campania. ídem. pp 203/222.

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5. ANDRONICOS, M.  Vergina: The royal tombe and the ancient city. Athens: Ek.Athenon S.A., 1984,pp 28/29.

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6. ANDRONICOS, M. ídem. p.25.

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7. HAMMOND, N.G. L.  Alejandro Magno: Rey,general y estadista. Madrid: Alianza Editorial, 1992, p.28.

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8. D' AGOSTINO, B. & SCHNAPP, A.  Les morts entre l' objet et l'image. op.cit. pp 27/44.

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9. HEDEAGER,LOTTE  La Frontière et l'Hinterland Barbare: Rome et L' Europe du Nord. in: Centre and Periphery in the Ancient world. op.cit. pp.123/139.

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10.  SARIAN, HAIGANUCH  La civilisation. in: Les civilisations égéennes du Néolithique et de l'Age du Bronze. op.cit. pp 585/ 593.

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11. HAMMOND. N. G.L.  A History of Macedonia. op. cit. p. 220.

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12. GIMBUTAS.  op. cit. p. 122.

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13. HAMMOND. A History of Macedonia. op. cit. pp.219/220.

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14. CORVISIER. op. cit. p.189.

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15. TREUIL. R et al. Le néolithique et le Bronze Ansíen Égéens. Paris: Boccard,1983, p.122/125.

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16. RENFREW, Colin.  L'énigme indo-europeenne: Archéologie et langage. Paris: Flamarion, 1990, pp 154 e 160; HEURTLEY, W.A.  Prehistoric macedonia an Archeological reconaissance of Greek Macedonia.  In: The Neolitic,Bronze and Early Iron Ages, Cambridge: Cambridge University Press,1939, passim.

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17. HODDINOTT, R.F. Les Traces. Paris: Armand Colin, 1990, pp.16/22; PLATON, Nicolas.  La civilisation égéenne: le bronze récent et la civilisation mycénienne. Paris : Albin Michel, 1981, passim.

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18. HAMMOND.   A History of Macedonia. op. cit. pp. 326 e 444 Appendix- (pranchas); Andronicos. op.cit. p. 114.

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